Sistema de satélite não capta imagens de desmatamento

Cristina Amorim - O Estado de S.Paulo

Monitoramento em tempo real da Amazônia feito pelo governo deixa lacunas de meses por causa das nuvens

O Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), usado pelo governo federal para definir as ações de fiscalização na Amazônia, tem deixado lacunas na entrega de informações. Ao contrário do que o nome diz, a detecção sofre atrasos de meses e, em algumas regiões, de anos, o que dificulta a repressão por parte dos fiscais e dos procuradores.O problema é a cobertura de nuvens - situação freqüente tratando-se da maior floresta tropical do mundo. A principal fonte de informações do Deter, um aparelho chamado Modis, instalado em dois satélites, não consegue "enxergar" o que acontece embaixo delas. Algumas áreas do Pará ficam escondidas sob as nuvens por meses. O Estado foi o campeão do desmatamento na Amazônia em 2006, com uma área derrubada de 5.505 quilômetros quadrados.O Deter não gerou dados suficiente sobre todo o Pará entre outubro de 2006 a agosto deste ano. O período pega o "verão amazônico", que se estende entre março e outubro. É quando as chuvas diminuem e o corte aumenta.Outra parte da Amazônia que fica constantemente escondida é a chamada "Cabeça do Cachorro", no Amazonas, no extremo noroeste do Brasil, além de Amapá e Roraima - Estado que chegou a ficar quatro anos sem ser observados devido às condições atmosféricas desfavoráveis. Essas localidades ainda não são alvo de grandes desmatadores.IMPACTO NO SOLOMesmo quando as nuvens deixam a região e o Modis consegue, finalmente, observar o que acontece em solo, a fiscalização é prejudicada. O trabalho depende de uma série histórica que nem sempre é obtida.Segundo o chefe do Centro de Sensoriamento Remoto do Ibama, Humberto Navarro de Mesquita, os polígonos (áreas limpas de vegetação) mais recentes são os mais "quentes", aqueles onde os fiscais do Ibama têm a possibilidade de realizar flagrantes. Para que as chances da equipe em campo aumentem, ela precisa saber o que aconteceu recentemente. Assim, entre dois casos de desmatamento definidos, o "quente" é aquele no qual existe a série histórica de imagens limpas, sem nuvens. "Quanto se tem uma imagem com nuvens, não sei se o polígono é mais antigo, com quatro, cinco meses, ou não", diz Mesquita. "E a gente precisa definir prioridades."A falta de periodicidade foi um dos motivos que levaram ao Ministério Público do Estado do Pará e o Ministério Público Federal no mesmo Estado a firmar uma parceria com a ONG Imazon. A partir desta semana, os órgãos públicos receberão boletins de desmatamento gerados pelo Imazon, por um sistema independente.Segundo o procurador federal Felício Pontes Júnior, testes realizados com o sistema mostram que a entrega das informações é feita cerca de uma semana após a detecção pelo satélite,já com uma medição da área e um histórico daquele trecho. "Antes era o Ibama que definia onde seria feita a ação de fiscalização. Agora nós poderemos dizer ao Ibama onde eles atuarão", afirma Pontes. "Se o nível de desmatamento não cair (no Pará), será por falta de investimento no Ibama." O procurador também destaca a dificuldade de outros organismos trabalharem com o Deter. O sistema é aberto para a sociedade, contudo exige conhecimentos técnicos no mínimo médios de quem deseja acompanhar a dinâmica do desmatamento na Amazônia. "A gente chegou a comprar cursos, mas não foi efetivo. Havia a possibilidade de se incorrer em erros", afirma Pontes.RADARO representante do Ibama disse que o problema seria resolvido no próximo ano com a utilização de dados gerados pelo satélite Alos, de origem japonesa. Ele usa radares com ondas eletromagnéticas que "atravessam" as nuvens e detectam o que acontece debaixo delas.O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Gilberto Câmara, nega a parceria. "O Alos é um excelente satélite, mas não é operacional. Não foi projetado para gerar imagens todos os dias", afirma. "Ele servirá para que possamos checar as informações geradas pelo Deter, mas não vai substituir." Segundo Câmara, um satélite como o Alos seria ideal para resolver o problema das nuvens, mas não há a previsão de algo do gênero ser lançado em breve no mercado.