Sistema Solar é instável, mas não há risco de colisão de planetas

Alexandre Gonçalves - O Estado de S.Paulo

Órbitas seguem ?caos dinâmico?, mas só em 1% de 2.501 cenários ocorre trombada celeste

Há 99% de chance de a Terra e seus três vizinhos - Mercúrio, Marte e Vênus - continuarem seu percurso tranquilamente ao redor do Sol pelos próximos 5 bilhões de anos, sem qualquer colisão ou acidente. Foi o que mostrou um estudo sobre a evolução do Sistema Solar publicado hoje pela revista científica britânica Nature.Os astrônomos Jacques Laskar e Mickael Gastineau, do Observatório de Paris, simularam 2.501 cenários de evolução das trajetórias dos chamados planetas terrestres - Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.Os programas de computador levaram em conta conhecimentos obtidos no estudo da Lua, da teoria da relatividade geral de Albert Einstein e do estado atual dos planetas. Em 25 projeções (cerca de 1%), houve colisão entre planetas ou destes com o Sol. A pesquisa praticamente descarta qualquer acidente cósmico nos próximos 3 bilhões de anos."Em um dos cenários, Marte passa muito perto da Terra", diz Laskar, principal autor do estudo. No evento, que pode ocorrer dentro de 3,3 bilhões de anos, os dois planetas ficariam a apenas 794 km um do outro. "Uma passagem tão próxima é quase o mesmo que uma colisão", afirma o cientista, destacando que tal fenômeno seria devastador. Marte poderia se romper e grandes fragmentos cairiam sobre a Terra.Partindo do cenário do acidente decorrente da aproximação dos dois planetas, a equipe realizou outras 201 simulações com pequenas alterações verossímeis no eixo de Marte. Em cinco situações, o planeta vermelho foi arremessado para fora do Sistema Solar. Em todas as demais, houve choque de planetas terrestres. Em 29 casos, a Terra batia em Marte. Em 18, colidia com Vênus. Em apenas um, havia acidente entre Mercúrio e Terra. CAOS DINÂMICOApós o período estudado, colisões entre planetas deixarão de ser problema relevante. O Sol, que já tem 5 bilhões de anos, continuará brilhando com sua atual intensidade por mais 5 bilhões de anos. Depois, deve converter-se em uma estrela vermelha gigante e engolir Mercúrio e Vênus. A Terra e Marte também podem desaparecer.Ao Estado, Laskar explica que o estudo tem "importância filosófica" - afinal, não faz sentido se programar para um evento que deve acontecer dentro de bilhões de anos. "Costumávamos imaginar o Sistema Solar como algo estável", diz. "Nosso estudo demonstra a existência de uma instabilidade."No século 17, Isaac Newton ainda considerava o Sistema Solar um relógio perfeito e irritava-se com a impossibilidade de descobrir equações matemáticas que descrevessem com perfeição o movimento de Saturno e Júpiter no céu.Os astrônomos já sabem que a rota dos corpos celestes obedece a regras que podem ser descritas como "caos dinâmico". "Há um delicado equilíbrio entre os planetas", explica a física Silvia Maria Giuliatti Winter, da Unesp de Guaratinguetá. Os acidentes descritos no artigo da Nature ocorreriam após Júpiter e Mercúrio entrarem em "ressonância secular", quando a órbita dos dois planetas evolui de forma sincronizada, produzindo grande instabilidade.Silvia afirma que o estudo responde uma questão antiga sobre nossa percepção do cosmo. "Além disso, as técnicas desenvolvidas para realizar a simulação poderão ser usadas em outros campos do conhecimento", considera. Ela recorda que sua pesquisa de doutorado - que envolvia análise de imagens para identificar satélites - usava técnicas aplicáveis para a descoberta de células tumorais no câncer de mama.Laskar já planeja empregar os conhecimentos adquiridos para descrever variações climáticas na Terra durante os últimos milhões de anos.COM AFPROTAS IMPERFEITASJacques LaskarAstrônomo do Observatório de Paris"Costumávamos imaginar o Sistema Solar como algo estável. Nosso estudo demonstra a existência de uma instabilidade""Em um dos cenários, Marte passa muito perto da Terra (a 794 quilômetros um do outro). Uma passagem tão próxima é quase o mesmo que uma colisão"Silvia Maria GiuliattiFísica da Unesp"Há um delicado equilíbrio entre os planetas""As técnicas desenvolvidas para realizar a simulação poderão ser usadas em outros campos do conhecimento"