Rotinas iguais de Érica e Amanda, ''filhas do Incor''

- O Estado de S.Paulo

Apesar de descender de uma família budista, a cardiologista-pediatra Estela Azeka é católica praticante e usa uma medalha com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. A religião permite que ela se reconcilie com a vida cada vez que perde uma criança na UTI do Incor - e isso acontece com dolorosa frequência. Quarta-feira, Estela sugeriu que o Estado entrevistasse L., uma menina de 11 anos que viera de Barra Mansa (RJ); quinta, quando a reportagem chegou ao Incor, L. tinha morrido.Já Érica e Amanda Luíza representam o lado recompensador da saga de Estela. As duas são de Mato Grosso e foram transplantadas no Incor. São crianças que têm uma infância diferente. Aos 16 anos, Amanda vive, há 13, uma rotina hospitalar. Desde 2004, quando recebeu o transplante, a cada dois meses viaja de Várzea Grande (MT) a São Paulo com a mãe, Elenilza.Pobres, as duas recebem passagens aéreas do governo de Mato Grosso e medicamentos da prefeitura de Várzea Grande. Aqui, ficam numa casa de passagem para crianças cardiopatas. Uma vez tiveram de ficar um ano e 6 meses em São Paulo. Há pouco Elenilza descobriu que o filho mais novo, Luís Henrique, de 14 anos, tem sopro no coração e o trouxe para o Incor.Érica, 8 anos, de Diamantino (MT), não teria mais que um mês de vida quando chegou ao Incor, em 2003. Com miocardiopatia dilatada, seu coração tinha uma força de contração quatro vezes menor que o normal, lembra Estela. "O coração dela estava falido como bomba", explica. O transplante salvou Érica. Mas tanto ela quanto Amanda se tornaram "filhas do Incor". Por muito tempo, serão obrigadas a viajar a São Paulo para fazer controle de rejeição porque Mato Grosso não tem hospitais capazes de acompanhar transplantados.