Relatório do clima sai em seis dias

Cristina Amorim - O Estado de S.Paulo

Resumo definido por cientistas e diplomatas trará dados sobre alterações provocadas pelo aquecimento global

Cientistas e representantes de 140 países sentarão na mesma sala, a partir de amanhã, em Valência, na Espanha, para montar o documento-referência usado nos próximos anos em qualquer debate sobre o clima. O resultado será divulgado no próximo sábado: a síntese do último relatório assinado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), com dados sobre o aquecimento global e a responsabilidade do homem nesse processo. Esse será o resumo de um documento científico com mais de 2.000 páginas. Ele vai compilar o que já foi apresentado em três volumes pelo IPCC, órgão ligado às Nações Unidas, no primeiro semestre deste ano. A versão feita para os "fazedores de política" (policymakers, em inglês), em cerca de 30 páginas e com uma linguagem compreensível por políticos e burocratas, será a mais discutida. Uma vez que os dados científicos foram consolidados, já são conhecidos e foram discutidos, é nesse texto que os delegados tentarão minimizar ou maximizar determinada informação. "Imagine uma biblioteca cheia de livros. Quando você coloca uma bola vermelha em um deles, chama atenção. Nesse jogo, alguns países querem colocar bolas vermelhas em algumas partes do relatório, enquanto outros, não", afirma Karen Suassuna, técnica em Mudanças Climáticas da ONG WWF-Brasil. "Ele terá implicações políticas e econômicas." O Relatório-Síntese do Quarto Relatório de Avaliação indicará, por exemplo, que o homem tem responsabilidade pelo agravamento do efeito estufa. Também mostrará que o aquecimento pode ter um impacto negativo nos recursos naturais e no sistema climático, e que os mais pobres serão os mais afetados. Eventos extremos como tempestades, secas e furacões, em certas partes do globo, podem piorar, diz o IPCC. De 20% a 30% das espécies de flora e fauna correm risco de extinção. A forma que essas informações serão expostas só sairá em seis dias. IMPACTO POLÍTICO "Temos de nos assegurar de que o documento seja fiel aos relatórios já divulgados", explica a brasileira Thelma Krug, coordenadora do conselho do IPCC responsável pelo trabalho em Valência e também secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente. "Vamos discutir parágrafo por parágrafo." De acordo com um dos coordenadores do relatório sobre mitigação, o holandês Bert Metz, o documento "integra todos os elementos e as conexões entre eles". Apesar de o IPCC ter sido criado em 1988 para avaliar a ciência do aquecimento global, o trabalho recebeu atenção especial neste ano. O grau de incerteza diminuiu em relação aos relatórios anteriores, então as informações ganharam peso entre os países. Além disso, o documentário Uma Verdade Inconveniente, do ex-vice-presidente americano Al Gore, que trata da crise climática, foi sucesso de público e crítica. O IPCC e Al Gore dividem o Prêmio Nobel da Paz de 2007. O relatório-síntese será um dos mais usados pelos participantes da 13ª Conferências das Partes da Convenção de Mudanças Climáticas da ONU, que acontece em dezembro em Bali. Ali serão discutidos os mecanismos que substituirão o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. "Há um consenso crescente de que Bali precisa colocar as negociações em curso, o que é muito encorajador", diz Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção do Clima da ONU. "Mas não será fácil."