Surto provoca caça ao bugio

Alexandre Gonçalves - O Estado de S.Paulo

Campanha no RS esclarece que macacos são importantes para a prevenção da doença

Biólogos gaúchos lançaram uma campanha para proteger os bugios. Vários relatos de violência contra os animais surgiram desde o início do surto de febre amarela no Estado, no fim do ano passado. "Falta informação", aponta o pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Júlio César Bicca-Marques. "Algumas pessoas pensam que os macacos trouxeram a doença." Leia a reportagem completa sobre os bugios e a febre amarela A campanha, intitulada Proteja seu Anjo da Guarda, pretende mostrar que os animais prestam um importante auxílio no combate à doença. "A descoberta de animais mortos serve de alerta para que o Estado promova campanhas de vacinação e imunize a população", explica o biólogo. A maioria dos animais seria vítima de envenenamento, método mais discreto do que o uso de armas de fogo. RESERVATÓRIO"Os macacos não são reservatórios naturais do vírus da febre amarela", afirma Ricardo Lourenço de Oliveira, especialista em transmissão de parasitas do sangue e vice-diretor do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz). "Os mosquitos só se contaminam quando picam os bugios durante a infecção viral, que dura apenas três ou cinco dias: depois os macacos morrem ou se tornam imunes." Sendo assim, as agressões atingem quase sempre animais sadios que não tiveram contato com o vírus ou que estão imunizados.Ainda não se sabe com certeza quais são os reservatórios naturais do vírus da febre amarela. "Pesquisas mostram que o vírus da dengue pode ser transmitido verticalmente por várias gerações de mosquitos Aedes aegypti", aponta Oliveira. "Como o vírus da febre amarela pertence ao mesmo gênero (Flavivirus), talvez ocorra algo semelhante com ele."Thaïs Leiroz Codenotti, da organização não governamental Associação para Conservação da Vida Silvestre (Convidas), recorda o testemunho de professoras do ensino fundamental: alguns alunos da zona rural contaram que os pais pretendiam eliminar os bugios para afastar a ameaça da doença.Uma rede para sistematizar os dados de agressões a macacos durante epidemias de febre amarela será criada, afirma o biólogo Leandro Jerusalinsky, chefe do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB), ligado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). "Nosso projeto piloto será no Rio Grande do Sul, onde esse processo já começou", afirma Jerusalinsky.Em um levantamento preliminar, que reúne dados veiculados pela mídia desde 2007, o CPB reuniu 13 ocorrências de violência contra os primatas durante surtos da doença, que resultaram em sequelas ou morte de 150 animais em 8 Estados: Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pará, Tocantins, São Paulo, Goiás, Bahia e Distrito Federal. "Mas os números estão bastante subestimados", pondera Jerusalinsky.VACINAÇÃOA capital gaúcha passou a fazer parte ontem da área de risco de febre amarela, que abrange 290 municípios do Rio Grande do Sul. A Secretaria Estadual da Saúde confirmou, por meio de testes de laboratório, que dois macacos encontrados mortos na vizinha Guaíba (RS) contraíram a doença. O secretário da Saúde, Osmar Terra, recomendou a vacinação a todos os moradores de Porto Alegre e cidades próximas, de forma preventiva. COLABOROU SANDRA HAHN