Resgate da cidadania é exemplo em Taubaté

Maykon Florêncio* - O Estado de S.Paulo

Benedita da Conceição Aguiar, de 81 anos, é conhecida pelos colegas de trabalho como dona Ditinha - mas há quem a chame de "vó". Ela e a filha Cacilda Aguiar, de 61, há sete anos participam do programa Re-SI-clando na cidade de Taubaté, a 158 quilômetros de São Paulo. O projeto, que dá emprego a 20 pessoas, conta com a parceria de órgãos públicos municipais, grandes indústrias, condomínios e escolas, que separam e doam o lixo que produzem. Dona Ditinha começou a trabalhar com lixo depois de ficar viúva. "Meu marido faleceu e me deixou muito pouquinho de pensão. Então, eu preciso trabalhar", conta. Como o valor da pensão é de um salário mínimo, ela resolveu começar a recolher recicláveis no lixão. Acabou sendo convidada por uma vereadora para participar do projeto, ao qual dedica três dias por semana. Cacilda, que também já trabalhou no lixão, tem no salário mínimo do Re-SI-clando a única fonte de renda. O lixo coletado é levado por um caminhão da prefeitura cedido para o projeto até o galpão, chamado de Centro de Reciclagem do Re-SI-clando. Lá, Ditinha, Cacilda e os colegas separam, prensam e embalam papéis, vidro, metais, isopor e todos os tipos de plásticos. Depois, o material é vendido para intermediários de indústrias de reciclagem. Além do salário mínimo, mãe, filha e os outros funcionários recebem três refeições no galpão - que tem uma cozinha com área de alimentação afastada dos materiais recicláveis -, cesta básica e passe (para quem mora longe). Todos recolhem INSS. Segundo a assistente social e coordenadora do projeto, Marilena Rabelo dos Santos, cada colaborador tem um custo de R$ 500 por mês. Taubaté pode abrigar mais cinco centros iguais ao do Re-Si-clando, que ajudariam a processar as cerca de 186 toneladas de lixo produzidas diariamente - metade é desse volume reciclável. Só o projeto que dona Ditinha participa vende 20 toneladas por mês. Para Marilena, mais importante do que o dinheiro que os coletores recebem é o resgate da cidadania por meio do trabalho. Segundo ela, é isso que os colaboradores mais prezam. Dona Dita confirma. "Eu ficava triste quando chegava numa loja, queria comprar e dizia que trabalhava no lixão. Os vendedores falavam que não tinham como fazer o contrato", relata Benedita. "Agora, não. Eu tenho contrato em tudo quanto é loja e faço até empréstimo." Outra vantagem de projetos como esse é a possibilidade de melhorar a condição de trabalho dos coletores: o galpão não tem cheiro, os colaboradores trabalham com roupas apropriadas - como luvas e botas - e máquinas facilitam a separação e o armazenamento. "No lixão, a gente amassava tudo no pé mesmo", lembra Cacilda. COOPERATIVA Agora, o próximo objetivo do Re-SI-clando é virar uma cooperativa, para garantir outros benefícios aos colaboradores. Sem falar que ter uma legislação própria dá mais consistência às atividades já realizadas. Apesar da idade, mãe e filha estão felizes em contribuir com o projeto de reciclagem. "Eu me sinto bastante importante com meu trabalho", diz, cheia de orgulho, a vó Ditinha. *Maykon William Florêncio é aluno da Universidade de Taubaté