Serviços voltados ao idoso estão em alta

Eduardo Nunomura - O Estado de S.Paulo

Edifícios, academias e resorts turísticos adaptados são exemplos

A casa do futuro está prestes a ser construída e parafernálias tecnológicas estão longe de ser prioridade. Pense em apartamentos de portas largas, fechaduras com trinco acima da maçaneta e banheiros com barras de apoio e banco dentro do box. Na área social, pisos antiderrapantes, escadas com degraus de duas cores, piscina com rampa e corrimão, mobiliário de quinas arredondadas e pista de caminhada em volta do prédio.De olho num Brasil que envelhece, a construtora Tecnisa lança no próximo semestre o primeiro edifício brasileiro preocupado com a terceira idade. É uma visão de mercado. A atual população de idosos é de 20 milhões e eles têm dinheiro. A massa de rendimento das pessoas acima de 60 anos é de R$ 18 bilhões mensais, segundo dados de 2007 da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios. Daqui a 29 anos, serão mais de 30 milhões de idosos no País.O prédio da Tecnisa será erguido na Rua Araribá, na zona leste de São Paulo. Na aparência será igual a qualquer outro. A adaptação dos apartamentos só será feita a pedido do comprador. "Vamos introduzir uma série de detalhes voltados para eles", diz o diretor da empresa, Romeo Busarello. A gerontóloga Naíra Dutra Lemos, da Unifesp, foi consultora do projeto. E há outras iniciativas do tipo.Há cinco anos, o prefeito de Maringá, Silvio Magalhães Barros II, reeleito em 2007, verificou que as pessoas acima de 60 representavam 15% dos atendimentos nos postos de saúde e mais de 85% das despesas. Foi para Brasília bater na porta do Ministério da Saúde. Lá, descobriu o programa Brasil Saudável, baseado no tripé comer melhor, parar de fumar e praticar esportes. Voltou com a ideia de criar uma academia da terceira idade. A metalúrgica Ziober, especializada em dobrar tubos metálicos, foi chamada para ajudar. "Ao montar a primeira academia da terceira idade (ATI), ela lotou", lembra o empresário Aluizio de Assis Junior.Outras vieram, e hoje são 50. Em cada uma, há um circuito com dez aparelhos de baixo impacto. "Quem vai para a ATI não vai mais para a UTI", brinca Assis Junior. A empresa viu o faturamento anual de R$ 100 mil saltar para R$ 8 milhões. Seus aparelhos estão presentes em 700 municípios brasileiros.MAIS E MELHORESHoje, para cada dez idosos, só um tem mais de 80 anos. Em 2050, serão cinco. Isso repercutirá na economia. "As próximas gerações de idosos vão ser mais numerosas, ter maior renda e melhor escolaridade", diz o demógrafo José Guimarães, diretor da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Dos atuais 17,7 milhões de brasileiros acima de 60 anos com renda, 10% ganham mais de 20 salários mínimos. E há a elite da elite: segundo a BM&FBovespa, as pessoas acima de 66 anos acumulam R$ 22 bilhões em ações. Têm tanto dinheiro quanto a soma dos investidores entre 26 e 55 anos. "Mas faltam opções de bens e serviços para ele usufruir melhor sua renda", afirma Ribeiro.De 1992 a 2007, o aumento dos rendimentos dos idosos foi maior que o dos brasileiros, diz o pesquisador Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas. A renda de uma pessoa da terceira idade é 72% superior à da média da população, muito disso por efeito das aposentadorias. O que pode vir a ser um transtorno para futuros governos. "A sociedade tem uma capacidade limitada para bancar esses gastos", pondera Neri.Quem investe na terceira idade começa a perceber que eles têm o que falta a muitos jovens e adultos: tempo livre. Caldas Novas, com suas águas terapêuticas, recebe 1 milhão de idosos por ano, a metade dos turistas. Para agradar a esse público, as placas de sinalização têm letras maiores, há faixas de travessia para pedestre em vários pontos, as ruas são de mão única e os hotéis foram adaptados para eles.Tudo isso fez da cidade goiana o roteiro turístico preferido no programa Viaja Mais Melhor Idade. O Ministério do Turismo organiza e estimula a venda de pacotes para 12 destinos, oferecendo ainda empréstimo consignado para quem precisa. No ano passado, foram vendidas cerca de 180 mil viagens, mais que o triplo do previsto inicialmente.