Saúde para a pele negra

Bia Fugulin - O Estado de S.Paulo

Mulheres devem ficar atentas para evitar problemas específicos que podem acometer seu tom de pele

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Até bem pouco tempo atrás, pouco se falava dos fatores que atingiam a pele negra. Isso porque sempre se acreditou que esse tipo de derme era resistente e, por isso, estaria imune aos problemas graves, como os diversos tipos de tumores que acometem a pele branca. Também não se dava muita importância aos cuidados com o envelhecimento, visto que as negras sempre foram consideradas privilegiadas neste quesito.

 

De fato, a pele negra é mais resistente que a branca, a começar pela quantidade de melanina presente, o que lhe garante uma proteção natural – a qual pode variar de 6 a 15, estabelecendo-se um paralelo com a conhecida escala do filtro solar. Só isso já seria suficiente para afirmar que seu envelhecimento é muito mais tardio que o da pele branca, e o risco de câncer, menor. Além da maior proteção natural contra o sol, a pele negra possui mais fibroblastos ativos, que são células produtoras de colágeno, responsáveis por manter a firmeza da cútis, evitando a flacidez.

 

SIMONE SAMPAIO – Ficou manchada após uma sessão de limpeza de pele

 

Mas o que se tem observado nos hospitais e consultórios é que a pele negra é atingida por doenças características – algumas, inclusive, até interferem diretamente na estética. A mais grave é um tipo de tumor bastante agressivo, denominado melanoma acral. Aparece nas mãos, pés e sob as unhas. De acordo com o doutor Mauro Enokihara, presidente do Grupo Brasileiro de Melanoma (GBM), esse tipo de câncer aparece numa proporção de 2% a 13% na população em geral. No entanto, na população negra, representa um percentual de 50% a 70%. Ou seja, o melanoma na raça negra, em números absolutos, é raro, mas quando aparece, esse tipo é o mais comum.

 

Os primeiros sinais são manchas que progridem até três centímetros, de cor castanho-escura e bordas irregulares. Evoluem em, aproximadamente, dois anos e meio, quando surgem elevações e nódulos. O maior problema dos melanomas é a falta de diagnóstico precoce, já que não respondem aos tratamentos com radio, quimio ou imunoterapia. "O fator mais importante para tratá-lo é detectá-lo na fase inicial, e o melhor tratamento ainda é o cirúrgico", diz o médico Enokihara.

 

MAGDA NASCIMENTO Acredita que falta ainda conhecimento sobre peles negras

 

DIA A DIA

Quelóide, manchas e pelos encravados são os problemas mais frequentes enfrentados por pessoas de pele negra, segundo o doutor Aldo Toschi, conselheiro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e coordenador de dermatologia do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC). Para quem não sabe, o quelóide é aquela cicatriz grossa, protuberante, bastante comum nos afro-descendentes. Pessoas que têm a pré-disposição para desenvolvê-lo devem ter um cuidado maior após as cirurgias, cortes ou traumas na pele. Isso significa acompanhamento médico, para que o especialista possa tratá-lo no momento certo.

 

O quelóide surge com mais frequência na região superior dos braços, parte superior das costas, entre os seios e no pescoço e nuca. Não há cura, mas é possível melhorar bem sua aparência. Os procedimentos mais usados envolvem aplicação de laser de CO2, infiltração de substâncias antiinflamatórias, crioterapia ou mesmo cirurgia. O tratamento varia de paciente para paciente. Vale destacar que há muita confusão entre quelóide e cicatriz hipertrófica, pois, num primeiro momento, podem ser semelhantes. A diferença básica é que o quelóide, quando se forma, ultrapassa a borda do corte ou do trauma, e a cicatriz hipertrófica se limita a essas regiões e tem melhor resposta ao tratamento: após cerca de seis meses, costuma diminuir e até desaparecer.

 

As manchas, queixa comum entre as negras, costumam aparecer devido à pigmentação excessiva. Foi o caso de Simone Sampaio, atriz e sambista de carteirinha do carnaval de São Paulo. Ela ficou toda manchada após uma sessão de limpeza de pele. É comum ocorrências como essa, visto que não são todos os profissionais de estética que têm experiência com a pele negra, e muitos desconhecem as novas tecnologias.

 

A analista de comunicação Magda Nascimento gostaria de tirar umas pintinhas, mas não o fez até agora pela dificuldade de encontrar profissionais que dominem as técnicas em peles negras. "Também queria colocar botox e fazer peeling, mas ainda estou buscando um especialista que tenha experiência com o meu tipo de pele." Até pouco tempo atrás, falar em peeling para negras era quase proibido. Mas, agora, já é indicado, como diz o dermatologista Aldo Toschi: "Os peelings são recomendados, mas devem ser superficiais, porque podem também ocasionar mais manchas." Ele indica, normalmente, a microdermoabrasão (ou o peeling de cristal), associada aos diversos tratamentos clínicos que devem ser supervisionados pelo médico. Esse procedimento é indicado também para atenuar rugas finas, poros abertos, cicatrizes superficiais de acne e pele grossa.

 

Uma patologia que foi divulgada à exaustão é o vitiligo, por ter sido associada ao superastro Michel Jackson. A doença é caracterizada por manchas brancas, em decorrência da falta de pigmentação. Acomete todos os tipos de pele, mas é na negra que fica mais evidente. Não tenha cura, mas há tratamento para estimular a produção de melanina, atenuando o aspecto da mancha.

 

Já para os pelos encravados, o dermatologista Aldo orienta que as mulheres com essa pré-disposiçao evitem a depilação com cera, preferindo a boa e velha lâmina de barbear. Se a intenção é exterminar o pelo definitivamente, o laser pode ser aplicado, desde que com critério adequado a esse tipo de pele, o que pode demandar mais sessões.

 

A tecnologia tem se manifestado a favor: o infravermelho e radiofrequência não ablativa são indicados para combater flacidez, sem o risco de causar manchas ou queimaduras. Para o preenchimento de rugas, o ácido hialurônico é bastante utilizado, e o famoso botox, toxina botulínica, é indicado para atenuar as rugas de expressão e para combater a hiperidrose (aumento de sudorese em axilas, mãos e pés).