Resistência crescente a antibióticos vira desafio para a saúde pública

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Fatores como uso excessivo, automedicação e falta de novos medicamentos criam cenário preocupante

Medicamentos que transformaram o mundo desde que foram criados, revolucionando o tratamento de infecções e fazendo que doenças fatais virassem problemas de saúde controláveis, os antibióticos enfrentam atualmente uma séria ameaça. O uso indiscriminado, a automedicação, as prescrições incorretas e o declínio nas pesquisas de novos produtos estão levando a uma crescente resistência bacteriana. Sem ações que revertam esse cenário, segundo especialistas, o risco é que o homem volte a viver num mundo pré-antibióticos.Esse risco, além de transformar pneumonia, tuberculose ou infecções urinárias em doenças sem tratamento, provocaria um retrocesso em transplantes de órgãos, cirurgias de grande porte e até mesmo sessões de quimioterapia. Isso porque na base de todos esses avanços da medicina está o uso dos antibióticos para controlar processos infecciosos."Estamos enfrentando não apenas uma epidemia, mas uma pandemia de resistência aos antibióticos", afirma Otto Cars, professor da Universidade de Uppsala, Suécia, e membro da ReAct, rede internacional de pesquisadores e centros médicos voltada para o combate ao problema. "Indivíduos precisam estar cientes de que sua escolha de usar um medicamento desse tipo afeta a possibilidade de tratamento de infecções em outras pessoas", completa.A explicação está no fato de que, mesmo com o uso adequado, a cada vez que um antibiótico é ingerido, sua eficácia diminui - e com o uso prolongado ou recorrente, indivíduos se tornam portadores de bactérias mais resistentes. Para tentar lidar com essa situação, médicos já estão ressuscitando para uso hospitalar substâncias que tinham sido aposentadas, uma vez que os antibióticos novos não estão mais surtindo efeito em alguns casos.Cars cita estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) que mostra que em países de baixa e média renda a resistência aos antibióticos de primeira linha fez que 70% das infecções neonatais não pudessem ser tratadas segundo o protocolo definido pela OMS.Pesquisa feita na Inglaterra mostrou que o número de mortes nas quais o Staphylococcus aureus resistente à meticilina é mencionado aumentou de menos de 50 em 1993 para mais de 1.600 em 2006. O Centro Europeu para Prevenção e Controle de Doenças afirmou, em relatório epidemiológico, que uma das maiores ameaças atuais vem de micro-organismos que se tornaram resistentes.O ponto para a mudança passa por três níveis: pacientes, médicos e indústria. "O paciente está com dor de garganta e vai à farmácia comprar um antibiótico por contra própria. E o médico que atende alguém com tosse, por precaução, também receita antibiótico, mesmo que seja um caso de vírus", afirma Juvêncio Furtado, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia. "No ambiente hospitalar, os antibióticos fazem parte da maioria das prescrições, muitas vezes usados de forma incorreta, por só um dia. Por isso temos alertado muito, feito campanhas, tentado mudar a mentalidade do médico e do paciente", diz.Outro nó do problema está na falta de desenvolvimento de novos medicamentos do tipo. Estudo da Universidade da Califórnia mostrou que entre os 15 maiores fabricantes do mundo, apenas 1,6% dos remédios em desenvolvimento eram antibióticos e nenhum deles de uma nova classe. Entre 1930 e 1960, mais de 12 novas classes de antibióticos foram desenvolvidas - de 1960 para cá, apenas 2."Temos bactérias hoje na população e no ambiente hospitalar cujo arsenal de tratamento está muito reduzido", diz Maria Cláudia Stockler de Almeida, infectologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Para lidar com isso, ela afirma que algumas substâncias que não eram mais usadas por causa dos efeitos colaterais agora voltaram a ser prescritas. "Isso vai acontecer mais se não entendermos que antibiótico deve ser prescrito com muito rigor e segurança."