Relatório político do painel da ONU sobre clima não citará Amazônia

Andrei Netto, PARIS - O Estado de S.Paulo

Floresta fica fora do texto de amanhã para evitar alusão ao Brasil como responsável direto por destruição ambiental

O impacto do aquecimento global sobre a Amazônia não constará do relatório-síntese que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) vai apresentar amanhã, em Valência, na Espanha. O texto vem sendo apreciado desde segunda-feira por cientistas do painel e por 130 delegações nacionais, que exercem um forte contrapeso político nas discussões. Ao não citar a maior floresta natural do mundo no texto, as delegações tentam evitar a alusão ao Brasil como um responsável direto pela destruição ambiental e pelo aquecimento do planeta. O relatório-síntese que vem sendo preparado na Espanha é o resumo dos três sumários elaborados em fevereiro, abril e maio, em Paris, Bruxelas e Bangcoc. A repercussão pública internacional desses documentos levou o IPCC a receber o Prêmio Nobel da Paz 2007, ao lado do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore. Mesmo com alta credibilidade científica, no entanto, o painel é marcado pelo jogo de pressões políticas, no qual cada país tenta minimizar a destruição ambiental em curso em suas fronteiras. É esse ponto que explica a supressão do termo Amazônia. A eventual referência ao desflorestamento e à savanização da floresta amazônica, quase integralmente situada no Brasil, poderia ser tomada como crítica direta ao governo brasileiro. E o IPCC não faz ponderações políticas em seus relatórios. "A citação à Amazônia não consta do esboço em discussão em Valência", confirmou ao Estado Thelma Krug, membro do conselho do IPCC e secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente do Brasil, que participou da elaboração dos textos anteriores e recebeu o esboço do atual relatório. "Singularizar a Amazônia seria implicar o Brasil e abriria espaço para a conotação de que só a Amazônia tem importância no processo de aquecimento global." Para os delegados governamentais, mencionar a floresta brasileira é diferente de citar o derretimento das calotas polares do Ártico, a fragilidade das ilhas, as chances de tempestades na Ásia ou a superexposição da África, referências mais genéricas, sem implicações nacionais - e que ainda podem constar do texto de amanhã. "Não ser prescritivo do ponto de vista político é uma das obrigações do painel. O IPCC precisa ser neutro", disse Thelma. "A referência até poderia constar, mas só se o relatório fosse específico ao citar as vulnerabilidades regionais ao aquecimento global, mas não será o caso." SUPERFICIALIDADE A supressão dos dados regionais de destruição ambiental pode tornar o relatório mais superficial, um problema também verificado no texto de Bangcoc. O documento de amanhã deve ser a base das discussões da Convenção Mundial do Clima, que será realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em Bali, na Indonésia, em dezembro. Nos três primeiros relatórios do painel, apenas no texto do Grupo de Trabalho II, sobre impacto regional do aquecimento global, a referência à Amazônia foi feita.