Segredos de um túmulo

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

Cemitérios possuem uma quantidade enorme de informação enterrada. Parece pouco para reconstruir a complexidade de uma sociedade, mas é a única fonte de informação que dispomos para compreender povos que não deixaram relatos, arte ou construções. Agora, pela primeira vez, o estudo de um túmulo demonstra cientificamente a organização social e familiar de uma sociedade do final da idade da pedra.Em Eulau, Alemanha, foram achados quatro túmulos com 13 esqueletos. Idade dos ossos, organização dos corpos e artefatos permitiram concluir que os mortos pertenceram à cultura Corded Ware, que ocupou o norte da Europa e da União Soviética 3 mil anos antes de Cristo. Aparentemente, foram enterrados após conflito armado. O túmulo denominado 99 continha uma mulher de 40 anos, um homem de 50 e duas crianças, de 5 e 9 anos. O homem estava deitado sobre seu lado esquerdo, com as pernas encolhidas e a cabeça apontando para o poente (um costume dessa cultura). A mulher, com as pernas entrelaçadas às do homem de modo que as nádegas se tocavam, foi enterrada deitada sobre seu lado direito, com a cabeça apontando para o nascente. Cada um abraçava uma criança. As cabeças delas repousavam próximas aos ombros dos adultos. A análise dos ossos mostrou que os quatro sofreram morte violenta e foram enterrados pelos sobreviventes. Os adultos tentaram se defender. Isso é visível nas lesões nos braços e nas mãos semelhantes às esperadas em uma pessoa que se protege com os braços. Todos acabaram morrendo com fraturas cranianas ou de vértebras.A análise do DNA extraído dos dentes permitiu descobrir que os dois adultos eram os pais biológicos das crianças, ambas do sexo masculino. As relações familiares e de afeto aparentes no arranjo dos corpos refletem fielmente as relações genéticas entre os quatro familiares. A mãe, claro, foi enterrada abraçando o filho menor. O núcleo familiar já existia na idade da pedra.Os ossos também foram analisados para determinar seu conteúdo de estrôncio. A quantidade do metal no osso reflete o conteúdo de estrôncio na água consumida durante a infância, uma característica da fonte de água de cada localidade. Foi possível demonstrar que o conteúdo de estrôncio nos ossos dos filhos é igual ao do pai, mas muito diferente do da mãe. Cientistas creem que isso demonstra que a sociedade era exogâmica e patrilocal. Os homens se casavam com mulheres provindas de outros locais (casamentos exogâmicos), mas o casal residia e procriava no território do pai (patrilocal). Esse comportamento social faz com que os ossos das mães sejam testemunhas do conteúdo de estrôncio de seu local de origem enquanto os ossos do pai e dos filhos são testemunhas de uma mesma fonte de água, proveniente do local onde o pai nasceu, o casal viveu, teve seus filhos e provavelmente foi morto.Nos últimos 4.600 anos a estrutura familiar e a agressividade do Homo sapiens parecem não ter mudado muito. Histórias semelhantes são enterradas todos os dias em nossos cemitérios. *Biólogo - fernando@reinach.comMais informações: Ancient DNA, strontium isotopes, and osteological analyses shed light on social and kinship organization of the Later Stone Age. Proc. Nat. Acad. Sci. vol 105