Quando os filhos crescem

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

De um dia para o outro, o bebê tem 1,80 m e se tranca no quarto, preferindo o computador à sua companhia

O garoto ou garota só quer saber de baladas, vai mal na escola, passa horas no computador, pinta o cabelo de verde. Mudanças no comportamento dos filhos adolescentes deixam as mães de cabelo em pé . Será só uma fase? A dramaturga e pedagoga Leilah Assumpção garante que passa.

Leilah sentiu na pele as tais transformações hormonais. Mãe de Camila, hoje com 27 anos, ela só se comunicava com a filha adolescente por bilhetes, que renderam o livro Na Palma da Minha Mão, lançado em 1998 - um mosaico de desabafos, dicas, diário, histórias de família e amigos. Segundo Leilah, Camila foi uma criança feliz até chegar à adolescência:

- Dos 12 aos 16 anos, nenhuma tentativa de comunicação dava certo. A qualquer pergunta, só recebia cortadas, como "desencana, mãe", "se liga". À noite, passava no quarto dela para ver se estava tudo bem, dizia: "Deus te abençoe" e, em vez de amém, a resposta era "tá bom", "não enche o saco". Gostava mais das empregadas do que de mim. Foi assim, com medo de levar porrada, que recorri aos bilhetes. Mesmo assim, ela os ignorava. Guardei todos eles, e escrevi o livro que ficou engavetado por dois anos. Esperei ela amadurecer para mostrar. Quando finalmente leu, aos 16, adorou.

O psiquiatra Içami Tiba tem mais de 2 milhões de livros vendidos. Um deles, Quem Ama, Educa!, de 2002, deu uma sacudida nos pais. Porém, como Tiba pode observar, de lá para cá não colocaram as informações em prática. "Adolescência é um segundo parto, quando os filhos buscam a independência e as mães se perdem, porque o mundo mudou e o passado não mais é referência", fala ele, que nota, nas mães, um descompasso entre a realidade do mundo globalizado e a emoção maternal, que continua a mesma de mil anos atrás.

Para Tiba, as famílias erram superprotegendo os filhos, dando-lhes tudo de mão beijada. O que fazer? Não há receita de bolo, mas trabalho em equipe. "As mães acabam centralizando papéis e assumem a função de pais. E os homens, muitas vezes, acham que basta serem os provedores da casa." Tiba acrescenta:

- Toda família tem de ter uma happy hour diária. Se os encontros familiares forem só no domingo, vira tragic hour. Reserve um tempo diário para conversarem. Mas cuidado para não exagerar e virar amiguinho. Pais não são cúmplices de contravenção.

O adolescente atual, lembra Tiba, não contesta valores, ao contrário de gerações passadas. "Não se ouve algo como ?eu eu não quero mais depender de vocês?. Aos 30 anos, os filhos ainda moram com os pais, que financiam os gastos, cursos de MBA e, com isso, a adolescência vai sendo esticada. Passar a mão na cabeça não é amor. Alguém é promovido na carreira por fazer birra, por um acaso? Recompensa é fruto de esforço."

ATAQUE DE NERVOS

Nem tudo são flores na relação entre mães e filhos adolescentes. Sentadas uma de frente para a outra, com a a repórter no meio, a situação tensa lembrava uma daquelas cenas do filme A Guerra dos Roses. De um lado, a mãe, a cenógrafa de eventos Simone Kauffmann (na foto de capa, ao lado da filha Juliana), de 44 anos, que logo de cara falou das dificuldades de lidar com a adolescência da única filha. De outro, Juliana, de 18 anos, que rebateu à altura, dizendo que a mãe é extremamente preocupada.

"Sabe a Maya, a personagem da novela das oito, que tem de casar com quem os pais querem? É igual", acusa Juliana. A mãe nega e diz que ela é livre para escolher, mas que é natural querer conhecer o namorado. Juliana está namorando há alguns meses com um rapaz de 26 anos. A mãe faz algumas perguntas sobre o moço, mas a garota despista e não abre o jogo. "Ela fica ligando direto para o meu celular", reclama.

Simone comenta que, diferentemente de sua geração, o adolescente é precoce e tem acesso ao mundo fácil. "Meu maior medo são as drogas. A cada dia, surge uma nova, o jovem experimenta e vai ao fundo do poço. A noção de perigo deles é baixa." A filha acha que há controle e preocupação em excesso. Como não estava bem nos estudos, foi para o Canadá fazer intercâmbio. "Adorei a experiência", conta Juliana, que prefere se relacionar com pessoas mais velhas.

ESTILOS OPOSTOS

Gabriele Pomponio, 34 anos, assessora de comunicação da agência de publicidade Giovanni + Craft, tem duas adolescentes em casa, a filha Natassja, de 13 anos, e a enteada Bruna, de 15, com gostos e comportamentos diferentes:

Natassja é amável, organizada, vai bem na escola. Gosta de roupas com brilho, salto, maquiagem. Agora está naquela fase chatinha, retruca tudo, responde, mas é maleável. Já a Bruna, que está no primeiro ano do Ensino Médio, se relaciona melhor com o pai e está tendo dificuldade na escola. Curte Cosplay (grupos de jovens que cultuam animação japonesa) e usa umas roupas esquisitas. Nossa maior preocupação é com a internet: ficamos atentos aos sites que acessam, com medo de assédio.

Natassja admite que se estressa: "A culpa é da TPM. Até minha mãe usa a TPM para gritar!" A TPM anda desacreditada na casa, onde são três mulheres contra um homem. Ela diz que é a única patricinha da família e, se deixarem, torra a mesada com roupas.

Já Bruna admite não ter afinidade com a madrasta, preferindo trocar confidências com a irmã e uma prima. Valoriza o diálogo aberto em casa e diz que o mais chato nessa idade é ouvir "não pode"para coisas que gostaria de fazer mais.

INTERNAUTA

Quando a supervisora administrativa Valéria Teixeira, de 39 anos, ficou grávida de um relacionamento rápido, assumiu sozinha a responsabilidade e teve o apoio incondicional dos pais, com quem mora. "Hoje meu filho Vinícius, de 14 anos, se abre mais com a avó, já que passam bom tempo juntos. Como trabalho o dia todo, nos vemos à noite, quando fazemos academia e conversamos."

Como toda mãe, seu maior medo são drogas e bebida. "O assédio está em toda parte. O jovem só diz não se tiver uma formação sólida em casa." Em tempos de consumismo e facilidades, acha importante fortalecer o lado espiritual, que anda meio esquecido. "Desde os 7 anos ele frequenta comigo uma associação espírita e, hoje, faz parte de um grupo de jovens, que discute temas relacionados a essa fase."

Apesar do 1,80 metro de altura, Vinícius curte games e computador, e não se liga em baladas. "As meninas nessa idade são bem mais atiradas." E por que todo adolescente é um aborrescente? "A maioria dessas revoltas devido a discussões entre pais e filhos e ao estresse do dia a dia. Por exemplo, ninguém gosta de arrumar o quarto ou fazer lição quando chega da escola ou está se divertindo", opina ele.

COMPANHEIRISMO

Tecer um futuro sólido para a filha tem sido o objetivo de Luciane Oliveira Infanti, engenheira, mãe de Laís, de 16 anos. Luciane engravidou aos 17 anos e, quando entrou na faculdade, a filha tinha apenas 1 ano. Conciliar a maternidade com os estudos foi um desafio. "Você queima etapas. Enquanto a turma saía para se divertir, eu voltava correndo para cuidar de um nenê. Os meus colegas a viram crescer."

Ficou casada por 13 anos. Hoje são apenas as duas em casa e, por isso mesmo, a jovem sabe quanto custa prover a família e participa das decisões relativas ao orçamento doméstico. "Planejamos tudo juntas, de viagens à compra do carro. Algumas pessoas dizem que passo muita responsabilidade para ela, mas acredito que é uma forma de educá-la financeiramente e prepará-la para o futuro", fala a mãe.

O relacionamento é tão bom que, às vezes, Luciane precisa brecar as confidências da filha, para não ultrapassar a linha entre os papéis de mãe e de melhor amiga. "Quando ela se apaixonou, confesso que fiquei dividida. Um lado meu estava feliz por ela, mas outro pensava: ?puxa, o meu bebê já virou uma mocinha?. Ela me contou sobre o primeiro beijo, mas quando começou a dar detalhes, pedi para parar."

Laís fala que esses papéis a confundem um pouco. "Chego da escola querendo contar uma coisa para a amiga, mas a mãe entra em cena e me dá uma cortada, pedindo para arrumar o quarto", brinca. Não existe assunto tabu em casa, até pela própria experiência da maternidade precoce de Luciane. Ainda assim, as preocupações estão presentes. "Mesmo com toda informação disponível, o adolescente tem uma arrogância típica, por achar que nada de ruim vai acontecer com ele." De seu lado, Laís diz que aprendeu a ser firme e a falar não, quando algum tipo de situação não lhe convém.

NO CARIBE

A brasileira Cláudia Daher Ponson, de 45 anos e há 20 morando em Aruba, tem três filhos: Mila, de 26, filha do primeiro casamento, Keith, de 14, e Brian, de 11. Casada há 17 anos com um holandês arubiano, testemunha hoje outro estilo de educação na ilha localizada próxima à costa venezuelana, colonizada por holandeses.

O seu marido teve uma educação holandesa e estudou nos Estados Unidos, com costumes bem diferente do Brasil, onde um adolescente fica em casa até o dia de se casar. "Aqui em Aruba os filhos são preparados para viverem fora muito cedo. Quando completam 17, 18 anos têm de estudar nos Estados Unidos ou na Holanda."

Mas rebeldia, por enquanto, nenhuma. "Se os meninos aparecessem de cabelo verde e piercing em casa, muito provavelmente no dia seguinte eu usaria uma peruca verde e uns piercings bem horríveis e me sentaria à mesa, naturalmente. Meus filhos entrariam em choque."