Quatro refeições

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

Imagine quatro refeições: uma industrializada, hambúrguer e refrigerante; outra preparada com produtos "orgânicos" comprados em supermercados; uma terceira produzida a partir de produtos de uma fazenda que pratica a agricultura sustentável e, finalmente, uma preparada com ingredientes coletados diretamente nos ecossistemas naturais, carne de caça e cogumelos selvagens. Durante cinco anos, Michael Pollan viveu as atividades envolvidas na produção e obtenção dos ingredientes para cada essas refeições. O resultado é contado num livro em que virtudes, problemas e implicações éticas de cada uma dessas maneiras de nos alimentar são discutidos em detalhe. O hambúrguer e o refrigerante têm sua origem nas plantações intensivas de milho no meio-oeste americano, em fazendas de alta produtividade, fábricas altamente tecnificadas que utilizam grande quantidade de insumos químicos e tecnologia e são provavelmente os locais onde mais calorias são produzidas por metro quadrado no planeta. Se, por um lado, são eficientes, falar em biodiversidade num ambiente onde o fazendeiro tem que ir ao supermercado para comprar um pé de alface é piada. Pollan segue o milho das fazendas até as processadoras onde a ração animal e o açúcar que vai adoçar os refrigerantes são produzidos. A ração acaba no cocho de centros de engorda de bovinos ou em fazendas intensivas de criação de frangos onde animais são tratados com máquinas capazes de transformar milho em carne. O resultado é uma alimentação pouco saudável, barata e com altos custos ambientais, mas capaz de alimentar um grande número de seres humanos. Depois da leitura fica difícil apreciar um bom hambúrguer. Em seguida vem a refeição "orgânica" com ingredientes produzidos em larga escala. Pollan descreve as modificações para transformar as pequenas propriedades "orgânicas" na enorme indústria de alimentos naturais que vem crescendo continuamente nos EUA. É impressionante quão diferente do que imaginamos quando compramos no supermercado é a produção desses alimentos. A descrição das fazendas de frangos "orgânicos" é quase tão educativa quanto o cálculo da quantidade de petróleo queimado e gás carbônico emitido para garantir que um consumidor "consciente" em Nova York possa comer aspargos "orgânicos" frescos produzidos na Argentina. O capítulo sobre o trabalho em uma fazenda radicalmente "correta" é o mais interessante, pois demonstra como o método de produção pode ser integrado, da manutenção de pastagens diversificadas até a preservação da fertilidade do solo. Fica claro como é possível tratar eticamente os animais e produzir refeições que não impactam o meio ambiente. O problema é o custo final e a impossibilidade de aumentar a escala de produção para atender grandes cidades e a enorme população do planeta. O último capítulo nos leva de volta ao nosso modo de vida pré-agricultura, de caçadores e coletores de alimento. O esforço para preparar uma refeição é enorme, mas recompensado por uma total integração entre o consumidor e a vida dos nossos alimentos. O livro The omnivorous dilemma. A natural history in four meals, Penguin Books, 2007, já pode ser encontrado em português. * Biólogo (fernando@reinach.com)