Por uma infância mais slow

Rita Lisauskas - O Estado de S.Paulo

Criadoras do "Slow Kids" contam como nasceu o movimento que propõe que pais e filhos troquem os jogos eletrônicos e os shopping centers por brincadeiras ao ar livre

Pai no smartphone, filho no vídeogame e mãe no computador. Infelizmente essa cena é muito comum na maioria das casas brasileiras, principalmente nas grandes cidades, inclusive aos fins de semana. Às vezes é o cansaço de uma semana de trabalho, a falta de espaços ao ar livre perto de onde se mora ou até mesmo a sensação de que não sabemos brincar com nossos filhos que nos prendem em casa ou em espaços fechados, como os shopping centers.

Mas desde 2013 um movimento batizado de "Slow Kids" quer mostrar aos pais, mães e filhos que brincar junto e ao ar livre é uma atividade que além de gratuita, pode unir a família e tirar a criança da frente do computador ou do videogame. "A criança brasileira fica em média cinco horas por dia em frente as telas. Essa super exposição traz diversos malefícios, entre eles a obesidade infantil e o estímulo ao consumismo", contam as idealizadoras do evento que leva famílias inteiras a ocuparem os parques de São Paulo. 

Crianças brincam ao ar livre

Crianças brincam ao ar livre Foto:

Como nasceu a ideia do Slow Kids? O que as motivou a criar o evento? 

Começamos a observar a quantidade de crianças que possuem agendas lotadas de atividades e sem tempo para brincar, famílias com pouco tempo de qualidade passado junto, o pouco tempo que as crianças ficam ao ar livre em oposição ao tempo crescente que passam ligadas à telas. Essa rotina acelerada tem levado ao aumento da obesidade infantil e dificultado a capacidade de se relacionar, entre outros tantos problemas ligados à infância. A partir de nossos desejos e observações levamos a ideia para o Instituto Alana (organização da sociedade civil que aposta na vivência plena da infância) que nos apoiou, nascendo assim o Movimento SlowKids. Essa parceria nos alimenta com o que há demais avançado nos temas relacionado à infância.

Como vocês encaram o brincar?

O brincar é um direito da criança. É assim que ela experimenta o mundo, cria, fantasia, se sente segura, organiza suas emoções e se desenvolve em todos os aspectos. Na verdade o brincar tem que estar presente em todos os momentos de nossas vidas. O documentário Tarja Branca traz uma excelente defesa dessa questão, vale a pena assisti-lo e pensar sobre isso. 

Como encara o tempo livre das suas filhas?

O tempo livre das meninas (Tatiana tem as gêmeas Sophie e Manuela, 2 anos) é de muita brincadeira na pracinha do bairro. Quando estamos juntas em casa procuramos deixar celular e computador de lado e brincar junto com elas, ler histórias, cozinhar, embarcar no lúdico e também dar possibilidades para elas brincarem livres sem muita supervisão, criando um ambiente seguro e com livre acesso aos brinquedos e livros. Muita gente acredita que a criança para se desenvolver necessita de cursos e atividades extracurriculares quando na verdade ela precisa é ter espaços na agenda para o brincar e o descansar - e não bastam apenas 15 minutos.

Como encaram a brincadeira ao ar livre?

Ela é essencial para a saúde, para a autonomia, para a criatividade. Crianças que estão expostas à natureza criam vínculos sociais mais fortes e principalmente têm um desenvolvimento integral.

Quando foi a primeira edição do Slow Kids? 

A primeira edição foi realizada no Parque da Água Branca em novembro de 2013. Desde então já somamos cinco grandes eventos em parques como o Burle Marx, Villa Lobos e no Museu da Casa Brasileira. Também participamos com pequenas edições do evento em parceria com a Prefeitura de São Paulo na Jornada do Patrimônio, no Aniversário de São Paulo, no Bailinho de Carnaval e na comemoração dos 25 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Como foi a recepção dos pais e das crianças?

A recepção foi muito boa porque trouxe para as famílias o prazer de brincar juntos ao ar livre, em contato com a natureza e em contato com elas mesmas! Ainda trabalhamos para passar o conceito e estimular as famílias a um prática mais "slow" no seu dia-a-dia, ampliando os horários de brincar, de não fazer nada e de contato com a natureza.

Que tipo de atividades vocês propõem no evento?

São brincadeiras tradicionais, feira de troca de brinquedos, passeios para observação da natureza, Erê Lab (que é um playground diferente totalmente pensado para criança e suas habilidades), contação de histórias e show. O espaço é preparado com cangas e objetos de brincar porque não queremos que as atividades sejam a única opção. A ideia é sentar, fazer um piquenique e curtir sem ansiedade. Queremos despertar o prazer de estar junto, de relaxar e de passar o dia de qualidade em família.

Vocês acreditam que as crianças das grandes cidades perdem oportunidades de brincar?

Sim, muito. Com a verticalização dos grandes centros urbanos, a diminuição dos espaços de convívio e o aumento da violência, as crianças foram ficando cada vez mais em casa em contato com a tecnologia e tendo seu tempo preenchido por atividades extracurriculares e, assim, com menos oportunidades para brincar. O ocupação dos espaços públicos cria esses ambientes propícios ao brincar livre e ao contato com a cidade.

Como encaram a contínua exposição das crianças aos jogos eletrônicos?

Achamos preocupante. Não só aos jogos eletrônicos, mas às telas em geral. A criança brasileira fica em média cinco horas por dia em frente a elas. Esse tempo deve ser controlado e não deve ser maior do que as outras atividades do dia da criança. Essa super exposição traz diversos malefícios, entre eles a obesidade infantil e o estímulo ao consumismo infantil.

Na visão de vocês como a escola e os pais encaram o brincar?

Algumas escolas entendem essa importância e criam espaços de brincar na rotina, outras tendem a passar os estímulos através de atividades de forma mais estruturada, reduzindo o tempo do brincar livre. Os pais e cuidadores têm muita dificuldade de brincar, com toda essa ansiedade que se origina em nós, adultos, com o estresse do dia-a-dia  que acabamos transferindo para as famílias. Muitos não se conectam com o tempo dos filhos e impõem a eles o seu próprio ritmo e projeções. Muitos trabalham o dia inteiro e tem pouco tempo com os filhos e, mesmo quando tem esse tempo, preferem estar juntos em shoppings centers ou em frente à TV ou computadores ao invés de estar com os filhos em locais abertos brincando e interagindo. 

O "Slow Kids" é totalmente gratuito e semestral. A próxima edição será no dia 01 de maio, domingo, no Parque da Independência, no Ipiranga e será totalmente pautado na acessibilidade, para que todas as crianças possam participar

Tatiana Weberman, 41 anos, é Produtora Cultural, Diretora da agência Respire Cultura e idealizadora do Slow Movie e mãe das gêmeas Sophie e Manuela, 2 anos. Juliana Borges, 40 anos, é produtora audivisual da Maria Farinha Filmes e, embora não tenha filhos, trabalha com produções que abordam assuntos importantes relacionados ao universo infantil como "Criança a Alma do Negócio", "Muito Além do Peso" e "Território do Brincar".

Tatiana Weberman (à esq.) e Julliana Borges 

Tatiana Weberman (à esq.) e Julliana Borges  Foto: