Quando a devastação era risonha e franca

Marcos Sá Corrêa* - O Estado de S.Paulo

O olho treinado do fotógrafo Pedro Martinelli bateu direto naquele exemplar da Realidade, em um sebo de São Paulo. Era uma edição especial sobre a Amazônia, da época em que o governo militar começava a rasgar a floresta com estradas. De outubro de 1971, a revista estava meio desfolhada, como a própria Amazônia, assunto que rendeu a Martinelli quatro livros e uma curiosidade que ele não consegue esgotar há 30 anos. Comprou-a. Lá estão as histórias de onças caçadas só pelo couro, de tribos indígenas às vésperas da invasão, das fazendas que iam abrindo "com a pata do boi" um território equivalente "a duas vezes a Áustria" e de um campo de futebol que os pesquisadores do Inpa abriram em plena floresta, nos arredores de Manaus, e nunca mais precisaram limpá-lo, porque embaixo havia um areal branco e desértico. Já se sabia em 1971 mais ou menos o que se sabe hoje. O que ficou difícil de imaginar, 38 anos depois, é o passado, tal como aparece nos anúncios, posando para a posteridade com o ufanismo das empresas que marchavam para a conquista da selva ombro a ombro com o general Emílio Médici e fizeram questão de que os brasileiros soubessem disso. "No calor da luta contra a selva, Prosdócimo garante o frio", disse o fabricante do "único congelador brasileiro adequado ao duro trabalho da linha de frente". A Fosnor, subsidiária da Fiat Lux, chegou a ser profética: "Da floresta amazônica ao palito de fósforo." "Trabalhando e cantando", como um Geraldo Vandré do oficialismo, o estaleiro Multinavi avisou que estava lá para "o Brasil mostrar ao mundo com quantos paus se faz uma canoa". Em uma página ilustrada com a fotografia de um corredor de árvores apartadas por motoniveladoras e muito barro - onde o carro não figura - o Volkswagen 1.600 marcou presença na empreitada. "Pense em um carro capaz de andar na Transamazônica. Agora. Ali, sozinho, no peito e na raça", prometia o anúncio. A Agrimisa não fez por menos para avisar que "o progresso da Amazônia aceita sócios". Em um texto, que beira o lírico de um lado e o ridículo do outro, fala de um Cessna 210 que "aponta o nariz para o solo" e literalmente abençoa os passageiros com "a fantástica visão" de uma fazenda de gado com 24 mil hectares, na beira do Rio Araguaia. "A paisagem que se descortina anula as imagens de lendas, exotismo, mistérios e promessas. Nas pastagens de capim colonião, 7.680 hectares artificiais, o nelore recebe excelente alimentação." A Ultragaz garantiu que estava na Transamazônica, confiando "na necessidade inadiável desta rodovia", porque nela "foi tudo planejado para que de 100 em 100 quilômetros nasça uma cidade". Como precursora, comprometia-se a entregar seus bujões "de helicóptero". Sob o ronco do oba-oba, as estatais, agências e autarquias não poderiam ficar caladas. A Companhia Brasileira de Recursos Minerais, prevendo que "há algo de estanho na solidão verde da Amazônia", saudava os "tratores que passam roncando mais alto do que as onças" e "as árvores seculares que tombam e acompanham sua terra, naquele movimento de sair da frente para os pioneiros do futuro". Parece que foi hoje. Mas, ao lado de páginas que anunciam o Opala Gran Luxo e o eletrofone Philco "com circuito integrado", o achado envelheceu o suficiente para ocupar sua vaga no museu do ridículo nacional. * É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)