Quando amar vira obsessão

Eduardo Diório - O Estado de S.Paulo

O filme ‘O Passado’ mostra a dor de uma mulher que quer reconquistar o marido. Mas, na vida real, até que ponto é válido lutar por um amor?

Há quase cinco anos, Silvia e Felipe formavam um casal feliz, daqueles de causar inveja nos menos afortunados. Os pombinhos não se desgrudavam e sonhavam com a máxima de viverem felizes para sempre. Mas, com o passar do tempo, após idas e vindas, a relação esfriou para o rapaz e ele pediu o divórcio. Alguns meses depois, se envolveu com outras mulheres, teve um filho e agora mora sozinho, feliz da vida. O mesmo não aconteceu com Silvia, que, até hoje, é perdidamente apaixonada por Felipe. Para ela, a vida não é nada sem a presença de seu eterno amor.   Veja também: Você ama demais?   No entanto, a moça não está no fundo do poço sozinha - situação em que se autodefine. Maria, Joana, Renata e Bruna (nomes fictícios) também fazem parte da lista de mulheres que amam demais, sofrem durante as 24 horas do dia e querem encontrar uma luz no fim do túnel. Elas se entendem e, semanalmente, têm encontro marcado no Mada (Mulheres que Amam Demais Anônimas) para dividirem as mágoas e, claro, as conquistas. Entre as meninas, o assunto da vez é o filme O Passado, do diretor Hector Babenco, com Gael García Bernal (Rimini) e Analía Couceyro (Sofia) no elenco.   O longa-metragem, que está em cartaz nos cinemas da Capital, conta a história de amor de Rimini e Sofia, que, após 12 anos de casamento, resolvem se separar. A partir daí, o rapaz tenta recomeçar sua vida, mas a presença constante de sua ex-mulher provoca situações desagradáveis. "Existem traços da minha personagem em muitas pessoas. Qualquer um pode se identificar com a sensação de continuar preso ao passado, mas geralmente é um sentimento passageiro. Não para ela. O mais terrível é que o passar do tempo, em vez de libertá-la, a condena cada vez mais", explica Analía.   A identificação entre as freqüentadoras do Mada com Sofia é clara: todas são viciadas num amor que, na ordem natural do processo, não deveria mais existir. Só que, para elas, essa tarefa não é nada simples. No filme, como solução, a personagem cria o Instituto Adèle H., que abriga mulheres que tentam dar um ponto final nos ex-relacionamentos. Na vida real, a intenção do Mada é a mesma e segue o modelo do AA (Alcoólicos Anônimos). "Nos encontramos e dividimos com as colegas as nossas histórias. Elas apenas escutam e se identificam com os relatos. Não há palpites e cobranças", conta Maria, que, ao contrário de muitas colegas de ‘terapia’, ainda vive com o companheiro, mas não consegue se desvencilhar dele. "É muito difícil dizer não para o meu marido. Faço tudo o que ele manda e me sinto extremamente sufocada. Mesmo assim, amo estar ao lado dele e não consigo me separar", desabafa.   Após ouvir a história de Joana, que viveu situação similar e hoje é separada, acredita que ainda há uma saída possível. "Aos poucos, eu sinto que estou me desligando desse carma. É bom saber que alguém já passou por isso e conseguiu vencer."   De acordo com Malvine Zalcberg, psicanalista, doutora em psicologia clínica pela PUC-Rio e autora do livro Amor paixão feminina, as mulheres têm mais dificuldade em se desligar de um amor porque investem muito na relação. "Elas depositam no parceiro a resolução de muitos aspectos que as afligem. Trata-se de uma satisfação não só de ter encontrado um homem, mas também de ter descoberto uma maneira de se realizar como mulher. Quando ela perde esse amor, é como se perdesse a ela mesma."   A situação de Renata, por exemplo, esbarra na história relatada no filme. Diferentemente dos parceiros de Maria e Joana, o ex-namorado cede a todos os desejos da moça e não consegue deixá-la de lado. "Sei que posso contar com ele e me acomodo. Com isso, não dou abertura para outros homens, pois sei que ele sempre estará comigo, mesmo não sendo mais meu namorado", acredita. Em O Passado, Rimini também realiza quase todos os pedidos da ex-esposa e está sempre presente.   "Ele é um personagem enfeitiçado, amaldiçoado e de muita inocência. É anti-herói e também herói. É como se ele tivesse caído em um rio que corre muito rápido. Rimini pode ser catalogado na categoria dos homens bobos", analisa o ator Gael García Bernal. Além disso, ele acredita que esse tipo de homem acaba sendo muito dependente das mulheres. "São elas quem o conduzem até onde ele tem de chegar", completa.   Eu me mordo de ciúmes   Se algumas mulheres têm idéia fixa de querer reconquistar o grande amor, outras querem aprender a sanar o ciúme obsessivo. Bruna é uma delas. Casada há quatro anos, tenta se segurar para não fuçar no celular do marido e cheirar as roupas dele, mas não consegue. "Teve uma época em que eu checava os e-mails dele. Já o segui de casa até o trabalho." Bancar a detetive, porém, não tem sido saudável. "Vivo em função de tentar descobrir algo, mas é em vão. Eu quero me controlar."   "O ciúme é uma arma poderosa que defende o amor da indiferença. No amor, a posse se encaixa bem no tamanho da insegurança de cada um. Esse sentimento transforma até o ser humano mais altruísta do mundo em um ser ciumento", acredita Silvana Martani, psicóloga e membro da clínica de endocrinologia do Hospital Real Beneficência Portuguesa.   Segundo ela, o ciúme sempre foi uma fonte de sofrimento e, dependendo da insanidade, dói ou mata. "O ciúme patológico transforma as pessoas em reféns e, qualquer atitude que o obsessivo julgue inadequada, pode se transformar em certezas", alerta Silvana.   No livro Mulheres que Amam Demais, da norte-americana Robin Norwood, que atua como terapeuta e conselheira pedagógica, é possível encontrar os sinais típicos de quem tem tendência para gostar demasiadamente de uma pessoa (confira ao lado). "Essas mulheres costumam concentrar a energia em uma mudança do comportamento do outro."   Ao que tudo indica, ninguém quer viver em função de um amor não correspondido. Já que não dá para apagar o passado, o ideal é aprender a sobreviver com ele de forma saudável. "Se você escolher iniciar o processo de recuperação, passará de mulher que ama com doloroso sofrimento, para mulher que se ama o suficiente para suprimir a dor", sugere Robin.