Retrato da mulher em cinco décadas

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

O Feminino, que chega à edição 3.000, vem registrando mudanças na vida da mulher nestas cinco décadas

Do espanto causado pelo elevado número de mulheres na faculdade, em meados de 1950, aos questionamentos, conquistas e transformações comportamentais ocorridos em pouco mais de cinco décadas, foram muitas as mudanças, todas acompanhadas de perto pelo Suplemento Feminino (ou apenas Feminino, hoje), que comemora a marca do número 3.000 nesta edição. Folhear as páginas dos primeiros exemplares é uma saborosa viagem ao túnel do tempo, quando fotos e editoriais de moda, por exemplo, eram importados e pouco condizentes com o clima do País e perfil da consumidora brasileira. Um texto sobre estolas de pele com pitadas de humor negro é de arrepiar os ecologistas: "Raposa de reflexos dourados, castor macio ou coelho enfeitado deixaram suas tocas ou pastagens nos picos nevados ou à beira dos rios para tomar o caminho dos peleteiros."

Além de moda, o caderno trazia seções fixas para crianças, trabalhos manuais, culinária, crônicas e romances açucarados em capítulos, para deleite das donas de casa. Entre as reportagens de 1954, uma em especial chama a atenção. Com a manchete "A maioria feminina numa escola superior de São Paulo", o artigo diz que 80% do total de alunos são do sexo feminino. E questiona: "como explicar isso?" O texto, que busca respostas para tamanho interesse das mulheres pelo curso superior de Letras, enaltece as jovens e, no final, observa que "as alunas lembram um alegre bando de pássaros a chilrear."

Não menos pitoresca é a reportagem sobre a relação da mulher com o automóvel, algo tão corriqueiro hoje, mas que na época causava desconfiança. Sobre as qualidades necessárias para dirigir, são mencionados bons reflexos e sangue frio. "Eles concordam que elas podem ter bons reflexos, mas em compensação carecem totalmente de sangue frio, qualidade essencialmente viril. Porém, não precisam ser masculinizadas para dirigir bem." O senso de mecânica seria outro problema: "A mulher vê o seu carro - pequeno, luxuoso ou modesto - como vê um vestido ou uma joia; se lhe agrada, usa-o, se não, não tem interesse algum."

E, em tempos de botox, cirurgias plásticas, lasers e cremes de última geração, quem acreditaria no poder embelezador da água da chuva? Só mesmo um certo visagista francês, que recomendava às vaidosas dos anos 50 expor o rosto bem limpo "à ducha filiforme, que tem o poder de limpar, tonificar os tecidos e clarear a tez, graças à composição da água." Na seção Seja Bela, regrinhas básicas para não perder o marido: "Nada de rosto bezuntado de creme à noite, ao dormir, nada de luvas para proteger as mãos durante o sono, e nada de gemidos à menor dor de cabeça ou outros achaques, pois os homens têm horror a queixumes dessa natureza e preferem as mulheres risonhas e felizes às que se apresentam tristes e chorosas."

Os editoriais da época pouco falavam da condição feminina, porém, curiosamente, em 1957, em meio aos classificados de beleza e moda, um anúncio discreto dizia ser possível casar-se e divorciar-se no México, sem viajar.

MISCELÂNEA

Dez anos depois, outros assuntos foram introduzidos no caderno, como cultura e turismo. O jornalista e caricaturista Jaguar assinava algumas ilustrações. Outro colaborador do Feminino era Thomaz Souto Correa, antes de se tornar o homem forte da editora Abril na década de 1960. Ele fazia coberturas para a editoria internacional do Estadão, e assinava uma crônica no Feminino semanalmente, sobre arte, artistas e personalidades que passavam por São Paulo. Entrevistou Norma Bengell, ícone do cinema nacional, o cantor italiano Gino Paoli, a atriz Elza Martinelli, e muitos outros. Com um estilo próprio, assim descreveu a cantora Rita Pavone, ídolo da juventude dos 60: "trata-se do metro e 40 de altura mais explosivo que se possa imaginar." Correa gostou tanto do universo feminino que acabou trocando a editoria internacional pelas revistas especializadas.

Em Paris, o correspondente Gilles Lapouge entrevistou com exclusividade para o Feminino a artista plástica Jeane Mondigliani, filha do pintor. Ela revelou que, por medo das críticas, escondia suas telas debaixo da cama. Em 1964, lado a lado, assuntos díspares: de um ensaio fotográfico sobre a vinda de Brigitte Bardot ao Brasil a um registro dos atores do Teatro Oficina (Célia Helena, Raul Cortez e Etty Frazer ), em plena Praça da República, vestidos como personagens da peça Os Pequenos Burgueses. Algumas páginas adiante, reportagens sobre a profissão glamourosa das aeromoças, a rotina das operárias da indústria automobilística e o perfil de uma aviadora francesa - Hrissa Pelissier, 32 anos, terceira mulher a atravessar o Atlântico.

Bons tempos aqueles, em que a honestidade era regra e os flanelinhas, remunerados, tinham aulas para bem atender os motoristas. É o que trata uma reportagem sobre a Guardinha de Automóveis, instituição que recebia 300 meninos carentes por ano. Treinados para zelar pelos veículos, devidamente uniformizados, eles faziam cursos de cultura geral, educação física e trânsito. Segundo a administradora da instituição, as gorjetas não eram admitidas, porque "a propina vicia, rebaixa e desorganiza o serviço."

A irreverência dá o ar da graça na reportagem O Jogo da Verdade, onde palavras e frases seguidas de reticências deviam ser completadas pelos ilustres entrevistados, entre eles, Raul Cortez, a atriz Berta Zemel, a escritora Lígia Fagundes Telles, a artista plástica Maria Bonomi. As respostas mais mordazes vinham de Cortez. Sobre uma virtude, disse ele: "A virgindade. Dizem que é uma virtude, eu até agora não entendi bem porquê."

IRREVERÊNCIA

Em 1968, revolução à vista no Feminino. Lado a lado, além da culinária, grande estrela do caderno, ganham espaço editoriais mais ousados sobre moda, beleza, arquitetura e decoração, as reportagens de saúde, serviços, nutrição, além dos concorridos concursos de trabalhos manuais, que tinham a participação de até 2 mil leitores. Na moda: o artista plástico renomado Nelson Leirner deixa os quadros para brincar de Denner no carnaval. Ele inventa o stripemcores, um strip-tease fashion, no qual um vestido longo - "de acordo com o claro do baile" - se transforma num mini, numa sessão de quatro fotos. São frequentes as edições especiais, sobre temas como educação, gravidez, namorados... e uma sobre a Índia, aproveitando a visita de Indira Gandhi - única mulher primeiro-ministro - ao Brasil, com dicas de moda, maquiagem, comida e decoração indianas. Na edição de junho desse mesmo ano, uma reportagem de capa encoraja os homens sozinhos a lidar com as tarefas domésticas. Em pauta, como preparar o café, usar a máquina de lavar, o aspirador e o ferro de passar roupas.

A dança ganha um número inteiro, trazendo a origem do tango e outras curiosidades. O ritmo da moda chamava-se pata pata, referência ao hit musical do momento, cantado pela sul africana Miriam Makeba. Um ensaio fotográfico ensina aos leitores os passos do charleston, iê-iê-iê e outros.

Prima distante do São Paulo Fashion Week, a Feira Internacional da Indústria Têxtil - Fenit, capitaneada pelo empresário Caio de Alcântara Machado, era um grande acontecimento. O evento ia além da moda. Músicos, atores e personalidades internacionais transformavam os desfiles da Rhodia em happenings disputadíssimos. Na edição de agosto de 1968, Sylvie Vartan, mulher do ídolo do rock francês, Jonhny Vartan, era a convidada VIP da feira têxtil.

Na publicidade, destaque para um comercial bem humorado da agência Standard para seu cliente, a Rhodia, em busca de modelos: "O apelido de Veruschka era Cegonha e o de Twiggy, Pardal. Se você tem algum apelido por não ter cara de vamp, procure-nos. Venha como você é. Nada de penteados complicados, nem de maquilagens extravagantes. Não importa que ninguém assobie para você. Afinal de contas, ninguém assobiava para a Veruschka e a Twiggy antes da fama e da fortuna."

Dois anos depois, em 1970, uma capa sui generis: uma modelo com notas de dinheiro na cabeça, à moda dos turbantes de Carmen Miranda, remete à aplicação financeira. Na reportagem, os prós e contras de a mulher investir em ações, caderneta de poupança e imóveis. A preocupação com a dupla jornada de trabalho se fazia notar nas reportagens. Numa delas, a pergunta: "a alimentação do ano 2000 será feita somente com pílulas?" Além de pílulas futuristas, o texto previa que os vegetais seriam vendidos limpos e cortados; as frutas, cortadas e descascadas, e que, em cada lar, haveria um freezer, sonho de consumo das mulheres.

E como seriam as mulheres mais interessantes da década? Em uma enquete, três profissionais da área de beleza guiam-se pela personalidade das musas eleitas, como Maria Bethânia, as atrizes Nathalia Timberg e Dina Sfat, a modelo e atriz do filme Blow Up, Veruschka, e a bailarina, atriz, pintora, escultora e escritora francesa, Ludmila Tcherina.

Os ensaios de moda rua começam a surgir no Feminino, com legendas explicando, de forma didática, erros e acertos. No rol dos entrevistados internacionais, grandes nomes da moda, como Pierre Cardin e Emilio Pucci, falam sobre carreira e tendências. Pucci, que é associado às estampas coloridas, revelou que sua primeira coleção foi absolutamente negra, porque não gostava das cores dos tecidos.

Nos anos 80, seções fixas se incorporam ao caderno, como livros, pediatria, som, economia, etc. Pensando na praticidade da mulher moderna, um editorial de beleza antecipa um truque que até hoje ganha as páginas femininas: como se maquiar usando apenas o lápis. Na cozinha, nada de perder tempo: em "60 dicas para congelar melhor", o passo a passo de todo o processo, com cada tipo de alimento. Os adolescentes, por sua vez, posam de bem comportados em uma capa sobre como organizar as festinhas de aniversário. Vestidos à moda dos cantores de rock dos anos 50, o casalzinho contrasta com a meninada de hoje, que troca bolo e brigadeiros por baladas.

Na série de reportagens especiais, em 1985, o Feminino organizou um debate sobre a condição feminina com a socióloga Eva Blay, a diretora do Geledés (Instituto da Mulher Negra), Sueli Carneiro, e a pesquisadora de temas femininos, Carmen Barroso. No mesmo ano, a violência contra a mulher foi assunto de destaque, reunindo especialistas.

De lá para cá, as questões de gênero - somadas a reportagens de comportamento, saúde, educação, moda, beleza, trabalho, finanças - continuam a pautar o caderno. E não só as mulheres, mas os homens - também fiéis leitores - ganharam atenção especial.