Taxa menor de açúcar não reduz dano de diabete

Nova York - O Estado de S.Paulo

Mesmo com índice perto do normal, paciente com tipo 2 da doença tem mais chance de desenvolver problema cardíaco, segundo estudo, que foi suspenso

Durante décadas, os pesquisadores acreditaram que, se pessoas com diabete baixassem o teor de açúcar de seu sangue a níveis normais, elas não teriam alto risco de morrer de doenças cardíacas. Mas um grande estudo realizado nos Estados Unidos com mais de 10 mil pessoas com idade média de 62 anos e diabete tipo 2 revelou que a redução do teor de açúcar no sangue na verdade aumenta o risco de morte, conforme relataram os pesquisadores.Eles anunciaram anteontem a paralisação abrupta de parte do estudo, cujos resultados surpreendentes colocam em questão a maneira como a doença, que afeta 21 milhões de americanos, deve ser tratada. Os pesquisadores enfatizaram que os pacientes ainda devem consultar seus médicos antes de mudar sua medicação.Entre os participantes do estudo - que foram aleatoriamente designados a baixar seu teor de açúcar a níveis quase normais - houve 54 mais mortes que no grupo cujos níveis foram controlados com menos rigidez. Os pacientes participavam do estudo havia em média quatro anos quando os pesquisadores interromperam a redução intensiva do teor de açúcar no sangue e os colocaram no regime menos intenso.Os resultados não significam que o açúcar no sangue não seja importante. A redução do nível de açúcar pode proteger contra doenças renais, cegueira e amputação. Mas as descobertas injetam um elemento de incerteza no que tem sido o dogma - quanto mais baixo o teor de açúcar no sangue, melhor, e que reduzir os níveis do açúcar ao normal salva vidas.Especialistas ficaram estarrecidos. "É confuso e perturbador que isso tenha acontecido", disse James Dove, presidente do American College of Cardiology. "Durante 50 anos, falamos em manter o teor de açúcar no sangue muito baixo. Tudo na literatura sugere que essa é a coisa certa a fazer." Irl Hirsch, pesquisador da Universidade de Washington, disse que os resultados do estudo seriam difíceis de explicar a alguns pacientes que passaram anos fazendo esforços, via dieta e medicação, para reduzir e manter baixo o teor de açúcar no sangue. "Eles não vão querer relaxar sua vigilância", disse. Ele acrescentou que organizações como a American Diabetes Association e a American Association of Clinical Endocrinologists ficaram perplexas. Suas diretrizes estipulam metas de taxas de açúcar no sangue as mais próximas do normal possíveis.E algumas companhias de seguro pagam um extra a médicos se os seus pacientes de diabete baixarem ao máximo seus níveis. A hipótese do baixo teor de açúcar no sangue estava tão enraizada que, quando o National Heart, Lung and Blood Institute e o National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases propuseram o estudo, nos anos 1990, eles explicaram que seria ético.Apesar de a maioria das pessoas supor que taxas de açúcar no sangue mais baixas eram melhores, ninguém havia testado. Assim, o estudo perguntava se níveis de açúcar muito baixos em pessoas com diabete tipo 2 - a forma que afeta 95% desses pacientes - protegeriam contra doenças cardíacas. Alguns disseram que o estudo, embora ético, seria impossível. Duvidavam que participantes conseguiriam os níveis baixos.Os participantes tinham idade média de 62 anos e eram diabéticos havia cerca de dez anos. Eles também tinham doenças cardíacas ou outras condições, como colesterol alto e hipertensão, que os colocavam em risco adicional. O estudo testou três tipos de tratamento simultaneamente. Controle de taxa de açúcar intenso ou menos intenso; controle de colesterol intenso ou menos intenso; e controle de pressão sanguínea intenso ou menos intenso. A parte sobre colesterol e pressão prossegue.THE NEW YORK TIMES