Receita chinesa

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Diante de um cenário de incertezas, o consultor e headhunter Robert Wong ensina a sobreviver na profissão

Para o headhunter Robert Wong, a crise econômica mundial está aquém da "marolinha" citada pelo presidente Lula. Na verdade, o sócio-presidente da Robert Wong Consultores, empresa de consultoria executiva e coaching, enxerga de outra forma a volatilidade do momento. É a hora de criar oportunidades. Em vez de se deixar paralisar pelo medo, o melhor é partir para a ação, assumindo uma atitude positiva.

Wong costuma repetir, no auge dos seus 61 anos: "Existe uma pequena diferença entre as pessoas: chama-se atitude. E essa pequena diferença faz uma grande diferença, se ela é positiva ou negativa." Seu livro O Sucesso Está no Equilíbrio (Editora Campus) caminha para a 13ª edição.

Wong lançou ainda o livro de bolso Superdicas para Conquistar um Ótimo Emprego (Editora Saraiva), que vai também de vento em popa, ainda mais nesses tempos bicudos. Suas palestras e workshops costumam ter mais procura do que o número de vagas disponível.

Ainda, Wong foi considerado pela revista The Economist um dos mais destacados headhunters do mundo. Seu diferencial é o genuíno interesse por pessoas e o talento para descobrir qualidades nos candidatos (desconhecidas até por eles próprios). Assim, identificou um outro dom: o de instigar a transformação pessoal e, especialmente, a profissional.

Como o senhor enxerga a crise global?

"Perigo" em chinês deriva-se da palavra "crise", que por sua vez liga-se a "oportunidade". Onde há perigo, portanto, existe também uma crise e, consequentemente, oportunidade. Já no grego, a palavra "crise" significa "momento decisivo", ou seja, ação ou faculdade de distinguir, tomada de decisão. Portanto, a crise econômica atual, que tanto tem deixado as pessoas inseguras, pode sim ser vista como um momento para reavaliar a vida pessoal e profissional, aproveitando para realizar mudanças positivas.

Mas como encarar positivamente o fato de as empresas estarem

demitindo para reduzir gastos com pessoal?

Todos nós passamos por crises a vida toda, algumas maiores, outras menores. Vão desde questionamentos cotidianos, tais como "casar ou não casar", "mudar ou não de emprego", aos mais complexos, que envolvem mudanças radicais na vida. Nesses momentos decisivos, às vezes se acerta; outras vezes, não. Portanto, as pessoas não deveriam se deixar intimidar por esse momento econômico mundial, em que há cortes nas empresas, pois essa é mais uma crise que faz parte do ciclo natural da humanidade. Quem entende isso não se apavora.

Perder o emprego tem sido a grande preocupação atual. Como lidar com isso?

Existem dois tipos de crise, a externa e a interna. A primeira é de fora da essência e foge do nosso controle direto, como a conjuntura econômica atual. Já a interna está no nosso âmago, na nossa mente, e é a que faz mais mal, por ser gerada pelo medo, o que acaba nos paralisando. No entanto, cerca de 90% dos nossos medos são irreais e imaginários, e nos tornam reféns de nós mesmos. Muito diferente do medo real, quando o ladrão nos ameaça com um revólver, por exemplo. Portanto, ao deixarmos que o medo virtual paute nossas vidas, ficamos sem ação e viramos presas fáceis de nossos algozes.

Os medos imaginários afetam o trabalho de que maneira?

Quando a pessoa passa a imaginar, sem nenhum motivo concreto, por exemplo, que o chefe não está de cara boa porque ela fez algo errado. Ou, ainda, que a empresa vai demitir, como outras estão fazendo por conta da crise, mas sem haver nenhum comunicado oficial. Fantasias como essas, entre muitas outras, fazem surgir crises internas virtuais que paralisam a ação, o desempenho. E se o medo dominar e paralisar, a energia vital fica desequilibrada, afetando a capacidade de reação. Como um animal acuado, há chance de a reação ser irracional, e a pessoa não medir as consequências. Por isso que, diante da ameaça de demissão, o ideal é avaliar com calma a situação. Veja se é uma ameaça concreta ou irreal, para só então pensar nas atitudes que deve tomar.

Embora muitos dos medos sejam frutos da imaginação, há problemas reais que afetam a vida pessoal e profissional. O que fazer então?

A priori, não existem problemas, mas sim desafios: o câmbio do dólar, os juros, as ordens do chefe, uma doença na família, etc. O que importa é a postura da pessoa diante desses desafios. Se adotar uma atitude positiva, há grande chance de torná-los uma oportunidade. Do contrário, ao agir de uma forma negativa, aí sim, cria a dificuldade. A diferença, portanto, está na atitude. O desafio não se controla, a atitude sim.

Você consegue ter atitudes positivas durante um período recessivo, sendo dono de uma empresa que, conforme a regra do mercado capitalista, está sempre voltada para o lucro?

Estive em uma reunião com 12 presidentes de empresas. Todos estavam sentados à mesa, cada um comentando sobre os cortes no quadro de empregados, as férias coletivas, entre outras mudanças decorrentes da atual crise econômica. Todos falavam a mesma coisa. Em um dado momento, disse que não tinha visto nada de novo nas atitudes deles. Então perguntaram como eu estava lidando com tudo. Respondi que havia parado de vender. Diante da cara de surpresa deles, expliquei que, em vez de vender, agora estava fazendo as pessoas comprarem mais, investindo no escritório, contratando mais gente, produzindo mais eventos. Ou seja, ao contrário deles, encaro esse período com atitudes positivas. No entanto, isso não significa fazer loucuras, mas sim implantar resoluções equilibradas e planejadas.

A postura é, portanto, o grande divisor de águas?

Sim, pois é o que norteia a vida pessoal e profissional. Note a diferença, por exemplo, na motivação das pessoas para realizarem as tarefas. Algumas fazem seu trabalho por obrigação e necessidade, assumindo uma postura reativa. É o "tenho de fazer". Outras, por medo e insegurança, seguem o pensamento do "não posso deixar de fazer". Simplesmente aceitam fazer. Mas há quem assuma uma postura proativa, ou seja, realiza suas atividades com satisfação, porque gosta do que faz. Sem dúvida, quem age assim obtém resultados melhores e, consequentemente, destaca-se mais. Melhor ainda seria acrescentar a isso o amor ao que se faz no dia a dia profissional.

Além da atitude, como se fortalecer no mundo corporativo?

O fator preponderante, que também faz muita diferença para o sucesso profissional e pessoal, é a autoconfiança. Para alcançá-la, é preciso ter autoconhecimento. Quanto mais a pessoa se conhece, mais confia nela mesma e, quanto mais confia nela, mais quer se conhecer. Isso leva ao círculo virtuoso do crescimento e evolução, para se atingir o potencial pleno. Afinal, como alguém pode gerenciar uma equipe se não sabe quem é? Na minha opinião, esses são os conhecimentos mais importantes em uma carreira.

Como estimular o autoconhecimento?

Costumo sugerir que se responda algumas perguntas. Mas para se "des-cobrir" é fundamental tirar todas as cobertas, sejam elas crenças, dogmas, imagens, medos, culpas, inverdades, sendo franco consigo mesmo ao procurar as respostas para os seguintes questionamentos: quais são meus pontos fortes e fracos? O que eu gosto e o que não gosto de fazer? Qual o grande diferencial que tenho para oferecer ao mercado? Quais são meus valores? O que eu aprecio e não aprecio em mim? E nos outros? Quem são as pessoas que admiro? Em quais situações agi ou ajo reativamente e proativamente?

Quem perdeu o emprego deve adotar que postura para voltar ao mercado de trabalho?

Quem está atrás de uma recolocação profissional, seja porque perdeu o emprego ou porque pretende mudar, precisa ter estratégia para garantir êxito. Essa estratégia pode ser resumida em uma sigla que chamo de I.D.A.S. A letra "I" vem de intenção, que é a manifestação do desejo, da vontade de realizar algo. O "D" é a decisão de levar firmemente seu projeto ou objetivo adiante, porém, estipulando prazos para não divagar. A letra "A" é a ação para fazer acontecer e transformar o sonho em realidade. E, finalmente, o "S" é de sustentação, ou seja, a necessidade de manter o compromisso consigo mesmo, com persistência e força de vontade para prosseguir nessa caminhada, mesmo que surjam dificuldades e a pessoa se depare com alguns fracassos durante o percurso profissional.