Quando se canta, todo mundo bole

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

Elas vestem a camisa e vão para a avenida oferecer o amor incondicional ao samba e às suas comunidades

Tem gente que diz que morre pelo samba. Outros morrem sem nunca terem dito isso. Há quem inspire eternas canções. Assim como há quem não desista da tradição carnavalesca, mesmo depois de ter passado pelo trauma de ver um ente querido dar a vida, literalmente, por essa paixão.

 

Tudo é tão grandioso que comandantes das agremiações até se esquecem de que são - ou deveriam ser - rivais. "A Solange (presidente da Mocidade Alegre) já me emprestou até uma escultura", orgulha-se a dona Guga, como é conhecida a presidente da Morro da Casa Verde.

 

Energia é o que não falta a essas mulheres. Elas cresceram junto com suas escolas de samba, estiveram à frente da bateria, dos carros alegóricos e, agora, representam toda a comunidade, seja pelo posto que ocupam ou pela história construída ao longo de suas vidas.

 

 

A SAMBISTA DO PRÍNCIPE

 

É ela a bela e formosa negra que, em 1978, fez o desajeitado príncipe Charles sambar (ou, ao menos, tentar), no Palácio de Buckingham, na Inglaterra. O engraçado é que Pinah Ayoub só se deu conta de quem era o tal aspirante a sambista quando, no dia seguinte, o viu estampado nos jornais do mundo inteiro. Pinah tornou-se uma referência carnavalesca, que, por muitos anos, embelezou a avenida por onde passou desfilando como destaque da sua amada Beija-Flor.

 

Anos mais tarde, teve a honra de ouvir seu nome no enredo da sua escola do coração, e de muitas outras, famosas e desconhecidas, que também lhe prestaram tal homenagem.

 

Mineira, embora todos acreditem que ela seja carioca nata, Pinah vive em São Paulo há 30 anos (e não diz sua idade por nada!), mas não desfila na cidade onde é sócia do marido em uma das maiores lojas de artigos carnavalescos do Brasil, o Palácio das Plumas.

 

"Não conseguiria desfilar em todas", admite Pinah, que prefere não privilegiar uma agremiação, para não criar saia-justa com sua fiel clientela. Coisas de quem tem etiqueta e faz jus ao título de cinderela negra.

 

 

FILHA DE PEIXE

 

 

Ela já foi porta-bandeira, diretora de ala, coordenadora de comissão de frente, destaque de carro alegórico, destaque de chão, coordenadora de destaque, diretora de carnaval, vice-presidente e, há seis anos, chegou à presidência da Rosas de Ouro. Pisou lá 38 anos atrás, quando foi fundada, e nunca mais saiu.

 

Formada em Administração, Angelina Basílio levou para a escola o que trouxe da faculdade. "Por isso que é considerada a mais organizada do Brasil", orgulha-se. "Mas tem de ter muito amor também", completa.

 

Ela ocupou o lugar do falecido pai e teve de trabalhar o triplo para mostrar sua competência. "Ele era um visionário, foi difícil substituí-lo. Mas assumi porque tinha qualificação."

 

Diz que o machismo existe sim, pois os homens não gostam de receber ordem de mulher. Porém, escolher mulheres para os cargos de comando não a colocou em nenhuma saia-justa, pois o próprio pai já dava preferência a nomes femininos quando se tratava do comando de algumas diretorias.

 

Divorciada, ela diz que é casada com a escola. Está há sete anos sem férias e mal sabe como aguenta. Talvez porque faça acupuntura, caminhadas e cuide da espiritualidade. Considera-se perua. Usa roupas bem coloridas, pois acredita que, assim, transmite sua alegria.

 

 

 

TIMBRE DE SAMBISTA

 

 

Há mais de 20 anos, Samantha Renata dos Santos, no auge dos 50, canta na noite. Mas foi durante uma apresentação diurna de samba de roda que o presidente da Águias de Ouro, escola pela qual tinha uma paixão platônica, encantou-se com sua cantoria. O convite para fazer parte da comunidade veio na sequência. E assim, quase sem querer, ela se tornou a intérprete da escola. Aos 10 anos, já gostava de cantar samba. "Mas meu irmão, que é cantor, pedia para eu cantar Michael Jackson. Eu não gostava. Queria era sambar", conta, segurando uma gargalhada. Ela nunca teve aula de música. Estudou por conta própria. E se formou em Direito.

 

"Trabalhei muito. Mas parei para me dedicar à música."E quando seu namorado lhe pediu para abandonar o samba, o largou na "porta da rua." "Não deixo a escola por nada. Lutei muito para entrar", emenda. Valeu a pena. Pois Samantha consagrou-se como a primeira mulher intérprete da Águias de Ouro.

 

No começo, ouviu algumas críticas. "Mas para ser bom, temos de passar por coisas ruins, que chamo de experiência", filosofa.

 

"Conquistei meu lugar sem me magoar nem humilhar ninguém", completa.

 

Quando está sozinha em casa, gosta de ouvir, por incrível que pareça, música caipira e moda de viola. "É para limpar a mente", explica. Também gosta de Beethoven e Luciano Pavarotti.

 

 

 

NEM CHORO NEM VELA

 

 

Dona Guga - como é conhecida a presidente da escola Morro da Casa Verde, de 64 anos, casada há 45, mãe de sete filhos que colocou no mundo e de outros sete que adotou - herdou dos avós a paixão pelo samba. Laurinete Nazaré da Silva Campos tinha apenas 2 anos quando desfilou pela primeira vez na então Ritmo do Morro, que anos mais tarde passou a se chamar Unidos do Peruche.

 

Foi rainha de bateria, tocou surdo e até usou lata de lixo "encontrada pela rua" para fazer instrumentos. Em 1962, seu pai fundou a Morro, mas, em 1985, separou-se da sua mãe e saiu da escola. A partir daí, Dona Guga assumiu o comando. "É uma luta. A gente ri, chora, sofre. A verba é pouca para apresentar o que a gente quer."

 

A família é tão envolvida que nenhuma tragédia foi capaz de mudar o astral. A primeira foi há 22 anos, quando sua mãe saiu de casa para ver o carro abre-alas. Voltou extasiada com a beleza. Dois dias depois, faleceu. "O médico disse que foi emoção", recorda-se. "Desfilamos de luto."

 

A segunda foi protagonizada por um de seus filhos, que tinha 28 anos. Ele passou mal com problema de pressão e logo foi levado ao hospital. No dia seguinte, teve uma parada cardíaca e não resistiu. Mais uma vez, era semana de carnaval.

 

A sina da família não a assusta e ela ainda diz que seu maior prazer seria morrer "na avenida". "Iria contente. E não quero choro. Quero uma sandália verde e rosa."

 

 

SUBIDA TRIUNFAL

 

 

Ela faz o tipo mandona, mas no fundo é um doce. "Sou pulso firme, mas tenho coração mole", arremata a presidente da Mocidade Alegre, Solange Cruz Bichara Rezende. Frequenta a escola, fundada pelo pai e dois tios, desde que estava na barriga da mãe. "São 42 anos de gestão familiar", destaca.

 

Começou na ala das miudinhas, passou para destaque de ala, diretora de eventos, mestre de cerimônia, vice-presidente e assumiu a presidência quando a irmã faleceu, em 2004. A escola mantinha-se na fila de derrotadas há 23 anos. Até que consagrou-se campeã no mesmo ano em que Solange chegou à presidência. Desde então, a Mocidade se mantém no topo. Foi três vezes campeã, duas vice, e duas terceira colocada. "O mérito não é só meu. Tenho uma equipe forte e dedicada."

 

No ano passado, quando a Mocidade foi campeã, seu tio acompanhava a votação pela TV, na quadra da escola. Quando viu o resultado, teve um enfarte e morreu. O pai e a irmã também morreram na época do carnaval. E do coração, também.

 

Quando fala sobre a infância, sua maior e melhor recordação é a imagem de um membro da escola, o "Seu" Beto, correndo para avisar que o juizado estava chegando. "Nessa hora, a gente se escondia debaixo das saias das baianas", lembra, com nostalgia. "Dá saudade. Tudo se profissionalizou tanto que há muita cobrança hoje. Mas continua sendo gratificante", admite Solange.