Rede monitora alta do nível do mar

Carolina Stanisci - O Estado de S.Paulo

Brasil investe na pesquisa em dez áreas com o objetivo de avaliar impactos do aquecimento global

O Brasil dará no próximo mês o primeiro passo para criar uma série histórica e inédita sobre a elevação do nível do mar em todo o litoral. A consolidação dos dados será possível com a formação da Rede Clima, que une pesquisadores para investigar o impacto das mudanças climáticas em áreas consideradas estratégicas, como agricultura e zonas costeiras. Para discutir a dimensão da elevação do nível das águas no País, 40 cientistas vão se reunir em Rio Grande (RS), entre os dias 13 e 16 de setembro.O método de pesquisa em rede ganhou relevância após a divulgação do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ao tratar do aquecimento global, em 2007. Com a proximidade do encontro das Nações Unidas (ONU) sobre o clima em Copenhague, em dezembro, os pesquisadores têm intensificado os estudos. "É preciso construir um novo conhecimento", diz o climatologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).Membro do painel sobre mudanças climáticas na ONU, ele coordena as duas iniciativas do governo para enfrentar o desafio: a Rede Clima e o Instituto Nacional para Mudanças Climáticas. Foram quase R$ 20 milhões de investimento. A rede, criada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em 2007, recebeu no ano passado R$ 10 milhões por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Nela, 150 pesquisadores de 40 instituições brasileiras estão interligados virtualmente. Os pesquisadores estão divididos em dez áreas - agricultura, saúde, zonas costeiras, biodiversidade e ecossistemas, recursos hídricos, energias renováveis, cidades, economia, desenvolvimento regional e modelagem das mudanças climáticas.Cada nó desse emaranhado virtual é chefiado por uma instituição. É o caso da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que coordena outras 15 instituições da sub-rede de agricultura. Segundo o pesquisador Eduardo Assad, os cenários climáticos são do Inpe e eles fazem a simulação do que pode ocorrer com culturas de milho, café, soja, cana-de-açúcar e outras quando há aumento da temperatura. As projeções dão ideia de como as culturas vão reagir com a possível alta de até 2°C, limite máximo de aquecimento em relação à era pré-industrial que os países do G-8, em reunião na Itália, neste ano, acordaram como meta. Na Universidade Federal de Viçosa (MG), oito pesquisadores e 30 estudantes vão além da simulação. Há dois anos, eles investigam o impacto do aquecimento no plantio de milho e feijão. O experimento consiste em aumentar a concentração de gás carbônico e a temperatura das culturas. "Elas gostaram do gás carbônico, mas não da temperatura aumentada", diz Luiz Cláudio Costa, reitor da universidade. NO MARO diretor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), Carlos Garcia, destaca a gravidade da questão. "O planeta está aquecendo e há excesso de energia. Cerca de 80% dessa energia fica retida nos oceanos, causando a expansão da água."Coordenador da sub-rede das zonas costeiras, ele crê que a reunião de setembro dará subsídio para avaliação de componentes afetados pelo aumento do nível do mar, como as regiões de manguezais. O objetivo da pesquisa é obter informações para que cidades vulneráveis enfrentem o problema. "Tudo é afetado pelas mudanças climáticas", conclui Nobre.Por isso profissionais de quase todas as áreas do conhecimento caíram nas redes. É o caso da saúde. Há quem aponte que doenças cujo transmissor seja o mosquito registrarão expansão de casos. Não é o que pensa o geógrafo Christovam Barcellos, do Centro de Informação Científica e Tecnológica e integrante da Rede Clima ao lado de outros dez pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). "Dizer que dengue e malária vão aumentar com o aquecimento global é especulação", afirma. Para ele, a dengue pode até se espalhar pois o mosquito está mais "urbanizado". Mas no caso da malária, Barcellos refuta a generalização. "Se o clima está mudando, a paisagem na Amazônia, onde está o mosquito da malária, também vai mudar", afirma, concluindo que não é possível saber como o transmissor da doença continuará na região.A Fiocruz prepara um observatório com dados sobre saúde e mudanças climáticas. O material ficará online e terá acesso diferenciado para pesquisadores e público em geral. O projeto-piloto está previsto para novembro.