Teólogo teme que perdão do papa a radicais lese diálogo com judeus

José Maria Mayrink - O Estado de S.Paulo

Dominicano francês prevê que levantamento da excomunhão de tradicionalistas terá consequências negativas

Em visita ao Brasil, onde deu curso de quatro dias sobre o futuro do cristianismo, o teólogo francês Claude Geffré, de 83 anos, frade da Ordem dos Pregadores (dominicanos), falou sobre as relações da Igreja Católica com outras religiões. Ele prevê que o levantamento da excomunhão dos bispos tradicionalistas da Fraternidade São Pio X terá consequências negativas. Ex-diretor da Escola Bíblica de Jerusalém, onde manteve contato com professores e estudantes judeus nos três anos que passou em Israel, frei Geffré teme que as declarações de um dos perdoados, o britânico Richard Williamson, negando o Holocausto, comprometam o entendimento entre Igreja e judaísmo - exatamente aquele em que o diálogo mais avançou nos últimos 40 anos (mais informações nesta página). A seguir, trechos da entrevista. DIÁLOGO INTERRELIGIOSO Há mais de 40 anos, o Concílio Vaticano 2º fez um julgamento positivo das religiões não cristãs, no sentido de que a Igreja encoraja o respeito em relação às demais tradições religiosas. A questão é saber em que medida o diálogo é possível entre o cristianismo e as grandes religiões, sobretudo o Islã. A vontade de diálogo da Igreja supõe disposição recíproca dessas religiões. O diálogo do cristianismo com o Islã é muito difícil. O diálogo com as grandes religiões do Oriente, também. E o mais difícil é o diálogo no plano doutrinal. Mas é possível na vida cotidiana e na luta por grandes causas, como a defesa dos direitos do homem, o controle da violência e dos conflitos, a proteção da natureza e da criação. CATÓLICOS E MUÇULMANOS O diálogo com o islamismo é um diálogo de culturas. No plano doutrinal é difícil, porque o Islã questiona dogmas fundamentais do cristianismo, como o reconhecimento da filiação divina de Jesus e o reconhecimento de um Deus uno em três pessoas. Houve em Roma um fórum com 25 especialistas católicos e 25 muçulmanos que chegaram a proposições convergentes com relação à liberdade religiosa, à diversidade de cultos, ao estatuto da mulher, a tudo que se refere aos direitos do homem. IGREJA E JUDEUSFoi nas relações entre judaísmo e catolicismo que a Teologia das Religiões mais avançou. Ultrapassamos o que era uma teologia da substituição pura e simples de Israel pela Igreja. Hoje se fala da coexistência. Valores próprios do povo de Israel, como a eleição e a aliança, permanecem. A justificação do povo judeu é possível mesmo que ele não desapareça para se confundir com a Igreja. Difícil entender essa iniciativa do papa Bento XVI, que retomou da teologia antiga a prece pela conversão dos judeus. Penso que hoje não podemos rezar pela conversão dos judeus como rezamos pela conversão dos pagãos. Porque os judeus podem alcançar a salvação pela observância da lei. O cristianismo complementa o judaísmo, mas não o substitui. BENTO XVI O papa está na linha de João Paulo II, pois reconhece os judeus como irmãos mais velhos dos cristãos. Mas houve dificuldades a propósito da retomada da missa e da liturgia de São Pio V, que inclui a oração pela conversão dos judeus. Isso foi mal recebido pelos judeus. Depois houve o episódio muito infeliz com relação ao Holocausto. O levantamento da excomunhão dos quatro bispos cismáticos discípulos de d. Lefebvre foi seguido pela entrevista de um deles, que negou a existência das câmaras de gás. Compreendo e respeito a vontade constante de Bento XVI de pôr um fim ao cisma provocado por d. Lefebvre. Mas será que o papa, que é um grande teólogo e homem de profunda vida espiritual, avaliou corretamente o desconcerto da Igreja da França, depois da sua recente decisão? RELIGIÃO E GUERRANa faixa de Gaza, há uma instrumentalização da religião, dos dois lados. É uma verdade histórica que não houve coexistência possível entre árabes e judeus. É uma situação terrível do ponto de vista da tradição muçulmana, alimentada pelo Irã e pelos xiitas dentro do Estado. Mesmo sendo o Hamas composto por palestinos de confissão sunita, ele é financiado, sustentado e armado pelo Irã xiita, como o Hezbollah no Líbano.IGREJAS EVANGÉLICASAs igrejas evangélicas e pentecostais são muitas vezes um desafio para as igrejas tradicionais, em particular para a Igreja Católica. Conheço muito mal a situação, mas sei que as igrejas novas, pentecostais e evangélicas, têm uma relação difícil com a hierarquia católica e com os dirigentes protestantes. Mas penso que essas novas igrejas são um estímulo para suscitar na Igreja Católica o movimento carismático.GLOBALIZAÇÃOA globalização é um desafio para o mundo em geral e, especialmente, para a Igreja porque com ela se aprofunda cada vez mais o fosso entre os países ricos e os mais pobres. A globalização permitiu estender ao mundo todo os resultados do progresso científico e tecnológico, o que permite fazer recuar o subdesenvolvimento e a miséria dos países. Mas, ao mesmo tempo, representa um grande perigo, que é a uniformização da cultura, um cultura voltada para um homem considerado consumidor, e não que vive sua plenitude de humanidade.