Por que o cérebro não é verde

Jon Gertner, THE NEW YORK TIMES - O Estado de S.Paulo

Decisões tomadas individualmente e em grupo devem preceder apoio a tecnologias e políticas ambientais

Dois dias após Barack Obama ser investido na presidência dos Estados Unidos, o Pew Research Center divulgou uma pesquisa com o ranking dos principais temas que, para os americanos, deveriam ser as prioridades deste ano. No topo da lista, diversas preocupações - emprego e economia - relacionadas à atual recessão. Bem mais abaixo - depois de terrorismo, redução do déficit e energia (e mesmo algo que os pesquisadores caracterizam como "declínio moral") - estava a mudança climática. Ocupando o 20º e último lugar da lista. Uma semana após a publicação da pesquisa, participei de uma conferência na Universidade Columbia, onde algumas dezenas de acadêmicos se reuniram para discutir ambiente. Sob muitos aspectos, os rankings do Pew Research Center serviram como um pano de fundo adequado para uma reunião de pesquisadores filiados ao Centro de Pesquisa sobre Decisões Ambientais (Cred). Como um ramo da pesquisa comportamental entre a psicologia e a economia, a ciência tem se concentrado nos processos mentais que moldam as nossas escolhas, comportamentos e atitudes. Esse novo campo de estudo nasceu do trabalho, iniciado nos anos 70, de Daniel Kahneman e Amos Tversky, dois psicólogos cujos experimentos demonstraram que as pessoas podem se comportar de maneira inesperada quando confrontadas com escolhas simples. Temos muitas tendências que são automáticas - somos mais avessos a perdas do que interessados em ganhos, por exemplo - e podemos repetir erros de julgamento baseados na nossa tendência a usar regras taquigrafadas para resolver problemas. Também podemos ser extremamente suscetíveis à maneira como as questões são colocadas. Você se submeteria a uma cirurgia se tivesse 20% de chance de morrer? E se tivesse 80% de chance de vida? O processo é o mesmo, claro, mas em vários experimentos as respostas do pacientes podem ser diferentes e de um modo marcante. Nas últimas décadas, uma grande parte da pesquisa tem se dedicado a como tomamos decisões no âmbito financeiro ou quando temos de fazer escolhas envolvendo cuidados com a saúde e produtos de consumo. Há alguns anos, o professor de Psicologia de Columbia, David H. Krantz, uniu-se a Elke Weber, que tem uma cadeira na Escola de Administração da universidade e também um cargo no Departamento de Psicologia, para formar um grupo interdisciplinar de economistas, psicólogos e antropólogos de todo o mundo que estudaria as tomadas de decisões relacionadas a assuntos ambientais. MUDANÇAS Com subvenção de US$ 6 milhões da Fundação Nacional de Ciências, esse grupo, o Cred, tem como meta principal estudar como as percepções de risco e incertezas moldam nossas respostas aos problemas da mudança climática. O objetivo, em outras palavras, não é tanto investigar teorias sobre como as pessoas se relacionam com a natureza, que já vêm sendo estudadas por alguns psicólogos ambientais e mesmo acadêmicos, como o biólogo de Harvard, E.O. Wilson. A ideia é financiar experimentos de campo e laboratório na América do Norte, América do Sul, Europa e África e colocar as conclusões em um contexto ambiental. Não está imediatamente claro por que esses estudos são necessários ou mesmo se valem a pena. Porém, na comunidade científica dos Estados Unidos, onde quase todos os dólares para a investigação do clima são direcionados para projetos físicos e biológicos, a ideia de que soluções ambientais vitais serão alcançadas por meio da pesquisa científica social - e não usando modelos climáticos melhorados ou tecnologias inovadoras - é uma posição agressivamente insurgente. Você pode perguntar aos cientistas mais influentes, como acabei fazendo, se não estariam complicando demais as coisas. Um mundo com menos carbono não significa deixar de lado o carvão e outros combustíveis fósseis e favorecer tecnologias de energia limpa, regulamentos internos de um país e os tratados internacionais? Nenhum deles discordou disso. Alguns sorriram pacientemente. Mas todos questionaram se eu havia subestimado o sem número de decisões tomadas individualmente ou em grupo que devem preceder o apoio generalizado a tais tecnologias ou políticas. "Comecemos com o fato de que a mudança climática é antropogênica", disse Elke Weber, em seu escritório em Columbia. "As pessoas mais ou menos concordaram com isso. O que significa que ela é causada pelo comportamento humano. Não quer dizer que soluções arquitetadas tecnicamente não sejam importantes. Mas, se ela é causada pelo comportamento humano, então a solução provavelmente esteja em mudar o comportamento humano." Para os pesquisadores do Cred, o aquecimento global é uma oportunidade única para estudar como reagimos às barganhas em longo prazo, na forma de sacrifícios feitos hoje em troca de benefícios climáticos incertos no futuro distante. A pesquisa tem potencial para melhorar mensagens, políticas e tecnologias ambientais, de modo que fiquem mais em sintonia com o funcionamento peculiar da nossa mente. Quando me sentei para assistir à primeira conferência em Columbia, Elke Weber estava fazendo uma introdução sobre como as pessoas tendem a tomar decisões. Hoje, os psicólogos cognitivos aceitam, de modo geral, que temos sistemas distintos de processamento de riscos. Um trabalha analiticamente, envolvendo com frequência uma análise cuidadosa de custos e benefícios. O outro experimenta o risco como um sentimento: uma reação urgente e primitiva ao perigo, habitualmente baseada numa experiência pessoal, que pode se mostrar inestimável quando, por exemplo, acordamos à noite com o cheiro de fumaça. Existem algumas implicações infelizes nesse ponto. Analiticamente, não somos especialistas no pensamento em longo prazo. Os experimentos têm mostrado um frequente desagrado em relação a benefícios que demoram para chegar, e assim subestimamos os resultados prometidos para o futuro. Se pudermos escolher, normalmente preferimos ficar com US$ 10 hoje, em vez de, digamos, US$ 20 daqui a dois anos. Em uma perspectiva ambiental, isso significa que estamos muito menos propensos a mudar nosso estilo de vida para assegurar um clima mais seguro. Deixar que as emoções determinem nossa avaliação do risco também tem seus próprios problemas. Com certeza subestimamos o perigo de um aumento no nível dos mares, de secas épicas ou qualquer outro possível evento que nunca vivenciamos e parecem muito distantes em termos de tempo e lugar. Pior: a pesquisa de Weber ajuda a estabelecer que temos um "fundo limitado de preocupação", o que significa que somos incapazes de manter nosso temor das mudanças climáticas quando um problema distinto se apresenta - por exemplo, uma forte queda no mercado de ações ou uma emergência pessoal. Simplesmente jogamos o temor na lata de lixo das preocupações e ele desaparece. E se conseguíssemos ficar persistentemente preocupados com um mundo mais aquecido? Elke Weber descreveu o que chama de "propensão a uma ação simples". Levados por um sinal emocional angustiante, compramos uma fornalha mais eficiente ou isolamos nosso sótão ou votamos em um candidato verde - uma ação simples que efetivamente reduz o aquecimento global e se torna um fator motivador. E que nos deixa onde começamos. Os debates sobre por que a mudança climática não está em primeiro lugar na lista de prioridades dos americanos tendem a se concentrar nos mesmos culpados: observações que semeiam dúvidas lançadas pelos céticos da mudança climática, a péssima capacidade de comunicação de bons cientistas, a incompetência do sistema político para tentar resolver desafios em longo prazo sem que seja necessário um fato clamoroso repentino, a tendência do jornalismo científico de se concentrar mais no desconhecido (o nível dos oceanos vai subir 60 centímetros ou um 1,5 metro?) do que no conhecido, do que naquilo que é perenemente assustador (ao dizer que o nível dos oceanos está subindo). DILEMA COMUM Os laboratórios comportamentais de Columbia estão localizados em um subterrâneo e consistem em um conjunto de salas iluminadas, sem janelas. Cada laboratório tem uma área comum com uma pequena mesa retangular. Adjacente a essa área comum estão diversos escritórios minúsculos, equipados com computadores. Dependendo do experimento, as pessoas envolvidas nos testes, que recebem US$ 15 para participar e são recrutadas entre os alunos da universidade, podem atuar ou colaborando nas mesas ou trabalhando individualmente nos escritórios. Cada sala está equipada também com uma câmera e um microfone ocultos. Uma tarde, em fevereiro, sentei-me em uma sala de observação e vi, pelo monitor de TV de circuito fechado, um experimento do Cred sendo conduzido por Juliana Smith, estudante formada em Columbia. Três pessoas tinham de resolver várias dúvidas. A primeira era chegar a um consenso sobre como aplicar US$ 5 bilhões de fundos federais em tecnologias para desenvolver a energia eólica. Elas deveriam gastar tudo em turbinas eólicas convencionais? Deveriam investir parte (ou todo) do dinheiro em uma tecnologia ainda não comprovada, que empregaria levitação magnética para criar um gerador enorme, de longa duração, supereficiente, movido a energia eólica? Depois de o grupo chegar a um consenso, seus membros foram convidados a voltar para os escritórios e avançar suas próprias decisões individuais. Quando tomei conhecimento desse experimento, entendi que a ideia era obter insights para nossas opiniões sobre a energia eólica. Mas verifiquei depois que os pesquisadores não tinham nenhuma curiosidade sobre o tema. Porque o objetivo primário do Cred é compreender como se toma uma decisão em situações de incerteza e o problema das turbinas eólicas - vamos gastar dinheiro na fabricação de turbinas que já têm uma tecnologia comprovada ou devemos financiar tecnologias que poderão ser mais eficientes um dia - era intrigante não pelo seu conteúdo, mas pela maneira que revelava como nossa mente funciona. As variáveis conhecidas estavam todas lá: incertezas, tempo, ganhos e perdas potenciais. Para os pesquisadores, era fundamental compreender exatamente como a dinâmica de grupo molda as decisões durante o experimento. Na visão de Elke Weber, muitas escolhas importantes do ponto de vista ambiental (criar códigos, por exemplo, ou a compra de um veículo) são feitas por grupos - famílias, empresas, conselhos comunitários e similares. E vários experimentos feitos pelo Cred tornaram mais fácil a cooperação de indivíduos escolhidos aleatoriamente. O argumento de Weber é que a mudança climática pode ser facilmente encarada como um "dilema comum" muito grande - a versão de uma situação clássica em que os pastores têm pouco incentivo para agir sozinhos para preservar áreas verdes comuns e, no final, todos sofrem com o excesso de grama. A melhor maneira de evitar essa falha é mais colaboração, e não menos. "Temos prazer em nos reunir. Precisamos saber que fazemos parte de grupos", diz Elke Weber. "É um prazer inerente. E quando nos lembram que somos parte de comunidades, então a comunidade se torna uma espécie de unidade de tomada de decisões. É dessa maneira que fazemos enormes sacrifícios, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial."