Tentativas e erros nos seres vivos

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

O aprendizado humano e a evolução das espécies dependem de processos de tentativa e erro. Nossa mente usa intuição como fonte de tentativas e pensamento lógico para aprender com os erros. O processo evolutivo usa mutações randômicas como fonte de tentativas e seleção natural para eliminar erros. O problema é saber qual número de ciclos de tentativa e erro torna o aprendizado mais eficiente. Poucas tentativas podem nos levar a decisões precipitadas e muitos ciclos de tentativas e erro podem causar indecisão crônica e paralisia. Este dilema ocorre quando escolhemos nossos parceiros reprodutivos ou provamos amostras de queijo em uma loja.As espécies se defrontam com problema parecido. Para se adaptar às mudanças ambientais é indispensável que cada geração possua suficientes indivíduos diferentes dos pais. Esses mutantes garantem a sobrevivência da espécie quando o ambiente muda. O problema é que mutações ocorrem ao acaso. Os seres não controlam qual característica muda; por isso a maioria das mutações torna o indivíduo menos adaptado. Muitos mutantes deletérios é o preço que a espécie paga para gerar poucos mutantes bem adaptados. Isso pode levar à queda do número de indivíduos e à extinção. Mas uma baixa taxa de mutação também pode levar à extinção. Apesar da importância dessa taxa, sabe-se pouco sobre como ela é regulada. Medidas recentes confirmam uma suspeita: quanto mais complexo o ser, menor a taxa de mutação. Essa relação parece depender do tamanho do genoma. Uma bactéria tem taxa de mutação mil vezes maior do que organismos com mais DNA, como o homem. Um vírus tem taxa de mutação mil vezes maior que a da bactéria. Quando esses dados são colocados em um gráfico, fica claro que a taxa de mutação é inversamente proporcional ao tamanho do genoma. O interessante é que o paralelo com o aprendizado se mantém. Nas espécies, quanto mais complexo o genoma, menor é o numero de mutantes (tentativas) em cada ciclo reprodutivo. Nos mamíferos, quanto mais complexo o cérebro, menor o número de tentativas para o aprendizado. *Biólogo - fernando@reinach.comMais informações: Extremely high mutation rate of a hammerhead viroid. Science, vol. 323