Símbolos de uma paixão

- O Estado de S.Paulo

Fanáticas por futebol, elas são donas de acervos gigantes. E a devoção aos seus times é maior do que à Seleção

Fanática de coração. No estádio, ela vibra e esbraveja; em casa, dorme com "os filhos do Pelé".

 

 

Qualquer desavisado que ponha o pé na casa de Vilma Mattos de Lima não tem dúvida: ali mora uma torcedora apaixonada pelo Santos. O pequeno apartamento é como um minimuseu: tem todos os objetos possíveis com o escudo do time. Mas é sobre a cama de casal que se revela a grande paixão: a coleção de mais de 30 bonecos completamente uniformizados como o Rei do Futebol, chamados por ela de "filhos do Pelé". "Primeiro eu fui Pelé Futebol Clube", conta a professora de 57 anos, que, em 1966, se encantou com as espetaculares jogadas do craque. Para a tristeza do pai corintiano, que viu a filha se tornar santista roxa - ops, alvinegra - e ainda transformar em torcedores toda a família (mãe, cinco irmãos e nove dos dez sobrinhos, pois um é palmeirense).

 

"Mas fui a única que casei com o Santos", faz questão de frisar. Vilminha Santista, como gosta de ser chamada, usa no dedo anular esquerdo uma aliança e um anel personalizado com o escudo do clube, e garante ter aberto mão de marido e filhos para acompanhar o time do coração. E acompanha, literalmente. Viaja o Brasil todo assistindo aos jogos, em roteiros bate e volta. Por isso seu cartão de crédito e cheque especial estão sempre rubros. "Não tem compromisso que me faça deixar o Santos", avisa. Os amigos já sabem: se tiver jogo no domingo, ela não sai no sábado, pois concentra-se junto com o time. Sofre de estresse pré e pós-partida, tem dores de barriga, insônia.

 

Apaixonada por futebol, a ponto de ver até pelada de rua, e dona de incontáveis camisas do time da Vila Belmiro (com autógrafos do Rei, inclusive), Vilminha surpreende ao revelar que não possui nenhuma camisa da Seleção Brasileira. Às vésperas da escalação do Dunga, torcia para que o meio-campo santista Paulo Henrique Ganso pudesse jogar o mundial, já que havia ficado entre os 30 selecionados pelo técnico. Para isso, fez até promessa.

 

"Se ele fosse escalado, usaria a camisa do Brasil durante os jogos da Seleção", conta, contrariando o hábito eterno de só usar a camisa do clube do coração. Mas já encomendou a peça, amarela e verde, e, claro, com o escudo alvinegro no peito. "Torço pelo Brasil sem fanatismo, pois minha paixão é só o Santos", assume Vilminha.

 

Adriana. Na Copa, o verde do seu time remete à Seleção Brasileira. Foto: Alex Silva/AE

 

 

Totalmente verde. Não podia existir local mais apropriado para a gerente de produtos Adriana Cavinato cultivar sua paixão pelo Palmeiras do que o paulistano bairro da Casa Verde. Foi ali, há 32 anos, em um sobrado com placa anunciando a devoção familiar - "Aqui mora um palmeirense feliz" -, que ela, prestes a nascer, deixou de se chamar Vivian para homenagear Adriano, jogador alviverde "que batia um bolão". E foi no gramado do quintal que a menina curtiu a infância, brincando de ataque e gol com os dois irmãos e o pai. "Tentava brincar de casinha, mas a boneca acabava virando mascote", relata Adriana, dona de um troféu de futebol de salão pelo belo gol da final do campeonato feminino do colégio.

 

Também é no terreno da Casa Verde que os Cavinato abrigam seu "reduto palmeirense". Após decorar paredes, estantes e armários com bandeiras, fotos, flâmulas, estátuas e inúmeros objetos do clube do coração, a coleção invadiu a edícula, antes morada dos avós. Casada há menos de um mês, Adriana teve de negociar com o marido vascaíno o ingresso da decoração palmeirense no novo lar. "Fizemos um trato de só levar o essencial." Para ela, isso implica em tapetes, toalhas, baldes e talheres verdes e brancos. Além, é claro, de objetos com o escudo do time, como relógio de parede, chaveiro, caneta, caneca, pijama, porco de pelúcia, aspirador de migalha de pão em formato suíno, roupa do cachorro e algumas camisetas - como a que pertenceu ao maior ídolo alviverde, Ademir da Guia.

 

Manter todo este amor pelo Palmeiras, no entanto, exigiu perseverança, principalmente do patriarca, o torcedor mais fanático da família. Afinal, a infância da prole coincidiu com o maior jejum de títulos do clube: 16 anos sem ganhar. Para impedir o assédio de familiares corintianos, que ofereciam presentes às crianças pela troca de time, seu pai (falecido há cinco anos) exaltava a história do velho Palestra Itália e dos próprios Cavinato.

 

Durante a Copa, Adriana deixa o Palmeiras um pouco de lado para torcer pela Seleção. Gosta de assistir aos jogos em telões, vestida com a camiseta do Brasil e usando esmalte verde e amarelo nas unhas. Sobre a escalação do técnico Dunga, faz apenas uma ressalva. "Concordo que o Adriano, o Ronaldinho Gaúcho e o Ronaldo não estejam na lista, mas o Ganso não tem porque não estar." Protesta, com isenção... Afinal, ela nem é santista.

 

 

Talita. A corintiana achou a escalação de Dunga limitada. Foto: Felipe Rau/AE

 

 

Fiel desde criança. Numa casa só de mulheres, a representante comercial Talita Benegra, de 27 anos, acabou tornando-se o menino que o pai corintiano fanático sempre quis ter. Desde os 5 anos, a paixão pelo clube paterno tomou conta da sua vida. "Cresci no Pacaembu", conta ela, que, aos sábados, assistia aos treinos do time e, às quartas e domingos, via os jogos, sempre acompanhada pelo paizão, que ainda a levava para pegar autógrafos dos jogadores.

 

No estádio e em casa, era sempre ela que batia bola com o pai, já que a irmã nunca se interessou. "Sou a filha que ele pediu a Deus", diverte-se Talita, na infância uma campeã de futebol de botão, goleira no campo e empinadora de pipas nas horas vagas.

 

Vem desse tempo a mania de colecionar tudo o que se refere ao Corinthians - com algumas exceções para times que admira. Das 63 camisas de futebol de sua coleção, 37 são do timão e as outras de seleções como a brasileira, argentina, jamaicana e de clubes estrangeiros como o Real Madrid, Milan e Boca Juniors.

 

Os ingressos dos jogos aos quais assistiu, mais de cem, eram outro grande orgulho. Eles ficavam dentro da bolsa, até que um assaltante levou a recheada carteira. "Fiquei mais triste pelos ingressos do que pelo resto", lembra Talita, já perto de completar outros 50, agora, porém, guardadinhos na casa dela, junto aos inúmeros outros objetos corintianos .

 

Entre os mais preciosos, estão as fotos de jogadores, dos estádios e, claro, do seu casamento. "Não casei de branco, meu vestido era vermelho, como foi o da mulher do Ronaldo, que foi goleiro do Corinthians e é meu grande ídolo", diz ela, dizendo que realizou o sonho de infância de se casar vestida com a cor do escudo do timão.

 

O clube também estava presente na noivinha do bolo, que segurava a bandeira corintiana, e em um display com a foto de Talita em tamanho natural com o símbolo nas mãos. O maridão, já acostumado com as invencionices da mulher torcedora, teve de passar parte da lua de mel visitando os estádios do Real Madrid e do Barcelona, na Espanha.

 

"Em matéria de futebol, eu sou o homem da casa", afirma Talita. A propósito, tem opinião formada sobre o time do Dunga, que estreia em campo nesta terça. "Achei a escalação limitada, esperava mais do ataque", critica, acrescentando que o técnico poderia ter arriscado mais. "Não gostei do Grafite, nem do Doni, que sempre foi mau goleiro, até quando era do Corinthians. E acho que poderia ter dado oportunidade para o Ganso", protesta.