Só o Enem não deve guiar escolha de escola

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Exame indica quais alunos têm melhor condição social, diz educadora

Os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), divulgados anteontem pelo Ministério da Educação (MEC), são apenas um dos indicativos que devem ser levados em conta na hora de escolher uma escola - e mesmo na hora de afirmar se um colégio é bom ou não, segundo especialistas. Para educadores e pedagogos, as famosas listas com as instituições cujos estudantes tiveram as maiores notas muitas vezes provocam um efeito negativo para o ensino: acirram uma competição de mercado que culmina com a escolha apenas dos melhores alunos, fazendo com que a escola deixe de ser inclusiva e de lidar com a diversidade."Há escolas que escolhem apenas os melhores alunos, selecionando por meio de vestibulinhos aqueles com o perfil que elas consideram adequado. E, quando esse estudante tem um desempenho ruim, em vez de a escola procurar entender o que está acontecendo para ele melhorar, ele é convidado a mudar de escola", afirma a educadora Sílvia Collelo, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). "Nesse contexto, quem é bom? A escola ou o aluno que permanece nela?", questiona. Outro ponto importante ligado a esse questionamento é que, segundo pesquisas, a condição socioeconômica é um dos principais fatores no desempenho do estudante - ou seja, acesso a computador em casa, a jornais e revistas, a viagens, a bens culturais como teatros e cinemas e nível de escolaridade dos pais, que discutem temas da atualidade com o aluno, aparecem sempre como tendo um peso grande nos resultados escolares."Muitas vezes você pode dizer, vendo resultados do tipo, não qual é a melhor escola, mas quais são os alunos com melhores condições socioeconômicas e quais são os que têm condições menos favoráveis", complementa a educadora Ângela Soligo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "O aluno que viaja sempre, que tem livros em casa, que tem pais dispostos e preparados para estimulá-lo, que vai ao cinema, faz cursos paralelos e, ainda, tem pedagogos e psicólogos já está com mais da metade do Enem. Como você vai compará-lo com aquele que nunca viajou e não tem computador, que precisa trabalhar e estuda numa rede cheia de problemas?"