Posto chega a ter 2 mil paulistanos na fila de espera por consultas

Fabiane Leite e Karina Toledo - O Estado de S.Paulo

Estudo inédito mostra que 149 mil aguardavam atendimento na capital em 2008; Prefeitura diz que hoje são 81 mil

Apuração da Defensoria Pública do Estado de São Paulo revelou que 149.723 pessoas aguardavam no ano passado por consultas médicas com especialistas e exames, entre outros procedimentos, só na região sul da capital, área em que vivem 2,4 milhões de pessoas. O tempo de espera verificado era de 3 a 90 dias, em média. Relate seus problemas de atendimento na rede municipal A dificuldade de acesso a esses serviços é debatida há anos, mas pela primeira vez foi possível ter uma ideia melhor da dimensão das filas com base em dados da própria Prefeitura, que normalmente não são divulgados. A Defensoria vai ingressar com ação para que o município solucione o problema. Segundo o órgão, não houve acordo - o município nem sequer mandou representante para a última reunião sobre o assunto.Em nota divulgada no início da noite de ontem, a Secretaria Municipal da Saúde não comentou a ação, mas informou que as esperas melhoraram na região: em janeiro deste ano a demanda era de 136 mil; em fevereiro, 96 mil. Em março, até o último levantamento, havia 81 mil pacientes, segundo a pasta. A redução é atribuída principalmente à abertura de duas novas unidades para atendimento de especialidades e otimização da lista de espera por meio de confirmação das consultas agendadas, por exemplo.Na atual organização da rede de saúde paulistana, cabe à Unidade Básica de Saúde (posto de saúde) marcar os exames e consultas de especialidades, além de cirurgias para os pacientes. As apurações da Defensoria ganharam impulso justamente quando a diretora de um dos serviços confirmou que só em sua unidade havia 1.500 cidadãos à espera de marcações de procedimentos, o que levou o órgão a buscar mais dados.Um total de 24 postos foram consultados e 5 responderam, entre eles a UBS Jardim São Bento, onde 2.442 pessoas aguardavam atendimento em 2008. Os pacientes, dizem os defensores, não recebiam nenhum comprovante da marcação do procedimento."Concluímos que pessoas vão ao posto de saúde, mas dali em diante, se necessitam de uma consulta com um especialista, como um ortopedista, não conseguem mais", diz o defensor público Paulo F. de Alvarenga II, que, ao lado de outros sete colegas, decidiu ingressar com ação civil pública com pedido de liminar para que, em 90 dias, a Prefeitura atenda os pacientes. "O problema é alarmante e induvidoso. As filas de espera se alongam e se perpetuam no tempo, criando nessas pessoas o sentimento de desesperança e descrédito", diz o texto da ação. Os defensores pretendem também levantar dados oficiais sobre a situação das filas em outras regiões. Até ontem, todos os pedidos feitos à Justiça aguardavam parecer do Ministério Público.As apurações da Defensoria começaram depois de seguidas reclamações da população da região. A zona sul é composta de 11 distritos, entre eles Parelheiros, líder de ranking sobre necessidades de saúde divulgado no ano passado pela secretaria. Segundo a Defensoria, no entanto, Parelheiros não contava com ambulatórios de especialidades, assim como outros três distritos da zona sul.Georgina Silva, de 58 anos, espera por uma cirurgia para pedra na vesícula há dez meses. "Tenho dor e não posso comer nada." Já a dona de casa Marinalva Brito, de 49 anos, com suspeita de bursite, espera há oito meses pelo ortopedista. "Estou tomando anti-inflamatório por conta própria. Será que vai ser preciso perder o braço para conseguir o médico?", desabafou.PROBLEMA RECORRENTE Rio de Janeiro - Pacientes aguardam atendimento na fila da emergência do Hospital Souza Aguiar, centro do Rio, em março de 2005. À época, a Marinha teve de montar um hospital de campanha ao lado da unidade São Paulo - Hospitais da periferia da capital sofrem com a falta de médicos. A foto, de junho de 2006, mostra fila formada naunidade de Ermelino Matarazzo, zona leste. O atendimento chegou a demorar cerca de 7 horasPorto Alegre - Posto de Saúde Municipal do SistemaÚnico de Saúde (SUS). Usuários aguardavam, em dezembro de 2007, em fila apenas para marcação de consultas