Resgate do Mar Morto opõe Israel e Jordânia

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo

Projeto polêmico propõe buscar água do Mar Vermelho por um canal para conter esvaziamento de lago salgado

Para evitar a catástrofe ambiental que seria o desaparecimento do Mar Morto, no Oriente Médio, os governos da região e o Banco Mundial tentam um acordo para construir um canal de 180 quilômetros que traria água do Mar Vermelho, ao sul. Mas, antes, será preciso superar barreiras políticas e de ativistas ambientais. O Mar Morto está morrendo. Estudos de entidades internacionais apontam que ele pode desaparecer até 2050. Admirado por Cleópatra, cenário bíblico e hoje centro de turismo, o mar sofre redução do nível de água de até 1 metro por ano desde o início da década. Nos últimos 40 anos, já perdeu um terço de sua superfície. Com 80 quilômetros, o mar é na realidade um lago de água salgada que divide a Jordânia e a Cisjordânia, ocupada por Israel. Por causa do grau de salinidade seis vezes maior que a média dos oceanos, nenhum peixe ou vegetação sobrevive nele e turistas podem boiar na água sem esforço. Ele ocupa a maior depressão do mundo, a 400 metros abaixo do nível do mar. Sua água e seu barro são ricos em sais que ajudam a tratar certas doenças de pele. O principal motivo da redução de nível é o uso da água do Rio Jordão - que o alimenta - para mineração, irrigação agrícola e de campos de golfe em pleno deserto. "O equilíbrio entre evaporação e o quanto de água o alimenta foi modificado pelas atividades humanas", explica Michel Jarraud, da Organização Meteorológica Mundial, braço da ONU. "E as mudanças climáticas estão acelerando a evaporação." A mera análise do impacto ambiental do projeto de ligação com o Mar Vermelho custará ao Banco Mundial US$ 2 milhões. O canal sairia do Golfo de Ácaba e atravessaria o Vale de Arava ao custo de US$ 5 bilhões, abastecendo Israel, Jordânia e territórios palestinos. Há duas semanas, o banco promoveu audiências públicas sobre o projeto e a discordância ficou clara. Para jordanianos, Israel quer desviar água do Jordão para irrigar seus cultivos. "Basta retomar o percurso natural do rio (para contornar o problema)", defende Odeh Al Jayyousi, diretor regional da entidade União pela Conservação Mundial. O grupo Amigos da Terra é da mesma opinião. Além do impacto ambiental, o turismo seria afetado. Um milhão de pessoas visitam a região por ano. Israel já sofre com as alterações. O Ministro do Turismo alertou o Parlamento que, em dois anos, seis hotéis poderão ter de ser evacuados, ao custo de US$ 1 bilhão. O uso indevido da água poderá gerar um desnível que inundaria a costa.