''''Por que não reclamaram quando a taxa caía?''''

Cristina Amorim e Jamil Chade de Genebra - O Estado de S.Paulo

Em defesa do Inpe, físico José Goldemberg diz que trabalho do órgão está sendo desqualificado

O professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP e ex-ministro de Ciência e Tecnologia José Goldemberg defendeu ontem o trabalho do Inpe ao divulgar informações sobre uma recente alta do desmatamento na Amazônia. "Está ocorrendo uma desqualificação do trabalho do Inpe. Por que não reclamaram quando a taxa estava caindo?"Em relação às críticas feitas anteontem por Luiz Inácio Lula da Silva, ele acha que o presidente está "fazendo o que não se vê desde a Antiguidade: matando os mensageiros". Segundo Goldemberg, o trabalho do Inpe é "cuidadoso e um erro cometido não significa que todo o trabalho esteja errado sempre".Anteontem, Lula relativizou a divulgação de que o desmatamento voltou a crescer. "Você vai ao médico,você está com um tumorzinho e, em vez de fazer biópsia e saber como vai se tratar, já sai dizendo que tem câncer!" Ele também disse que "é como se você tivesse uma coceira e achasse que é uma doença grave".O coordenador da campanha Amazônia do Greenpeace, Paulo Adário, acredita que o governo tem um "comportamento esquizofrênico". "Interessante que ele (Lula) duvida de dados do próprio governo. E, quando eles são positivos, mesmo sem ser rechecados, o governo sai batendo no peito. Quando são negativos, chama uma platéia para questioná-los."Adário lembra que a Amazônia tem impacto em outras esferas, como no debate internacional sobre a crise climática. "A maior parte das emissões brasileiras de gases-estufa, 75%, vem daí, e o Brasil é quarto maior emissor do mundo por causa disso. Então o presidente precisa garantir que o desmatamento caia ou deixará o risco para as futuras gerações."REPERCUSSÃOEm Genebra, um dos principais formuladores da política ambiental americana, Daniel Reifsnyder, disse que o Brasil não terá como fugir do tema do desmatamento nas negociações internacionais sobre ambiente e a questão da manutenção das florestas já é um assunto "incontornável" para as principais diplomacias do mundo.Ao Estado, o americano que chefia o Departamento de Meio Ambiente da Secretaria de Estado estima que não há como forçar um acordo sobre o Brasil para limitar o desmatamento. Mas alerta que uma solução terá de ser encontrada para o problema."Os níveis de emissões de CO2 do Brasil não são muito grandes (em comparação com os americanos). Mas o problema é que o desmatamento e a queimada de florestas pode representar até 20% de todas as emissões. Por isso, a preservação da cobertura florestal é essencial", afirmou Reifsnyder.O americano tem em seu currículo a negociação de mais de 15 acordos ambientais em nome da Casa Branca. "A questão da floresta não sairá da agenda internacional. Não há como escapar dessa realidade", disse.O governo americano quer que os países emergentes, como o Brasil, aceitem negociar no âmbito do G-8 neste ano uma meta global de longo prazo para a redução de emissões de CO2. O grupo de países industrializado é presidido em 2008 pelo Japão, mas terá Brasil, China, Índia, México e África do Sul como convidados a debater uma série de assuntos, como tem ocorrido tradicionalmente.