Saúde recomenda adiar viagem pela América do Sul por causa da gripe

Emilio Sant?Anna e Jamil Chade - O Estado de S.Paulo

País terá de explicar à OMS adoção da medida; RS tem 1.º caso grave da doença, com paciente internada na UTI

Apesar de contrariar orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Ministério da Saúde brasileiro recomendou ontem que sejam evitadas as viagens para países da América do Sul que têm a circulação do vírus da gripe suína - especialmente Chile e Argentina. A proximidade das férias escolares, a chegada do inverno e o alto número de casos de brasileiros que contraíram a doença na Argentina são os motivos.   Acompanhe todo o noticiário e os últimos dados da doença Ontem, os exames de mais 94 pacientes foram confirmados no País, 50 só em SP. Agora, o acumulado de casos chega a 334. No mesmo dia, a Fundação Oswaldo Cruz confirmou que a adolescente de 14 anos, internada em estado grave em São Gabriel (RS), contraiu a doença. A garota também teria sido infectada na Argentina (mais informações na página A18). O boletim oficial da OMS divulgado à tarde apontava o país vizinho com 7 mortes em decorrência da gripe, mas uma atualização feita à noite pelo governo argentino elevou os óbitos para 17. A recomendação do ministério brasileiro foi anunciada simultaneamente com a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, que também sugere evitar viagens para México, EUA e Canadá. "Não é uma orientação, pois o protocolo da OMS não recomenda a interrupção de circulação de pessoas, mas uma recomendação para quem possa adiar a viagem", diz o ministro José Gomes Temporão. A medida é destinada a todos os brasileiros, mas dá especial ênfase aos casos de maiores de 60 anos, gestantes, crianças de até 2 anos e pacientes imunodeprimidos, como os que fazem quimioterapia. Para Temporão, trata-se de prevenção necessária e baseada no "bom senso". O ministro afirmou que o aumento de casos confirmados durante o final de semana era esperado. Ele não descarta a possibilidade de o País passar a ter transmissão sustentada entre pacientes, mas disse que por enquanto a estratégia de vigilância está dando certo e será mantida. "Todos os casos autóctones registrados no Brasil têm um vínculo claro, são pessoas que foram contaminadas por outras que contraíram a doença no exterior", explicou. INÚTIL A decisão do ministério desagradou aos técnicos da OMS. A entidade não recomenda evitar viagens e alerta que a aplicação da medida não interromperá a proliferação da gripe suína no Brasil. A OMS ressalta que o vírus já está no País. A entidade pedirá que o Brasil dê uma explicação científica sobre a decisão. "O vírus está em todas as partes. Não é uma questão de conter viagens", diz Gregory Hartl, porta-voz da OMS. Explicações vêm sendo cobradas de todos os países que adotaram medidas semelhantes. Isso ocorreu com a China e a Rússia e deve acontecer nos próximos dias com o Brasil, segundo informou ao Estado uma fonte da organização. Hartl deixa claro que a recomendação para não viajar ou o fechamento completo das fronteiras seriam inúteis nesse momento. Uma das principais queixas, quando o vírus surgiu em abril, foi a restrição imposta por vários governos contra a comercialização da carne suína. A OMS contabiliza oficialmente 53.317 casos da doença em um total de 100 nações e o temor da entidade é que países se aproveitem da doença para adotar restrições injustificadas. "Nossa posição é clara e não iremos modificá-la: obviamente que os governos são livres para tomar as medidas que considerem necessárias. Mas nós não recomendamos nenhuma restrição de viagens", afirmou Thomas Abraham, principal porta-voz da OMS. Há duas semanas, a OMS declarou que o mundo vive uma pandemia de gripe. Mas, ainda assim, evitou fazer recomendação sobre viagens. A única recomendação para não viajar é destinada a pessoas que não estejam se sentindo bem. Segundo a OMS, o impacto econômico de uma barreira seria superior às vantagens das restrições. Funcionários da entidade alertam que metade dos casos mundiais da gripe estão nos EUA e que, nem por isso, outros países passaram a barrar as viagens. Segundo o secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas, porém, a medida é justificável, pois 40% dos casos confirmados em São Paulo foram contraídos na Argentina. "A OMS não é contrária a essa medida. Proibir é diferente de recomendar que as pessoas não viajem", afirmou. Os governos do Chile e da Argentina não se manifestaram. A Associação Argentina do Direito do Turismo considerou a medida "discriminatória".