Quem tem medo do hipertexto?

Enrique Gil Calvo* - O Estado de S.Paulo

Quando sonha que é engolida pelo avanço irresistível da internet, a Galáxia de Gutenberg põe-se a tremer. E seu pesadelo lembra a história de Chapeuzinho Vermelho, pois quem é devorado não são as empresas editoriais, cujas sucursais eletrônicas fazem o papel de caçadores mercenários vendidos ao lobo mau, e sim os jovens com mente pura, que se deixam seduzir pelos terríveis perigos à espreita no bosque digital: pedofilia, pornografia, manipulação etc. De fato, a educação sentimental dos menores da e-geração é guiada pelo influxo da leitura digital, e não mais pelo espírito da leitura impressa, como acontecia, segundo se acredita, com as gerações anteriores. E as previsões são de que esta mudança educativa terá conseqüências decisivas - venturosas para os panglossianos que exaltam as virtudes mágicas do digitalismo, desastrosas para os agourentos que denunciam seus vícios perversos. Tecnófilos e tecnófobos, embora interpretem a mudança do suporte de leitura como providencial ou então catastrófica, coincidem em atribuir-lhe uma importância desmedida, sem perceber que estamos diante de um velho fenômeno com roupagens novas. Os defensores do digitalismo atribuem virtudes ao hipertexto: o espaço virtual é mais complexo do que o texto impresso, pois todas as páginas digitais são conectadas por links que as remetem a outras páginas derivadas, até formar um labirinto multinível como o borgiano jardim de caminhos que se bifurcam. O hipertexto também permite que se leia e escreva ao mesmo tempo, conectando-nos em tempo real a uma conversação plural, reescrita instantaneamente pela ação espontânea de voluntários múltiplos. Assim se abre o acesso coletivo a um discurso emergente com forma de diálogo polifônico que une a dupla virtualidade da oralidade e da escrita e no qual desaparece a separação assimétrica entre autor e leitor, permitindo que todos interajam em pé de igualdade. O processo democratiza a república das letras, que deixa de ser uma oligarquia platônica de sábios autores para se transformar numa sociedade aberta de leitores-escritores. CRIAÇÃO DE HÁBITOS Diante disso, os detratores do digitalismo atacam o hipertexto com o argumento de que ele impede as pessoas de aprender a pensar com a mesma eficácia permitida pela escrita tradicional. É possível que a leitura digital seja superior à impressa na capacidade de informação, mas a leitura impressa é muito superior à digital na capacidade de formação, já que, para se aprender a pensar, são necessários textos lineares escritos por autores consagrados. Aprende-se a pensar lendo relatos de fatos consecutivos, cuja linha argumentativa esteja logicamente encadeada por sucessões de causa e efeito. É algo que o hipertexto não permite, pois suas unidades estão interconectadas aleatoriamente, carecendo de estrutura lógica. E de autores revestidos de autoridade universal, para que se aprenda com eles a avaliar a realidade, rechaçando o vale-tudo relativista do hipertexto arbitrário, cuja única hierarquia é a classificação quantitativa. Mas este modelo canônico de leitura linear é uma caricatura improvável da leitura efetiva, pois na realidade ninguém lê assim. Lembrem-se do livro Como um romance, de Daniel Pennac, que revela o processo real de aquisição do hábito de leitura, incluindo seu decálogo de direitos: de folhear, de reler e de não ler, de saltar páginas, de não terminar o livro, de ler qualquer coisa e em qualquer lugar. Não se aprende a ler linearmente e do princípio ao fim, mas apenas de modo fragmentado e casual, começando os livros pelo meio, passando de um a outro e lendo o final antes do início. Ninguém respeita o santoral do cânon autorizado, pois os autores malditos ou genéricos misturam-se aos consagrados. Isso é o mesmo que se faz com a leitura digital, navegando através do hipertexto das páginas virtuais, com passos para a frente e para trás. Não há nada de novo sob o Sol: é a mesma velha leitura, mas lida em vistosas roupagens virtuais de brilhante feitio digital. É possível estabelecer uma fertilização cruzada entre o hipertexto impresso e o digital, colonizando como depredadores oportunistas um hipertexto misto, que se saqueia com gosto a fim de saciar a avidez do leitor. E essas leituras cruzadas combinam-se de forma complexa na memória do leitor digital e impresso, até que ele aprende a pensar espontaneamente a partir de sua dispersa experiência de leitura. A nova leitura digital é a continuação, por outros meios, da velha leitura impressa. É o que mostram os índices de leitura, pois são os mesmos jovens escolarizados que lideram tanto a leitura impressa quanto a digital. Não é estranho, portanto, que a velha indústria editorial entre na área de seu suposto inimigo digital, buscando expandir-se por seu território aberto a fim de colonizá-lo em proveito próprio. ENIGMA E INCERTEZA Mas por que os jovens mudam de suporte de leitura, passando de um a outro sem parar? Eles buscam hoje, nas páginas digitais, a realização de promessas que as páginas impressas não sabem mais oferecer. Entre elas destaca-se a promessa de inovação e criatividade, muito importante para os jovens. Há também a promessa de identidade e reconhecimento, pois na rede estão virtuais irmandades. A mais atraente, contudo, é a promessa de mistério, segredo e periculosidade. Quando digo ''''mistério'''', refiro-me ao clima enigmático de risco, incerteza e expectativa. Isso está acessível na rede, um arquipélago labiríntico cheio de ilhas misteriosas onde a aventura aguarda em cada esquina. Quando digo ''''segredo'''', aludo ao clima sombrio de simulação e clandestinidade que permite que as pessoas se escondam atrás de identidades anônimas para levar uma vida dupla contando com a cumplicidade fraterna. É o que Daniel Pennac chama de bovarismo na literatura: o mórbido estigma de pecado e culpa coletivos compartilhado com os demais membros da sociedade secreta de leitores adictos, na qual se ingressa com o vício da leitura. Esse bovarismo literário agora está amplificado graças à rede, transmissora de virulentas epidemias de bovarismo virtual e povoada por multidões de seitas que garantem a cumplicidade fraterna dos adictos de seu culto secreto. E, ao dizer ''''perigo'''', aponto para o clima insalubre de transgressão e perversidade à espera de quem se introduz nos paraísos artificiais moralmente duvidosos prometidos pelas páginas digitais. Baudelaire elegeu as flores do mal como símbolo da poética moderna, um legado maldito que o surrealismo herdaria mais tarde para fazer do cadáver esquisito e do disparo indiscriminado contra a multidão a máxima expressão estética. É possível dizer o mesmo da poética digital, que faz da aura maldita e transgressora sua espinha dorsal, criando uma busca mórbida pelo freaky que atrai poderosamente a juventude. É algo que deveria preocupar os detratores do digitalismo que advertem para os supostos efeitos perversos do hipertexto mau, pois quanto mais perigoso e transgressor ele parecer, mais atraente será para os jovens. Pouco importa se o material é velho ou novo, contanto que a leitura agarre leitores e cumpra a função embriagadora e espirituosa que lhe é característica. *É professor de Sociologia da Universidade Complutense de Madri. O artigo foi publicado originalmente no El País