Salve sua pele

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

As estações estão confusas, o inverno quase não deu as caras. Daí a necessidade urgente de se proteger

Feche os olhos e transporte-se sensorialmente para uma praia deserta (de preferência). Quem resiste ao cheiro de maresia, à água salgada, ao vento no rosto, caipirinha, água de coco, camarãozinho frito e outras delícias que fazem do verão uma festa? Ninguém. O sol está relacionado ao bem-estar, ao prazer e, por que não, ao status, como vemos nas campanhas de moda das grandes marcas internacionais.A antropóloga Sylvia Cayubi Novaes - que, em parceria com a Sense Pesquisa, desenvolveu para a Johnson & Johnson um trabalho nas classes A, B, C e D sobre o uso de protetor solar - observou algumas diferenças de comportamento durante a exposição solar. Os cariocas ficam em pé. Os homens cruzam os braços para ressaltar músculos enquanto as mulheres empinam o bumbum. Já os paulistas, com suas indefectíveis cadeiras de praia, são os mais equipados. Usam protetores específicos para o corpo, lábios, cabelos, além de óculos e chapéu. Nos países da Europa, em função do clima, o autobronzeador e até as camas de bronzeamento são os recursos da população para ganhar "uma corzinha". Sobre o uso de protetores, pesquisa recente realizada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), em todo o País, mostrou que as pessoas ainda não estão conscientes dos riscos provocados pela exposição excessiva ao sol. Cerca de 70% da população ainda freqüentam a praia sem proteção solar. Os homens são os mais displicentes (77,9%), seguidos das mulheres ( 64,5%) e dos negros (80%). Alto custo dos produtos, carência de programas educativos e conseqüente falta de informação justificam os índices. Por conta disso, doenças como o câncer de pele, que poderiam ser facilmente prevenidas, continuam ocupando uma posição de destaque entre os males que mais afetam a pele dos brasileiros. Só em 2006, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), foram diagnosticados mais de 120 mil novos casos da doença.E mais: engana-se quem deixa o filtro solar de lado, achando que apenas algumas regiões do País são prodigamente ensolaradas e, portanto, mais afetadas pela ação dos raios ultravioleta. Segundo levantamento do professor do Instituto de Recursos Naturais da Universidade Federal de Itajubá, Marcelo Corrêa, que atua na área de meio ambiente, a diferença entre São Paulo e Natal, por exemplo, está na sazonalidade dos raios e não na intensidade. A análise dos dias nublados mostra que cerca de 80% do território brasileiro têm níveis de raios UV que requerem máxima proteção. Em miúdos, as nuvens potencializam a ação destes.Sinal vermelho E pensar que nos anos 70, para tostar a pele, valia tudo, como passar urucum com nujol, coca-cola e mirabolantes fórmulas caseiras. Hoje o pensamento comum é obter um bronzeado seguro, até porque o buraco na camada de ozônio vem se transformando numa cratera cada vez maior, colocando a saúde da pele em risco. No verão, essas agressões tornam-se mais intensas, principalmente porque há uma maior incidência de radiação solar (raios UVA e UVB). A dermatologista Juliana Neiva, que esteve presente no 21º Congresso de Dermatologia em Buenos Aires, ressalta que o principal agente causador do fotoenvelhecimento é a exposição solar contínua, durante toda a vida. Manchas, risco de câncer de pele, perda de viço e rugas são o preço alto da exposição solar sem cuidados. "Além do sol, o tabagismo, a poluição e o uso de alguns medicamentos também são vilões da beleza."A médica lembra que, embora muito se fale da radiação UVB - que atinge a pele de forma mais superficial, causando vermelhidão, bolhas e queimaduras -, os raios UVA penetram nas camadas profundas da derme, causando danos permanentes nas fibras de colágeno e fibras elásticas. "O grande desafio dos pesquisadores científicos era desenvolver um filtro anti-UVA que fosse fotoestável, ou seja, que não se degradasse quando exposto ao sol por longos períodos. As pesquisas chegaram ao filtro orgânico Mexoryl, particularmente eficiente contra os raios UVA", comenta, citando alguns protetores, como os da linha Anthelios XL Hélioblock, da marca La Roche Posay; Sôleil DNA Guard e UV DNA Shield, ambos da Lancôme. "Este último atende à demanda do consumidor por produtos com funções extras, que protegem a pele do sol e da poluição, prevenindo os sinais de envelhecimento."Como escolher o produto e a forma correta de aplicá-lo? Segundo a dermatologista Daniela Hueb, quem tem pele oleosa deve optar pelo gel. Para as normais, recomenda a loção e, para aquelas bem secas, os cremes. Com relação à aplicação, esta deve acontecer a cada 30 minutos antes da exposição ao sol, com reaplicação a cada duas horas, após o mergulho ou mediante transpiração excessiva. Já o fator de proteção pode variar: 30 para o rosto e 20 para o corpo, não esquecendo de proteger os lábios e orelhas, locais comumente afetados pelo câncer de pele. Barracas, chapéus e óculos escuros são acessórios essenciais. Sobre este último item, segundo a Organização Mundial de Saúde, a superexposição aos raios solares é responsável por 20% dos 12 a 15 milhões de casos de catarata no mundo. Mas antes de escolher um modelo qualquer de óculos, certifique-se de que as lentes - não importa a cor - possuem uma camada que filtra os raios solares e impede a passagem dos raios UV. Quando usamos óculos sem o filtro adequado, a pupila (que permanece dilatada por causa das lentes escuras) recebe diretamente os raios solares. Essa exposição excessiva aos raios UVA e UVB pode causar doenças oculares como catarata (perda da transparência do cristalino) e a degeneração macular (perda da capacidade de focar os olhos, a pessoa preserva apenas a visão periférica).Para quem procura reforço extra, os produtos da linha UV Line (camisetas, chapéus, saídas de praia, bonés, viseiras) são confeccionados em tecidos especiais com fios de dióxido de titânio, que bloqueiam em até 98% a ação dos raios UVA e UVB.CuidadosPara dar uma forcinha ao bronzeado, prefira uma alimentação rica em beta caroteno, uma vez que a substância favorece a pigmentação da pele e reduz a hipersensibilidade ao sol. É encontrada em alimentos como salsa, espinafre, cenoura, abóbora, manga, mamão, couve, brócolis e açafrão. A dermatologista Daniela Hueb, também especializada em nutrologia, dá uma dica: "um mês antes de ir à praia ou piscina, tome diariamente um suco feito com duas laranjas e uma cenoura. A combinação é perfeita", comenta.Outros alimentos que, segundo a médica, favorecem o bronzeado são: óleo de fígado de peixe, fígado, rim, ovo, leite, óleo de dendê e manteiga, ricos em vitamina A. Já o germe de trigo, óleos vegetais, vegetais de folhas verdes, gordura do leite, gema de ovo e nozes concentram vitamina E.Além da alimentação, outra alternativa são cápsulas que preparam a pele para o bronzeamento e, portanto, devem ser ingeridas cerca de um mês antes da exposição solar. Formulado com licopeno (extraído do tomate), extrato de óleo de Palma (rico em carotenóides, precursores de vitamina A), vitamina C e vitamina E, ambos antioxidantes potentes, o Imedeen Tan Optmizer atua em três frentes, reduzindo a vermelhidão, combatendo o envelhecimento e prolongando o brilho dourado e saudável causado pelo sol.É fundamental hidratar o corpo, ingerindo muito líquido. Vale lembrar que o suor é um componente natural que ajuda na hidratação da pele. Porém, com a exposição ao sol, esse mecanismo não é suficiente, podendo ocorrer uma desidratação de leve e moderada a excessiva. Para evitar que isso ocorra, é importante que se mantenha o uso de um bom hidratante, pelo menos uma vez por dia. O produto ideal é aquele que forma uma barreira na camada superficial da pele, e é formulado com alantoina, glicerina, silicone e óleos naturais.Na volta das férias, caso o estrago tenha sido grande, a dermatologista Adriana Vilarinho recomenda um tratamento de choque. O objetivo é melhorar a aparência e diminuir linhas e rugas finas ao redor dos olhos e da boca. O programa consiste em uma esfoliação com peeling de bambu (à base de sílica de arroz e ácido glicólico, para clarear, amaciar e recuperar a pele sem provocar descamação); massagem facial (com creme nutritivo, máscara rejuvenescedora) e o uso do Gentle Waves, aparelho que emite ondas durante 35 segundos e age estimulando o surgimento de colágeno novo, ao mesmo tempo em que impede a degradação do que já foi danificado. O tratamento (cerca de dez sessões) pode até ser feito no verão, com a pele bronzeada.