Poetisa dos pincéis

- O Estado de S.Paulo

A arte de Isabelle Tuchband é prova de que basta um pouco de cor para tornar a vida mais leve

Isabelle. Herdou do pai, o arquiteto Émile Tuchband, o talento para as artes. Foto: Alex Silva/AE

 

 

Bem no meio do jardim de sua casa, localizada numa rua tranquila do tradicional bairro Jardim Paulista, o ateliê de vidro da artista plástica Isabelle Tuchband é guardado por uma frondosa sibipiruna, sabiás e duas esculturas de um atento Santo Antonio. Um santuário perfeito, onde a natureza e o colorido de suas telas acolhem o visitante de passagem. Nesse cenário, e cercada por flores, velas, livros e boa música, ela atravessa madrugadas pintando suas telas, a maioria com figuras femininas adornadas por flores, borboletas, diademas.

 

"Minhas mulheres são rainhas. Fortes, poderosas e guerreiras, sabem o que querem", acrescenta. Algumas têm ares de divas, outras, de deusas, ciganas (inspiração que vem das histórias russas da avó paterna, Clara, nascida em Vitebsk, na Rússia). Muitos quadros são feitos sob encomenda, quando, num rápido olhar lançado às modelos, a artista desenha mentalmente o esboço. Algumas telas são especiais, de seu acervo afetivo, como aquela onde aparece ao lado da amiga e sócia, a pintora Verena Matzen, ou uma colagem que tem a Bahia como pano de fundo.

 

Falando em Bahia, seu pai, a exemplo de outros tantos estrangeiros, a adotou em seu coração. "Nossa diferença era a música. Ele gostava de Caymmi e eu de, Caetano", brinca.

 

Isabelle é filha de MarleneTuchband, campeã de tênis, e do pintor e arquiteto Émile Tuchband, morto em 2006. O pintor nasceu em 1933, numa Paris contagiada pelos chamados anos loucos, e teve como influências o pintor expressionista Soutine e Marc Chagall, de quem foi assistente durante a execução do painel do teto da Ópera de Paris.

 

Morena de olhos negros e expressivos, herdou do pai a paixão pela arte. "Ferreira Gullar tem uma frase muito bonita: a arte existe porque a vida não basta", cita Isabelle, emendando em seguida outro poema de Gullar, dessa vez, sobre o amor.

 

Por sinal, as palavras estão em quase todas as suas telas, dialogando com as cores. Puxou do pai o magnetismo pessoal, reunindo à sua volta todo tipo de gente, sem distinções. "Levar o meu trabalho a quantas pessoas puder é a minha missão." Nesse quesito, está realizada. Sua obra pode ser apreciada diariamente por milhares de pessoas que passam pela estação do metrô Santa Cruz. Trata-se de um painel composto por quase 200 peças de cerâmica pintadas à mão, que representam o olhar da artista plástica sobre a cidade de São Paulo. Também a estação Penha vai ganhar um painel e uma escultura com seis metros de altura, representando Nossa Senhora da Penha.

 

 

Acervo. Além das telas, a artista plástica faz vasos, pratos e esculturas

Trajetória. Paulista de Taubaté - cidade onde seu pai se fixou nos anos 50 -, cursou Artes Plásticas na Faculdade Santa Marcelina e Beaux -Arts na École des Arts Décoratifs, no Museu do Louvre. "Em meados de 80, quando voltei ao Brasil, abri com a Verena o Atelier Cité, nos Jardins. Fomos as primeiras a conjugar no mesmo espaço galeria e ateliê abertos ao público", conta Isabelle. Foi quando seu nome começou a surgir na mídia, com suas sucessivas exposições.

 

No ano passado, realizou o antigo sonho de reunir, na mostra Aba Sheli, obras suas e de seu pai, no Centro de Cultura Judaica. Lado a lado, paisagens do sertão, jangadas, cenas do Pantanal e de Paris, de Émile, e o colorido à Matisse, de Isabelle. Em 2008, lançou o livro Será que Eu Sou Assim?, com sua trajetória. E até o início de julho, ela expõe em Paris, na mostra Viens, na Galerie Landrot.

 

Querida dos fashionistas - tem roupas e chapéus de dar inveja à personagem Carrie (Sarah Jessica Parker), de Sex and the City - já fez algumas incursões na moda. "Quero lançar ainda uma linha de joias." Nenhuma novidade, já que, segundo suas próprias palavras, artes plásticas, moda e design conversam entre si.

 

 

 

MARCA REGISTRADA

 

As telas, porcelanas, ilustrações e esculturas foram os trabalhos que projetaram o nome de Isabelle Tuchband no Brasil e no exterior. Mas a artista empresta sua arte a vários outros projetos. Em 2003, por exemplo, foi convidada para fazer uma instalação de painéis no prédio da Bienal, durante a São Paulo Fashion Week, juntamente com os irmãos Campana e o artista Guto Lacaz.

 

Também lançou uma linha de estampas em camisetas para a loja Bob Store. Criou quatro desenhos batizados de Eu te Proponho, Felicidade e N. Sra. Do Bom Humor. E, ao lado de outros artistas brasileiros contemporâneos, desenhou uma embalagem comemorativa para a empresa O Boticário.