Quando o perigo mora em casa

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

É preciso fazer algumas adaptações no lar e supervisionar as crianças sempre, para evitar acidentes domésticos

O ambiente doméstico transmite uma sensação de segurança. São poucos os que lembram de que existem riscos reais, principalmente para bebês e crianças, no aconchego do lar. Os dados do Ministério da Saúde espantam: a principal causa de morte de crianças de 0 a 14 anos no Brasil são os acidentes, de todos os gêneros. Entre essa população, cerca de 6 mil morrem e 140 mil são hospitalizadas todo ano, configurando uma questão de saúde pública. Não se sabe ao certo o porcentual das ocorrências domésticas, apenas que têm estimativas alarmantes, já que os acidentes de trânsito somam 40%, menos da metade do total. Os meninos, mais impulsivos, costumam se acidentar duas vezes mais frequentemente do que as meninas. A boa notícia é que pelo menos 90% das ocorrências podem ser evitados, mas o Brasil ainda está engatinhando em termos de prevenção. A ONG Criança Segura (www.criancasegura.org.br) tem como missão prevenir acidentes domésticos. Trata-se de uma rede internacional que existe há 20 anos: está no Brasil desde 2001, e tem filiais em 16 países. Nos Estados Unidos, sua atuação reduziu em 45% o número de acidentes no lar. "Hoje, os recordistas em acidentes domésticos são os países em desenvolvimento", informa a coordenadora nacional de Políticas Públicas da ONG Criança Segura, Luiza Batista. O ideal seria que as casas fossem projetadas para as crianças - não apenas para os adultos. Mas como isso ainda não faz parte da realidade, os pais precisam adequar os ambientes domésticos para os pequenos, e estar sempre atentos. "Até os 7 anos, eles não têm nenhuma noção de perigo. O ideal é que, pelo menos até os 12, a criança sempre esteja sob a supervisão de um adulto", comenta Luiza. Entre as principais causas de acidentes domésticos estão as quedas, sufocações ou engasgamentos, queimaduras, envenenamento e intoxicação, acidentes com brinquedos e afogamentos. À última modalidade, todos estão sujeitos, não apenas os que têm piscina em casa. Até 1 ano, 25% do peso do corpo do bebê concentram-se na cabeça. "Bastam três dedos de água para se afogarem. Se ficam com o rosto imerso em um balde, por exemplo, a cabeça pesa muito e não conseguem se levantar sozinhos", destaca Luiza. Por isso, é um risco o adulto deixar o bebê sozinho ao lado da banheira, nem que seja por um minutinho para atender ao telefone. "Quando terminar de lavar a roupa, o adulto deve esvaziar os baldes e deixá-los virados de cabeça para baixo." Para os que têm piscina, é preciso supervisionar as crianças na água, mesmo que saibam nadar. "Boias e brinquedos infláveis não são salva-vidas. Às vezes a criança escorrega, cai e não consegue alcançar esses acessórios", alerta. "Não dá para relaxar perto da água. Tudo acontece muito rapidamente." Mais vulneráveis Durante o primeiro ano da criança, a atenção dos adultos deve ser redobrada. Em primeiro lugar, o ideal é que os pais escolham um berço com padrão certificado, conforme as normas de segurança do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial ) - a grade não pode ter mais do que 6 cm de espaçamento, para evitar que o pequeno enfie a cabecinha. Além disso, o lençol deve estar bem preso ao colchão e o bebê deve dormir, preferencialmente, de barriga para cima - há casos misteriosos de morte súbita quando dormem de bruços. Deve-se evitar ainda cortinados e muitos brinquedos sobre o berço, o que pode causar sufocamento. Se houver um móbile no quarto ou dentro do berço, a corda não deve ultrapassar os 15 cm, pois há risco de a criança puxá-la, enforcando-se. Lembre-se: nessa fase de descoberta do mundo, o bebê quer pegar tudo, levando as coisas à boca. Por isso, fique sempre atento para não deixar pequenos objetos, como brincos ou botões, no chão. Nessa faixa etária, as quedas também podem ser fatais, mesmo que seja um banal tombo da cama. Assim, é necessário nunca deixar o bebê sozinho e manter sempre seu corpo seguro, mesmo enquanto troca fraldas. Entre crianças de 1 a 14 anos, o afogamento é a principal causa de morte. "O ideal é manter cisternas e piscinas tampadas. E impedir o acesso das crianças, usando telas ou portões com travas, para que não consigam abrir." Luiza também recomenda travas para vasos sanitários, ou, uma medida mais radical, manter as portas dos banheiros trancadas por fora. O mesmo vale para a área de serviço. Para as crianças, as tomadas costumam ser dois olhinhos. "Deve-se colocar protetores de tomada, adesivos ou escondê-las atrás de móveis", orienta Luiza. Até os 4 anos, as queimaduras são a segunda maior ocorrência de acidentes. "Para um bebê, um pouco de café quente derramado pode representar uma queimadura séria." Mas, até para os maiorzinhos, a cozinha pode ser zona de perigo. Quando o cabo de uma panela está virado para fora do fogão, a criança pode puxá-lo, sofrendo queimaduras sérias, ainda mais porque o líquido vem de cima para baixo, atingindo-a por inteiro. "A pele das crianças é fina e os órgãos internos estão mais próximos. Por isso, as queimaduras são muito mais graves do que em adultos", destaca Luiza. Por essas e outras, o melhor é que a cozinha também tenha o acesso interditado, por travas ou chave.  Casa adaptada  A pediatra Renata Waksman, presidente do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria, recomenda que os pais comecem a planejar adaptações na casa desde a gestação. "As janelas e varandas devem ser protegidas por telas ou grades", alerta. Os acessos às escadas, assim como à cozinha, também devem ser bloqueados, com o uso de portões e travas. "Nos momentos de preparo das refeições, as crianças nunca devem estar na cozinha, porque o adulto fica distraído." Os brinquedos são essenciais para o desenvolvimento infantil. Mas devem ser selecionados com atenção. A pediatra orienta: confira sempre se é adequado para a faixa etária e se possui selo de certificação. Até os 3 anos, há o risco de a criança se sufocar com brinquedos muito grandes, ou de engolir pequenas peças que se soltam. Atenção também quando dois irmãos brincam juntos: o maior pode estar com peças inadequadas para o menor. "Em todos os casos, é necessário que um adulto supervisione a brincadeira. Pelo menos até a adolescência", afirma Renata. A médica também orienta que produtos químicos, medicamentos, cosméticos, secadores e barbeadores sejam mantidos longe do acesso físico e visual dos pequenos. Podem ficar, por exemplo, em um armário alto e trancado. Além de impedir os acessos, recomenda que os pais instruam os filhos sobre os riscos desde cedo. "Fale com linguagem simples, explicando à criança como ela pode se machucar com algumas práticas. Evite usar a palavra 'não', porque incita a curiosidade deles", orienta. "Mas só isso não basta. É preciso proteger e supervisionar pessoalmente o que a criança está fazendo."