Suspenso anticoncepcional injetável

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

Três lotes do Contracep, aplicado em 200 mil mulheres de todo o Brasil, podem permitir gravidez indesejada

A Vigilância Sanitária de São Paulo proibiu ontem, em todo o Estado, a venda e o uso de três lotes do anticoncepcional injetável Contracep, fabricado pelo laboratório EMS-Sigma Pharma. O produto deveria proteger a mulher contra gravidez por três meses. No caso dos lotes 080501-1, 080496-1 e 087359-1, essa proteção não está garantida em razão de problemas na composição química do anticoncepcional.Doses dos três lotes também foram aplicadas em outras regiões do Brasil, de acordo com informações obtidas pela Vigilância Sanitária de São Paulo. Cerca de 200 mil mulheres utilizaram o produto com problema no País. Somente no Estado de São Paulo, foram 27,5 mil doses. A EMS-Sigma Pharma informou que já começou a recolher os lotes com problemas. Até o momento, não se sabe de nenhuma gravidez ligada à droga.A mulher que tomou o Contracep de algum lote com problema pode ter uma gravidez indesejada. "Como médica, digo que o risco de gravidez existe. Ele é pequeno, mas não é nulo", afirma Tânia Lago, coordenadora de Saúde da Mulher da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo.SEM DISSOLUÇÃOSegundo análises feitas pelo Instituto Adolfo Lutz encomendadas pela Secretaria da Saúde de São Paulo, o anticoncepcional tem problemas na composição química. O princípio ativo, pelo menos nos três lotes interditados, não se dissolve totalmente no líquido. Quando a seringa aspira o produto, uma parte dele fica acumulada na base da ampola - não se injeta no organismo da mulher todo o anticoncepcional.Os lotes do Contracep, portanto, não conseguem proteger contra a gravidez pelos três meses em que o produto deveria fazer efeito. No pior dos casos, protege apenas no primeiro mês. Por isso, a Secretaria da Saúde de São Paulo recomenda que as mulheres que tomaram o produto há mais de um mês adotem outro método contraceptivo e façam o teste de gravidez. No caso das mulheres que o tomaram nas últimas semanas, a recomendação é apenas adotar outro método contraceptivo, como a camisinha e a pílula.O Contracep é vendido em farmácias e distribuído gratuitamente na rede pública de saúde. Nas farmácias da cidade de São Paulo, custa perto de R$ 15. Também é vendido, por cerca de R$ 1,50, nas farmácias de todo o País participantes do Programa Farmácia Popular, do governo federal. Como opção de controle familiar, o Contracep foi incorporado à política de saúde feminina do governo de São Paulo há apenas três meses. Foi por essa razão que a Secretaria da Saúde encomendou análises ao Instituto Adolfo Lutz. O governo paulista estuda se pedirá a devolução do dinheiro à empresa fabricante ou se solicitará o envio de outros tipos de medicamento como compensação.A Vigilância Sanitária de São Paulo já enviou os resultados dos exames ao laboratório EMS-Sigma Pharma, para que retire o produto do mercado, e à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para que, sendo necessário, emita um alerta nacional sobre os riscos do uso do anticoncepcional. Técnicos da Anvisa chegarão hoje a São Paulo para obter mais informações sobre os problemas com o Contracep.RECALLPrefeituras, clínicas, hospitais e postos de saúde paulistas foram informados do problema. Receberam da Vigilância Sanitária a orientação de procurar as mulheres que utilizaram o produto para que tomem as medidas necessárias - busquem seus médicos, passem a usar outro método contraceptivo e, se for o caso, submetam-se ao teste de gravidez.O laboratório fabricante, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, deverá divulgar anúncios nos meios de comunicação de todo o País avisando que realizará um recall dos lotes com problemas.Apesar de ter sido incorporado à rede de saúde do governo paulista apenas recentemente, o anticoncepcional injetável já é o segundo método contraceptivo mais utilizado pelas mulheres do Estado. Perde apenas para a pílula, que precisa ser tomada diariamente.