SP precisa de 162 milhões de árvores para neutralizar CO2

- O Estado de S.Paulo

Seria necessário um terço do território para criar essa área verde

Que números definem uma cidade? A população, o PIB e, mais recentemente, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) são utilizados como termômetro da realidade e bússola para guiar o planejamento urbano. Um novo indicador tenta medir o peso das cidades no aquecimento global. Sempre associada a números grandiosos, São Paulo já tem a sua mais completa tradução em gases do efeito estufa (GEE): 32,458 milhões de toneladas serão jogadas na atmosfera em 2008, conforme estudo encomendado pela Prefeitura. Todo movimento contribui para aumentar esse número em uma metrópole que não pára: o combustível queimado por 5,9 milhões de veículos, a energia que a mantém acesa, o lixo produzido em cada casa. O alarme global contra o aquecimento mostra que é hora de parar. Ao menos para discutir os caminhos que ele apresenta.O primeiro desafio é saber em quem acreditar. Contra as pesquisas que apontam o aquecimento do planeta, alguns cientistas dizem que as evidências de aumento de temperatura não são definitivas. Outros o atribuem a fatores naturais. Mesmo assim, a tese do aquecimento global provocado pelo homem é aceita por grande parte da comunidade científica. Tanto que o prêmio Nobel da Paz foi dado ao Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e ao ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, por sua atuação sobre o tema. Segundo a organização do prêmio, é preciso chamar a atenção do mundo para as ameaças do aquecimento global. Até a semana que vem representantes de 180 países estarão reunidos em Bali, na Indonésia, na 13ª Conferência do Clima. Calcular as emissões de GEE é um compromisso dos países que assinaram o Protocolo de Kyoto, como o Brasil . Em 2004, o inventário nacional avaliou a quantidade de gases emitidos no ano de 1994, equivalentes a 1,5 bilhão de toneladas de CO2. Já para as cidades, o estudo é facultativo. São Paulo foi a segunda no País a encomendar um levantamento de seu perfil. O estudo foi feito em 2005 pelo Programa de Pós-Graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e serviu de base para as projeções para 2008. O mesmo grupo de cientistas elaborou em 2000 o inventário do município do Rio.A estimativa para 2008 em São Paulo é contundente: 40% das emissões terão origem no trânsito, na forma de CO2. Em segundo lugar, estará o lixo orgânico, que emite metano na decomposição. Juntos, representam mais da metade do peso da cidade no aquecimento global. As emissões de São Paulo têm um perfil diferente do detectado no Rio, onde 37% das emissões vieram dos resíduos sólidos. "A diferença se deve ao melhor manejo do lixo em São Paulo, com a produção de energia a partir do metano", afirma o coordenador executivo do Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas do Coppe, Emilio Lèbre La Rovere. No cenário brasileiro, o fator que mais pesa nas emissões não tem relação direta com os grandes centros urbanos: três quartos das emissões são conseqüência de desmatamento.Um dos primeiros resultados do estudo paulistano foi a renegociação do contrato com a empresa que produz energia no Aterro Sanitário Bandeirantes. Os pesquisadores perceberam que a Prefeitura tinha direito sobre 50% dos créditos de carbono do projeto, o que rendeu 6,5 milhões para a cidade neste ano. O Bandeirantes é um aterro desativado, assim como em breve será o São João, onde funcionará projeto semelhante a partir de janeiro. Não há aproveitamento do metano nos aterros que recebem o lixo produzido atualmente na cidade.No setor de transporte, o quadro é mais complicado. A ineficiência do serviço público se reflete no grande número de automóveis particulares. Um carro a gasolina que roda 50 quilômetros por dia demora apenas três meses e meio para emitir o equivalente ao próprio peso em CO2 (cerca de 900 quilos).O principal projeto da cidade para reduzir as emissões do trânsito é a Linha 4 do metrô. Segundo o estudo do Coppe, em 2009, quando deve ser inaugurado o primeiro trecho, mais de 80 milhões de litros de gasolina deixarão de ser consumidos.Enquanto isso, a popularização dos carros bicombustíveis diminuiu o uso da gasolina. Apesar de a emissão de CO2 do álcool não ser muito inferior, o IPCC propõe que ela seja considerada nula. A explicação é que o carbono liberado na queima seria absorvido no crescimento dos canaviais. O investimento em fontes renováveis de energia tem sido uma das saídas para cidades como Estocolmo, na Suécia, onde todo o transporte público usa etanol ou biogás. No Brasil, a alternativa renovável para o diesel, utilizado pela maioria dos ônibus, tem uma barreira econômica. "O biodiesel ainda é caro", diz o ex-secretário estadual do Meio Ambiente José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP). Andar de bicicleta e caminhar, alternativas para deslocamentos curtos em metrópoles como Paris, são atividades difíceis em São Paulo. Com 17 mil quilômetros de ruas, a cidade tem apenas 4,5 quilômetros de ciclovias fora de parques. A Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente planeja construir mais 50 km e instalar bicicletários em terminais de ônibus e estações de metrô e de trem - o tamanho da cidade desestimula os percursos a pé. Segundo a urbanista e ex-secretária nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades Raquel Rolnik, o espalhamento urbano tem relação direta com a emissão de GEE, já que leva as pessoas a percorrerem caminhos maiores. "Esse modelo queima combustível até não poder mais", afirma. Apesar de o Brasil não possuir metas de redução, São Paulo está prestes a fazê-lo. Um projeto de lei, aprovado em consulta pública, pretende diminuir as emissões. Participaram da elaboração da minuta o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Iclei, organização mundial especializada em sustentabilidade para cidades. Caso seja aprovado, São Paulo terá de reduzir as emissões de CO2 em 30% até 2012, em comparação ao total medido em 2005. Londres, que emite 42 milhões de toneladas de CO2 por ano, tem meta de 60% até 2025. O secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, defende que os emissores de GEE devem pagar. Um dos alvos da cobrança já está definido. Serão os motoristas. "Os pedágios urbanos virão. A dúvida é quando, mas virão", alerta. A solução não é nova: Londres adota o modelo de controle desde 2003.As ações para mitigar os gases já são visíveis na paisagem paulistana. Os organizadores de eventos estão obrigados desde março por uma portaria a neutralizar os GEE resultantes das atividades que realizam nos parques municipais. Apesar de a portaria não especificar o local de plantio, as árvores passaram a se concentrar em áreas com grande visibilidade, como os canteiros das Marginais.Muitas empresas tentam se adaptar à nova onda para escapar de cobranças e até lucrar. Além da emissão de créditos de carbono, elas investem em marketing verde para atrair investimentos e consumidores. A neutralização, praticada voluntariamente por muitas empresas, é vista como solução insuficiente para o aquecimento, mesmo se fosse adotada em escala maior. Durante o crescimento, as árvores absorvem o carbono da atmosfera e o estocam na própria estrutura. Para neutralizar as emissões de São Paulo em 2008 apenas por meio de plantio, seriam necessários 162 milhões de árvores nativas da mata atlântica, que ocupariam o equivalente a um terço da área do município, segundo cálculos da consultoria Max Ambiental.Os gases do efeito estufa permanecem por mais de 100 anos na atmosfera, enquanto as administrações municipais podem mudar a cada quatro anos. Esse descompasso, segundo participantes do inventário, levou a atrasos na política ambiental após a última eleição. O secretário Eduardo Jorge afirma que houve seqüência dos trabalhos iniciados em 2004, com a contratação do Coppe. O descompasso também aparece nas políticas nacionais sobre o tema. Enquanto muitos países diminuem suas emissões, no Brasil elas têm aumentado nos setores de transporte, energia e indústria. Para o meteorologista Carlos Nobre, especialista em mudanças climáticas do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), o principal motivo é a maior participação da energia produzida por termoelétricas a gás. Elas emitem carbono, ao contrário das hidrelétricas, tradicional opção brasileira. Nobre é um dos 61 brasileiros membros do IPCC que participaram da elaboração dos relatórios utilizados como guias para governos e entidades.Ao aceitar o consenso científico, São Paulo assume uma quota de responsabilidade no esforço global contra o aquecimento. As iniciativas para reduzir emissões são escolhas que têm impacto em várias esferas. Melhorar o transporte público, por exemplo, diminui emissões ao mesmo tempo que melhora a qualidade de vida e torna a cidade mais atraente para investimentos. No fim das contas, são as cidades que definem os números que as retratam.