Soma de esforços

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

Voluntários que ajudam atletas com deficiências na prática de esportes ganham lições de vida e experiência

Eles formam uma parceria especial. No esporte paraolímpico, algumas modalidades exigem que o atleta seja acompanhado por um guia, ou que tenha auxílio no treino. Isso ocorre, por exemplo, na corrida de deficientes visuais, que necessitam de guias tão rápidos quanto eles próprios, ou até mais, para não prejudicarem os resultados. Em muitos casos, esses guias são voluntários que optam por se dedicar aos treinos, com a mesma intensidade dos esportistas. Mas a relação é de mão dupla: tanto o atleta se beneficia como o voluntário, que geralmente aprende importantes lições de vida. O atleta Emerson Germano de Oliveira, de 35 anos, deficiente visual que corre as provas de 400 e 800 metros, treina há três anos em Santo André com o guia voluntário Felipe Alexandre Correia Cabral, de 24 anos. Felipe era atleta e corria em provas de atletismo. Hoje, faz faculdade de Educação Física. Quando ficou sabendo que precisavam de gente para treinar com os esportistas na pista de atletismo do Serviço Social da Indústria (SESI) de Santo André, entusiasmou-se. "Tomei gosto. Com o Emerson, eu aprendo a ter mais força de vontade, me inspiro muito nele." Treinam de manhã, duas horas e meia por dia, religiosamente, de segunda a sábado. E os resultados da parceria são ótimos: ganharam medalhas em diversas competições, muitas delas fora de São Paulo. No último Mundial de Atletismo, na Holanda, conquistaram o terceiro lugar na prova de revezamento de 400 metros. "Consegui resultados melhores com o Felipe. Ele me ajuda com as correções de braço, direciona e dá ritmo", diz Emerson. "Quando algum de nós está desanimado, o outro dá força." No ano passado, ingressaram na Seleção Brasileira Paraolímpica, mas uma lesão do atleta acabou impedindo sua participação nos Jogos Parapanamericanos. Agora os dois estão treinando intensamente para conquistar uma vaga nos Jogos Paraolímpicos de Pequim, em 2008. "Para mim, o Emerson é como um pai. Tudo o que tenho hoje é graças a ele, pude viajar e ter experiências", emociona-se Felipe, que pretende especializar-se em esporte adaptado. "Passei a ser uma pessoa melhor depois que comecei esse trabalho. Hoje, quando vejo alguém na rua precisando de ajuda, logo me prontifico." Já na prova de arremesso, o deficiente visual precisa de outro tipo de ajuda. O voluntário e estudante de Educação Física Hugo Lima Martins, de 21 anos, auxilia há seis meses o treino do arremessador Mario Braz Gonçalves, de 33 anos, que já é o segundo no ranking brasileiro em sua categoria. Hugo pega as bolas arremessadas, orienta sobre a postura correta, coloca-o na posição certa, antes da linha, e bate palmas, como sinal sonoro para que ele saiba a direção para lançar a bola. "O esforço que ele faz é enorme. Vem de bicicleta, percorrendo um trajeto longo, com sol ou chuva", elogia o atleta. "Formamos um time, o entrosamento é perfeito. Ele tem boa vontade e interesse." Quando pequeno, Mario jogava capoeira. Depois que começou a perder a visão, procurou o Centro de Emancipação Social e Esportiva de Cegos (Cesec) e lá foi incentivado a praticar atletismo. Pensou que teria de se afastar do esporte, mas acabou descobrindo seu potencial em outra modalidade. E, até hoje, joga capoeira. "Com qualquer um", garante. Há menos tempo, Hugo também está ajudando nos treinos da atleta Paula Cristina Pereira, de 25 anos, que corre as modalidades de 400 e 1.500 metros. Ela descobriu o esporte há um ano e já colhe bons frutos. Vai treinar de trem, sozinha, quase diariamente. "Adoro esporte, é maravilhoso. É super importante para a saúde e bem-estar", fala. Tem dificuldade de se desenvolver mais porque não tem um guia fixo. "Meu treino melhoraria se tivesse um auxiliar permanente. O Hugo está me ajudando bastante, é companheiro e me incentiva." Por enquanto, apesar de também dar aulas de dança e trabalhar na arbitragem de campeonatos, Hugo está ajudando voluntariamente os dois atletas. "Sempre tive vontade de ser voluntário", diz. "Sinto a maior satisfação com esse trabalho. Vejo a força de vontade que eles têm: apesar de todas as dificuldades, vêm treinar. Falo para a Paulinha que ela será a minha fonte de inspiração para eu voltar a correr." Mas nem tudo são flores: o esporte paraolímpico tem pouco incentivo. Hugo e Mario estão procurando o apoio de uma academia, onde o atleta possa treinar nos aparelhos, aumentando sua resistência e condicionamento físico. COMPROMISSOO professor de educação física e técnico de atletismo Edelson Moreira da Silva, de 52 anos, é um voluntário honorário. Neste ano, foi eleito pelo Conselho Regional de Educação Física de São Paulo (CREF-SP) profissional do ano na educação física especial, na região do ABC. Ele criou um projeto específico para deficientes físicos na Secretaria de Esportes de São Bernardo do Campo, que inclui modalidades como basquete com cadeira de rodas e futebol para cegos. Tudo começou quando passou a trabalhar como treinador de atletismo no SESI de Santo André. Além dos atletas que orientava, começaram a aparecer pessoas com deficiências que também queriam praticar esporte. Edelson ofereceu ajuda e passou a buscar academias onde os atletas pudessem usar os aparelhos. Hoje, um dos que ele treina voluntariamente é Alex Cavalcante Mendonça, de 26 anos, medalhista dos 5 mil e 10 mil metros nos últimos Jogos Parapanamericanos - prata na primeira e bronze na segunda modalidade. "Para mim, eles são super atletas. Vêm treinar com todo vigor e estão sempre prontos. São inspiradores", comenta. "Mostram que, mesmo com deficiências, são super capazes." A história de Alex, o atleta que Edelson treina, é curiosa. Hoje ele tem 25% de visão. Antes, apesar de saber que enxergava mal, não tinha idéia da gravidade do problema. Há sete anos, era guia voluntário de outro corredor cego. Só que foi perdendo a visão no meio tempo. "Ficou difícil guiá-lo. Houve vezes em que quase saímos da pista porque eu já não conseguia enxergar bem", lembra. Foi aí que fez exames e descobriu que estava enquadrado na categoria B2 do esporte paraolímpico: é o nível de visão intermediária. Então decidiu virar atleta. Nessa categoria, não precisa de guia, mas tem o apoio do treinador Edelson nos treinos diários de três a quatro horas. Os resultados são ótimos: além das medalhas no Rio, ficou em quarto lugar no Mundial de Atletismo de Cegos. Agora, como os colegas, visa às Paraolimpíadas de Pequim em 2008. Uma das associações que mais contribui para a prática de esportes entre deficientes visuais é a ONG Centro de Emancipação Social e Esportiva de Cegos (Cesec). Com 20 anos, tem 350 associados. Além da corrida, também incentivam a prática de futebol e judô, entre outras modalidades. "O esporte ajuda na locomoção e equilíbrio deles. Superam limites, quebram barreiras e convivem com pessoas sem deficiência, integrando-se socialmente", fala o presidente da ONG, Helder Maciel Araújo. Ele ressalta que o esporte paraolímpico vem ganhando repercussão e destaque do Brasil. "O trabalho dos voluntários é essencial nos resultados." Helder fala por experiência própria: também é deficiente visual e se beneficiou muito com a prática do judô, contando sempre com a ajuda de voluntários nas academias por onde passou. "Depois de muita revolta, foi com o judô que percebi que podia continuar levando uma vida normal", lembra ele, que saiu do interior de Goiás e veio morar na capital paulista, sozinho. Segundo opina, o maior empecilho para a prática de esportes são as famílias dos deficientes. "Geralmente têm medo que o deficiente se machuque. A superproteção acaba atrapalhando."