Sobras de restaurantes alimentam carentes

Flora Morena* - O Estado de S.Paulo

Foi batendo de porta em porta que Luiz Antonio Gomes, hoje com 53 anos, iniciou sua coleta seletiva. Ao contrário do que a maioria das pessoas poderia imaginar, Luiz não estava atrás de materiais recicláveis e, sim, de lixo orgânico. O que muitas pessoas consideram restos de comida, ele resolveu batizar de "alimentos reutilizáveis". Juntou um grupo de amigos e passou a recolher sobras em restaurantes, bares e padarias de São José dos Campos, a 80 quilômetros da capital. Os alimentos arrecadados são novamente preparados - daí o conceito de reutilizáveis - e viram refeição para dezenas de moradores de rua e pessoas carentes. "Muita gente confunde o nosso trabalho com o sopão que é distribuído à noite na cidade. O que fazemos é diferente, envolve um trabalho de conscientização em relação ao desperdício de alimentos." Ele conta que a idéia surgiu num domingo à tarde, depois de uma bela macarronada em família. "Jogar um monte de comida fora me incomodava. Às vezes, a preguiça de armazenar os ?restos? e a gula de fazer mais do que realmente iríamos consumir deixavam um monte de comida sobrando", conta. "Me obriguei a pensar numa forma de fazer alguma coisa com esses alimentos. E aí surgiu a idéia da cooperativa." Engenheiro aposentado, Luiz Antonio convenceu a mulher, o cunhado e mais alguns amigos a participar. A iniciativa cresceu e o hoje o grupo virou uma cooperativa que oferece à comunidade bem mais do que refeições. Eles promovem cursos de culinária alternativa, nos quais ensinam, por exemplo, a reaproveitar a casca e o talo de vários alimentos que normalmente vão parar direto na lata do lixo. "As pessoas falam tanto em desenvolvimento sustentável e ficam pensando em ações grandiosas e utópicas. Se esquecem de cuidar do micro. São pequenas ações que, juntas, fazem a diferença", diz Maria Eliza Gomes, mulher de Luiz. A empregada doméstica Maria de Lourdes, de 44 anos, se alimenta diariamente na cooperativa e participa de todas as palestras sobre culinária alternativa. "Aqui eu aprendi coisas que eu nunca sonhei saber. Hoje, posso dizer que um quarto de toda a produção nacional de frutas, verduras e legumes não é aproveitado. Essa quantidade daria para alimentar 30 milhões de pessoas por ano." Maria acredita que só assim, trabalhando em conjunto e com idéias simples, porém inovadoras, é que se pode mudar a realidade no Brasil e no mundo. "Trinta milhões é um número tão grande que dá vergonha de saber que estamos desperdiçando tudo isso", diz Maria. "Aqui eu aprendi que uma boa idéia a gente passa para frente. Dividindo com o próximo é que vamos mudar a realidade. Por isso, sempre digo: Recicle seu desperdício!" Ela termina o discurso com um sorriso no rosto e muita esperança no coração. *Flora Morena é aluna da Universidade do Vale do Paraíba