Presas em casa, crianças sofrem de tédio e medo

Daniela Pastrana, CIDADE DO MÉXICO - O Estado de S.Paulo

Com as aulas suspensas, pequenos mexicanos sentem a falta dos amigos

Em menos de seis dias, o estado de espírito da jovem Amaranta passou de "e" para "c", define sua mãe: da euforia, porque as aulas voltaram a ser suspensas (ela mal voltara do feriado da Semana Santa), para uma enorme e inevitável chateação."No começo fiquei feliz, mas logo depois pensei ?deve ser por algum motivo grave?, daí fiquei com medo. Agora todo mundo está chateado porque a gente não pode sair. Nenhum dos meus amigos pode sair de casa, nem para ir até a esquina, e um deles está de quarentena", conta Amaranta, de 13 anos, filha de uma das pessoas mais conhecidas na questão dos direitos da infância em seu país."O que é que a gente pode fazer? Fico dormindo, acordo tarde todos os dias. Quase não saio, só quando minhas primas me raptam e me levam para ver filmes na casa delas", diz a menina.A Cidade do México é há muitos anos uma cidade de crianças sozinhas.Crianças cujos pais trabalham o dia inteiro fora de casa, que deixaram de brincar nas ruas por causa da insegurança, e que crescem educadas pela televisão e pelos videogames.Mas agora, durante uma das epidemias mais graves ocorridas na capital, desde o terremoto de 1985, as crianças estão sozinhas, entediadas e com medo."Fico na minha casa, só fui à casa da minha avó. Vejo televisão, fico no computador, me chateio. No começo fiquei preocupada, tinha medo de pegar essa gripe, mas agora estou mais tranquila", conta Natalia Pineda, estudante da quarta série do primário. "O que mais me desespera é que o tempo todo os outros mandam mensagens falando bobagens. Recebi por e-mail uma corrente que diz que tudo isso é mentira, que há muito mais mortos do que estão falando. E eu fiquei assustada, porque me assusto com qualquer coisa", afirma Amaranta.Desde terça-feira, 33 milhões de estudantes estão sem aulas em todo o país. A medida havia sido anunciada para as escolas da capital e de outros três Estados desde a quinta-feira anterior, e deflagrou o alerta das autoridades sanitárias.As crianças receberam a notícia com alegria, mas seus pais se queixaram da mudança de planos. O alarme chegou no fim de semana, acompanhado por novas medidas, cada vez mais drásticas: foram fechados os centros de cultura, os centros desportivos, os museus, os zoológicos, os estádios de futebol (as partidas da capital foram jogadas a portas fechadas), os cinemas, os teatros, os restaurantes e, finalmente, foram canceladas as atividades escolares em todo o país - incluindo as das creches. Também foram suspensos os festejos do Dia da Criança, tradicionalmente comemorado no dia 30 de abril."Concordo com o que estão fazendo, as pessoas estão muito assustadas porque uma coisa é o que dizem as notícias e outra o que as pessoas falam na rua, e há muita irresponsabilidade. Claro que as crianças estão cansadas", afirma Erika Jiménez, uma jovem mãe que tem de aturar as brigas dos filhos: Jonathan, do segundo grau do primário, e Monserrat, do jardim de infância."Monserrat está muito incomodada, e eu não sei o que fazer com eles. Você tenta ler, brincar, mas não há muito o que fazer dentro de casa", diz ela.A pequena Monserrat, de 5 anos, é a mais aborrecida por não poder sair. "Gosto de passear, mas minha mãe disse que não posso, e eu zango com Jonathan porque ele não me empresta seu telefone."E o que ela faz? "Jogo videogame; jogamos o dia inteiro. Jonathan e eu ganhamos todos os níveis, são 11, mas também me canso", diz Monserrat.