Programa de leitura de SP é revisto

Simone Iwasso e Fábio Mazzitelli - O Estado de S.Paulo

Polêmica faz Secretaria Estadual da Educação reavaliar títulos

Após distribuição nas escolas de livros com conteúdos inadequados para a idade a que foram destinados, o secretário estadual da Educação, Paulo Renato Souza, anunciou ontem uma revisão nos mais de 800 títulos do Programa Ler e Escrever, voltado a estudantes das primeiras séries do ensino fundamental. Segundo o secretário, é provável que haja mais uma ou duas obras recolhidas, o que deverá ser divulgado hoje. Na próxima quarta-feira, a secretaria exibirá todos os títulos. Paulo Renato afirmou que uma sindicância interna foi aberta para investigar a responsabilidade na escolha dos livros, mas que analisará também o comportamento das editoras. "Mandamos cartas para as editoras pedindo livros para as faixas etárias", afirmou Paulo Renato. "Vamos esperar a sindicância. Se for comprovado que a editora não agiu corretamente ao nos indicar livros, pode ser pedida a substituição." Há duas semanas, o livro Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol, uma compilação de cartunistas brasileiros, foi recolhido após ser enviado para escolas, onde seria distribuído para alunos da 3ª série. A obra tinha palavrões, expressões sexuais e referências à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). O segundo livro questionado é Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora, que reúne textos de poetas contemporâneos. O problema é o conteúdo de um dos poemas da coletânea, de Joca Reiners Terron, chamado Manual de Autoajuda para Supervilões. O texto, construído em cima de ironias e negativas, começa com a frase: "Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica/É melhor não deixar testemunhas." O texto continua no mesmo tom: "Não vá se entusiasmar e matar sua mãe/ Até mesmo supervilões precisam ter mães/Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um." Em outro trecho, diz: "Nunca ame ninguém. Estupre." A Ática, editora responsável pela publicação, diz que a obra é indicada a partir dos 13 anos. A faixa etária, aliás, consta da contracapa. A secretaria afirma que houve erro da equipe que fez a seleção. São professores da rede que fazem as escolhas. Outro título criticado por alguns professores é do poeta Manoel de Barros e foi enviado para a 6ª série. A obra Memórias Inventadas tem alguns palavrões, o que pode ou não ser considerado adequado. Segundo a secretaria, apesar das críticas, não há problema com esse livro. "Pode ter havido falta de adequação nessas escolhas, mas a reação que estou vendo me parece muito exagerada", afirma Cecília Faria, psicóloga especializada em comportamento infantil e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Para escolher um livro infantil é preciso levar em conta o contexto e a criança de 2009", explica ela, que faz consultoria para colégios da capital. "A criança de hoje assiste novelas com temas mais polêmicos, lê sobre crimes na internet, vê outras crianças na televisão. Ela não é ingênua como éramos no passado e tem uma capacidade de discernimento que não podemos subestimar."