Poder feminino

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

As mulheres ainda têm muito o que conquistar e o 8 de março reacende o debate sobre as necessidades específicas femininas. É esse o panorama que a ativista feminista e fundadora da União de Mulheres de São Paulo, Maria Amélia de Almeida Teles (Amelinha), 62; a escritora gaúcha e expoente da cena alternativa em São Paulo, Clara Averbuck, 27; a artista plástica Maria Bononi, 71; e a vereadora em São Paulo pelo PT, Sonia Francine Gaspar Marmo (Soninha), 29, fizeram sobre o Dia Internacional da Mulher em bate-papo com o Estadão. Feminino - Há posições contrárias ao Dia Internacional da Mulher: alguns argumentam que essa data reforça a idéia de minoria. O que vocês acham? Soninha - Eu acho bom, no mínimo, porque a gente pára para falar sobre o assunto. Soltam resultados de pesquisas no mundo todo, a Organização Internacional do Trabalho revela a situação das mulheres, salários, colocação, empregabilidade... Amelinha - Eu penso que o 8 de março foi uma conquista nossa, é uma data que traz no seu âmago um processo de luta, de conquistas, de vitórias e de retrocessos também. Foram os movimentos de mulheres no mundo inteiro que trouxeram essa data para o público e custou muito para nós. Quem quer ter uma data dessa que lute também. Nós merecemos porque nós conquistamos. E é uma data tão necessária, porque ainda no mundo inteiro existe esse fenômeno da discriminação histórica contra as mulheres. Em nenhum país do mundo ? ainda que seja do hemisfério norte, onde estão os países desenvolvidos ? as mulheres estão em situação de igualdade com os homens, e isso é uma ameaça para todos. Acreditamos que a humanidade pode viver em paz, em harmonia, é isso o que nós acreditamos e queremos. Então tem que ter a metade dessa humanidade participando, e não excluída. Maria - Acho a data super legítima, obrigatória e necessária, porque a mulher é extremamente excluída, inclusive da informação sobre ela mesma. Essa é a coisa mais grave que o Dia Internacional da Mulher poderia suprir. Eu fiz recentemente uma viagem à Índia, e é muito claro que se as mulheres cruzassem os braços ninguém comeria ali, porque elas sustentam toda a máquina do campo, alimentar, que ainda é medieval. No entanto, são totalmente abnegadas, excluídas, inclusive com salários aviltantes. Essa situação está acontecendo num país que está fazendo alto comércio. Se fôssemos mais longe, poderíamos pedir aos países que têm mulheres no governo para que não tratem com países onde a mulher está excluída e extremamente sufocada. Até hoje não foi feita uma lei que garanta às mulheres ocuparem metade do número de funcionários de qualquer empresa ou do governo. E acho que elas têm mostrado menos disponibilidade à corrupção. Temos menos mulheres corruptas nos altos postos do que homens. Amelinha - Faz um pouco mais de dez anos, aqui no Brasil, que nós trabalhamos para conquistar uma lei de cotas para as candidaturas femininas, que é de 30%, e foi duro chegar a isso, mas deveria ser no mínimo 50%. Acabamos de sair de um processo eleitoral, em 2006, e nenhum partido político cumpriu a determinação da lei, de ter 30% de candidaturas femininas. Nenhum partido, nem grande, nem médio, nem pequeno. Maria - Parabéns pela denúncia. Amelinha - Deveriam no mínimo pagar uma multa. Deveria haver uma multa que fosse para investimento na formação das mulheres. E os homens falam o seguinte: ?as mulheres não querem se candidatar?. Então invista na formação, porque a participação política é fundamental para todas. Maria - Acho que aqui vai um recado para as mulheres que estão no poder, que se mexam, que olham para esse lado, porque senão vão ser muito mal vistas historicamente. Amelinha - Nós chegamos aqui e eu estava prestando atenção. A Soninha estava ao telefone. Estava falando com alguém para buscar a filha, porque ela está aqui. Quer dizer, jamais teria esse papo com um homem. O homem ligaria para o banco para ver como estão as ações, não ligaria para sua casa ou para a vizinha pedindo para pegar sua filha. A mulher tem sim as condições objetivas para participar, mas são muito mais difíceis do que as dos homens. Então os partidos políticos têm a obrigação de investir na formação, na informação e nas condições. Tem de se ouvir mais as mulheres. Por que você não está fazendo política? Por que não vai ao partido? Não se dialoga com as mulheres. Ninguém está preocupado com esse poder. Acabaram de ser eleitos 500 e tantos deputados federais, entre eles 46 mulheres. Talvez tenha sido um dos momentos mais felizes da nossa história, porque nunca elegemos tantas mulheres. E muitas delas nem sempre estarão voltadas para essas questões. Maria - Elas vão entrar no jogo. Amelinha - Sim, vão tomar láa mesma atitude dos maridos, dos companheiros, enfim, dos homens que estão fazendo essa política. A gente não pode aceitar. Clara - Acho que o Dia Internacional da Mulher tem que ser para as mulheres acordarem, as mulheres jovens. Vejo cada absurdo acontecendo. As mulheres da minha idade estão regredindo, estão virando mulherzinhas: pessoas sem opinião, sem atitude, que só querem se casar, ter filhos, ficar em casa, cuidar do lar. Achava que isso não existisse mais, mas existe, e elas realmente querem isso, procuram marido. Eu acredito nisso que a Amelinha falou, que as mulheres não querem se candidatar. Amelinha - Mas é falta de formação política, de oportunidade, de condições. Clara - Falta de formação em casa. Maria - A menina é preparada para ser aquela coisinha. Digamos que amanhã ela comece a vida até bonitinha, com o marido que sustenta e tal, é a coisa mais comum que se vê. De repente o castelo cai, aí ela não tem condições de absolutamente nada, ela não foi preparada para a realidade. É preparada para ser mulher. Para uma bobeira, uma escravidão, uma ignorância total. Já nas escolas se ensina isso. Clara - Preparada para ser dependente. Maria - Isso são jogos de forças polares. A questão é o preparo a ser feito. A realidade não é você ter um marido sustentando você, é você amanhã se sustentar e também assumir o filho que quis ou não ter... Enfim, deve-se sintonizar com a realidade, e não com uma utopia importada de uma certa época do mundo. Soninha - Ou um sonho medíocre. Teve uma pesquisa de uns tempos atrás sobre aborto provocado. Foram milhares de entrevistas no Brasil inteiro. Apuraram o seguinte: proporcionalmente, as meninas das classes A e B fazem mais abortos do que as das classes C, D, E. Quer dizer, em números absolutos, as mais pobres engravidam muito mais, têm muito mais gravidez indesejada na adolescência. Mas, proporcionalmente, ocorrem mais abortos entre as meninas de classes A, B. Foram investigando o porquê. As meninas de classes A, B têm perspectiva de estudar, fazer faculdade, construir uma carreira, viajar, etc. As meninas de classes C, D, E já não imaginam muita coisa para elas mesmas, já não contam com fazer faculdade, trabalhar, viajar... Então aquela gravidez veio, puxa, era indesejada, mas fazer o quê? Uma hora isso ia acontecer mesmo... Clara - Mas elas também não têm dinheiro para fazer aborto. Soninha - Mas o exemplo que elas têm ao redor é de alguém que engravidou, teve um filho, depois outro, acabou ficando em casa mesmo, do jeito que deu. Então a gravidez não vem romper completamente os planos que elas tinham. O plano já não era muito bom mesmo. Clara - Se o aborto fosse legalizado será que seria assim também? Amelinha - O aborto é uma questão muito cara para nós, as feministas. Nós reivindicamos esse direito, pelo menos a descriminação do aborto. Quem é criminalizada duas vezes é a mulher, e a mulher pobre. O direito ao aborto traz um sentido de cidadania, eu poder decidir interromper uma gravidez indesejada, eu poder fazer isso. Não que isso vá resolver o problema do mundo, as mulheres têm que ter muitas outras coisas. Feminino - Queria que vocês falassem da mudança do papel da mulher na família. Muitas, hoje, são responsáveis pelo ganha-pão e, além de trabalharem fora, são mães, casadas, cumprem a dita tripla jornada. Vocês consideram isso um ganho ou uma perda? Soninha - Depende, quando é por opção é um ganho; quando ela é forçada a isso, não. O problema é que você tem muitas mulheres chefes de família por absoluta ausência de um parceiro, de alguém que divida. O que vemos hoje, principalmente quando se fala de classes C, D, E, é difícil chamar de família. A mulher é o arrimo da casa. E a casa implica em um monte de gente, às vezes agregados, filhos delas e da relação anterior do ex-parceiro. Amelinha - Dados reais do IBGE mostram que as famílias chefiadas por mulheres são mais pobres do que as outras. Quer dizer, o crescimento da chefia de mulheres nas famílias é o crescimento da pobreza. Raríssimas são as mulheres de classe média que podem dizer: eu vou fazer a opção, vou ser a dona desse pedaço, aqui homem nenhum vai entrar, não vai dar ordens. Você tem que ter grana para garantir isso. A segunda questão é que essas mulheres são provedoras, mas continuam exercendo as tarefas tradicionais das mulheres. Elas acumulam tarefas. Não é assim: ?agora eu sou chefe, estou emancipada?. Essas mulheres estão sobrecarregadas, e sobrecarregam toda a família. Essa mãe é estressada, tem dificuldade de se relacionar com seus filhos, porque às vezes ela nem tem tempo de encontrar as crianças. Muitas vezes essas crianças ficam na rua, vão se autocuidar. Tem uma pesquisa do Ministério da Saúde, de 29 de maio de 2006, que aponta as principais causas de morte de mulheres na idade reprodutiva, que é de 15 a 49 anos. Elas estão morrendo em primeiro lugar de AVC (Acidente Vascular Cerebral). Mulheres com menos de 50 anos não eram para estar morrendo de AVC. A segunda causa de morte é a aids. Há 20 anos eu não estaria falando aqui de mulher e aids. Era como se fôssemos inatingíveis. Não se traçou estrategicamente nenhuma política pública capaz de alcançar as mulheres. A terceira questão é o homicídio. São mortes violentas de mulheres, muitas dessas mortes chamamos de femicídio, que é aquele assassinato dentro da violência doméstica familiar, direcionado à mulher. Feminino - De que forma se dá hoje a luta pelos direitos femininos? Tornou-se uma batalha mais individual do que coletiva? Ou as ONGs assumiram esse papel? Amelinha - Direitos são sempre algo coletivo. É difícil a gente conseguir exercer um direito sem estar articulada dentro da sociedade. As mulheres estão muito mobilizadas. Nas universidades, hoje, são maioria. No mercado de trabalho estamos quase meio a meio. Se considerarmos o trabalho informal, é capaz até de sermos maioria em determinadas áreas. Elas estão participando de alguma forma. Agora, existem aquelas mulheres conscientes, organizadas, e aí há muitos grupos, inclusive dentro das instituições que eu diria que são ?masculinas?, como os partidos políticos, os sindicatos, as igrejas, universidades... Sempre há grupos de mulheres buscando levantar suas questões, embora não tenham visibilidade. E tem as organizações não-governamentais: esses grupos têm a capacidade de polemizar, de trazer questões para fazer avançar o processo, digamos, de emancipação das mulheres. Evidentemente que nós temos também muitas dificuldades: existem problemas muito objetivos desses grupos, porque têm pequena infra-estrutura. Soninha - Um dos problemas está na política propriamente dita, nos caminhos institucionais de participação política. O que temos hoje é uma gama enorme de maneiras de participar politicamente na sociedade: numa ONG, na internet, por meio da cultura, do esporte. As pessoas se organizam, militam e defendem bandeiras de muitas formas diferentes. E é muito bom que haja várias formas de participação. O problema é que as pessoas querem cada vez menos entrar na política mesmo. Há um desinteresse geral, uma rejeição total à política. Maria - A política está servindo à causa do bem-estar de quem está dentro dela, e não à causa da informação, da educação... Soninha - Mas ela vai servir a esses fins se os incomodados se mudarem para dentro dela. Sou totalmente a favor de outras formas de participação política. Mas ou a gente entra na política ou não consegue avançar tanto assim. A atuação nas ONGs tem um limite que esbarra na própria política: em quem vota a lei, em quem determina o orçamento, em quem fiscaliza a execução do orçamento. Como disse a Amelinha, a política tinha que incentivar as pessoas a entrar nela e, na marra, criar vagas para a renovação. Clara - Acho que tem um sintoma da época em que a gente vive: agregar é muito difícil. As pessoas são muito individualistas, cada uma faz sua coisa, seu blog, seu negócio da sua maneira, está tudo muito segmentado. O coletivo é muito difícil hoje em dia. Amelinha - Todos os movimentos estão em baixa. Maria - A decepção está em alta. Amelinha - Cadê a mobilização dos partidos políticos? Em outras épocas se investia na mobilização, inclusive na mobilização popular. Hoje eles não precisam disso, hoje é ter marqueteiro, ir à TV e se ganha a eleição. Não precisa ficar visitando, conversando, mobilizando o povo. O problema não é só com movimentos de mulheres. Existe sim essa mentalidade mais individualista hoje, até pela própria organização do trabalho. Perdemos a noção do coletivo. A forma de organização econômica, do trabalho, de uma certa forma estimulou muito essa individualização. Tem gente que trabalha na internet o dia inteiro. Quer dizer, ela está conversando com as pessoas, mas ela não está vendo ninguém. No corpo a corpo há uma força afetiva maior. Maria - A gente teria que achar uma linguagem nova para isso que a gente deseja, mas sem nostalgias. Os anseios, as qualificações, as oportunidades e as participações têm que ser dentro das novas linguagens. E elas podem ser. Mas eu não vou mudar o meu ser por causa das ferramentas. Soninha - A mulher que ficava em casa ouvindo o radinho estava ali ouvindo simplesmente, mão única. Se hoje ela passar para a internet já é mão dupla. Se ela fizer um blog, já está entrando num mundo de mão dupla. Maria - Classes B, C, D fazem blog? Soninha - Antes fizessem. Maria - Também acho que o que elas recebem de informação é muito ruim, porque a gente não está obrigando as novelas a terem uma certa qualificação. Big Brother, pelo amor de Deus, emburrece! Você pode repudiar um produto se ele apóia uma bobagem, você pode repudiar um alvejante, por exemplo. Soninha - Pela internet você divulga essa idéia como um rastilho de pólvora: boicotar um produto porque apóia um programa ruim. Feminino - Falando de mídia, vocês acham que a ditadura da beleza é mais violenta hoje do que já foi em épocas passadas? Maria - Se a mulher é idiota, ela depende em qualquer coisa, até na beleza. Não lembro de quem é a frase: ?você prefere ser verdadeira ou ser feliz?? A opção é essa: se ela quiser ser verdadeira, que eu acho que é o que ela deve desejar, normalmente ela vai estar vestida como quer. E hoje a moda permite tudo. Tem grife que você encontra na José Paulino e é igualzinha àquela outra da Daslu. Mas se ela quer ser feliz, talvez tenha que seguir certos padrões, aí depende das revistas que ela lê, dos modelos que ela tem. É esse que eu acho o ponto grave: a fonte de informação, o carimbo que é dado para essa mulher, que são limitantes. Dizem: ?você tem que ser assim.? Se ela quiser ser assim o problema é dela, realmente ela não será verdadeira. Clara - Acho um absurdo as pessoas culparem a moda pelas coisas. A culpa é das mulheres que não sabem ser elas mesmas, pelo amor de Deus! O problema é seu se você não é feliz com você mesma. Maria - Se ela não é feliz vai adotar uma aparência de feliz. Aí vem outro conceito: o de ser e parecer. Amelinha - Eu não culpo as mulheres de seguirem essa moda tão rigorosamente, porque eu acho que elas já são culpadas demais. Existe uma imposição tão forte. Tenho 62 anos, e quando tinha 50 as próprias mulheres, os médicos e médicas, queriam que eu usasse hormônio, e por quê? Com o hormônio você vai ficar mais magra, seu cabelo vai ficar mais brilhoso, a sua pele não vai ter tanta ruga. Essa imposição da eterna juventude está muito ligada a essa imposição da moda. Clara - É claro que (a imposição) é forte. Eu também já tive crise, achei que estava gorda, quando era adolescente tomei remédio para emagrecer. Mas aí é amadurecer, e se aceitar. Claro que já caí na imposição, acontece com todo mundo. Mas é uma questão de a gente lutar contra isso e ver o que é mais importante, e não se render. Maria - Eu acho que se você consegue equilibrar o seu interior, você está bem afetivamente, está amando, isso já aparece lá fora. Se você está ocupada com as coisas que você gosta, também. Se você sente correspondência das idéias que você tem, você vê que o projeto da felicidade não está do lado de fora, mas sim do lado de dentro. Aí sai tudo para fora, vira até hormônio (risos). Amelinha - Aí você curte a vida. Maria - Tem que curtir. Mas é nesse sentido que eu acho que não adianta você estar pintando o cabelo de verde se você pensa branco. A idade também é a idade do seu coração, do que você pensa. Naturalmente que por fora algumas rugas vão acontecer, mas eu não vou me dedicar a elas. Vou me dedicar a corresponder à minha felicidade. Acho que você é livre para fazer o que bem entende. Se você se qualifica pessoalmente, profissionalmente, pode sair com uma margarida na cabeça que todo mundo vai achar lindo, vai achar que é moda. E não é. É você que faz a moda, você que comunica, você que diz, e é responsável pelo que diz, pelo que parece, pelo que você sente. Clara - O problema é que os ícones femininos são muito bundões hoje. As meninas se espelham em umas mulheres muito bundonas: magras, com clareamento dentário, cabelos sedosos. Aí não dá mesmo. Soninha - Novamente, é educação. A gente escolheu: não, eu vou ser assim mesmo, e pronto. Mas outras pessoas ainda acham que para serem respeitadas têm quer ser magras e peitudas, ou têm que ter um celular não sei como, um carro não sei das quantas... Maria - Você não acha que é uma pessoa muito insegura que faz isso? Soninha - É lógico. Maria - Você não acha que, novamente, se essa pessoa sabe pensar não vai pensar assim. Você tem que dar a ferramenta pensamento. Amelinha - O sistema te engole. Não é racional. Você vê essas imagens o tempo todo. Feminino - Maria, como você viveu isso? Teve algum momento em que se rendeu? Maria - Fiz todas as opções, vivo uma opção muito feliz agora, estou amando, um grande amor e talvez não seja exatamente no caminho que se prefere dizer que é o habitual. Entende? Ao mesmo tempo sou avó, tenho quatro netos maravilhosos, tive um casamento interessante, tive um filho e vivo a realidade na melhor qualidade que ela me ofereceu. Mas já tive opções chatésimas. A gente vive nossas opções dia a dia, e claro que você chega aos 71 anos e não está ilesa, mas tudo que você fez foi de corpo inteiro. Feminino - Vocês acham que a mulher, hoje, faz bom uso da liberdade e diversidade sexuais conquistadas por ela? Impõe respeito e se respeita? Clara - Depende da mulher. Acho que tem algumas que estão andando para trás. Estão agindo como a minha bisavó provavelmente agia. Sabe aquela coisa de fazer um joguinho meio babaca para ganhar o cara? ?Ai, eu não vou dar hoje porque ele vai achar que eu sou fácil.? Minha filha, se quer dar, dê! Se ele pensar isso, ele é uma besta. Maria - E será que ele pensa? (risos) Soninha - Mas tem a burrice, uma coisa que acontece várias vezes: você luta tanto para conquistar um direito e depois vira uma obrigação. Posso transar também? Ok. Posso transar com várias pessoas, se eu quiser, e não com uma só, até eu morrer? Ok. Mas aí é o seguinte: se você não transar com vários: ?menina, você está perdendo a vida!? ?Ai, meu Deus! Estou atrasada, só tive dois até hoje.? Clara - A pessoa só tem que fazer o que ela quer, não tem que fazer nada que ela não queira. Não quer fazer, não faça, mas se quer fazer, faça. Maria - Eu estou com a Clara, faça o que você quer. E sobretudo faça com sentimento, sentimento, sentimento, com amor. Clara - E se quiser fazer sem sentimento não tem problema. Maria - Aeróbica também pode. (risos) Amelinha - Mas a questão é a seguinte: todo esse processo de educação sexista se dá como se fosse natural, e as pessoas acreditam nisso: eu sou mulher, naturalmente, nasci para quê? Para casar, para ter filhos. Agora, o homem já nasceu para experimentar várias, para ter uma sexualidade mais ativa. Isso é tão introjetado que não é de estranhar que você veja a própria menina defendendo essas idéias. Acho que essa é a grande vitória das idéias reacionárias: elas se tornam verdade única e todo mundo entra. Somos um padrão diferenciado, viu gente? Estamos aqui porque somos engajadas, somos críticas e resistimos a isso. Mas a maioria entra nessa tranqüilamente. Maria - Eu vou fazer uma colocação: se você vive de outra maneira, é muito criticada. Não estou me importando, mas eu sou muito criticada. Tem gente que chegou até a ter prejuízos materiais por causa disso. Essa é uma experiência que eu tive. A minha ruptura de padrões causou conseqüências materiais muito pesadas. Clara - Claro, tem umas coisas que são tão vis que as pessoas falam, que nos pega mesmo. Na verdade a gente sabe que não é para se importar, mas às vezes pegam. Amelinha - Temos caminhos para resolver, inclusive caminhos oficiais, legais, é uma conquista recente das mulheres. Maria - Mas quando você entra em uma delegacia para fazer um B.O. você encontra sempre o machismo instalado. Amelinha - Gente, nós estamos em 2007, e só em 2002 é que foi promulgado o Código Civil que defende a igualdade de direitos entre mulheres e homens no casamento, na família. Temos uma formação jurídica extremamente sexista. Até 2002, o código Civil vigente era o de 1916, que dizia que o homem era o chefe da sociedade conjugal. O homem podia pedir a anulação de um casamento, até dez dias depois, se ele detectasse que ela não era virgem quando casou. Convivíamos com essas barbaridades, estão muito próximas de nós. A mentalidade é mais difícil de mudar do que as leis. Maria - Olha, vou falar uma coisa: eu abri muitos caminhos para vocês, mais do que vocês imaginam. Amelinha - Eu acredito que você tenha contribuído muito. Soninha - Pior do que essas regras escritas, porque assim você identifica o inimigo, são as regras não escritas e que você segue. Feminino - O que vocês acham que falta para as mulheres serem mais felizes hoje? Maria - Serem mais verdadeiras: elas não devem se limitar tanto nos seus impulsos, nos seus instintos, na questão do prazer, das escolhas. A mulher deve viver com quem quer, como ela quer, desde que haja uma qualidade nesse viver e uma coerência da pessoa. A qualidade de vida dela depende do grau de verdade que ela pode viver. Senão você já pensou os conflitos, as neuroses? Temos que acabar com as neuroses. As mulheres devem apoiar as outras mulheres. Estou sugerindo que as jornalistas mulheres, que as advogadas mulheres, que delegadas mulheres olhem para essa questão, que não é formal, é uma questão essencial. O posicionamento tem que ser coletivo, uma consciência geral, não pode ser uma ou outra gritando em cima do muro. Quando você vir uma mulher numa complicação, deve sempre estar do lado dela. Antes de mais nada, a gente tem que ter essa coerência, esse coleguismo, saber que por algum motivo essa mulher está sendo prejudicada pela qualidade dela, de ser mulher. Precisamos sair dessa questão cosmética. As mulheres devem ser menos cosméticas e mais essenciais. E devem tornar públicas as perseguições. Devem ter a coragem de pôr a boca no trombone, o que não é fácil, é pesado, mas tem que fazer. Amelinha - Penso que o mundo é o mundo dos homens. O paradigma é o homem branco, é o homem de elite, e as mulheres ainda estão muito distantes de serem reconhecidas como pessoas dignas na construção desse mundo. Acho que esse é um rompimento que a gente faz às vezes, teoricamente, numa roda de amigas, mas que ainda não aconteceu para valer na sociedade. Nós temos conquistas? Acho que temos, só de estarmos aqui... Acho que todas aqui são poderosas, e esse poder não é individual, é um poder conquistado pelas mulheres, pelo coletivo. Mas penso que ainda estamos pegando as migalhas dessas conquistas. Eu acho que nós temos que inverter a ordem do mundo e tem que mudar mesmo. Falo de mudança do paradigma: as instituições têm que ser rompidas. Nós temos que fazer ainda uma reviravolta, botar esse mundo de perna para o ar. Clara - Não vai acontecer nada sem grandes ícones, sem grandes mulheres para agregar as outras mulheres que estão dormindo do lado de um cara, aliás, embaixo de um homem, melhor dizendo, e achando que está tudo bem, mas não está. Soninha - A Maria falou várias vezes do nosso poder de decisão inalienável, da possibilidade de decisão. As mulheres precisam saber que têm esse poder. Maria - Elas são grandes compradoras, podem ser também grandes rejeitadoras. Soninha - Precisam saber que têm poder de decisão. Saber que podem escolher qualquer coisa, casar ou não casar; ser virgem ou não ser; transar com dez ou transar com um; engravidar ou não engravidar. É o poder de escolha. As mulheres têm que saber mais o que elas podem. Tem uma frase que eu já fiz até um adesivo: ?a gente já tem mais liberdade e mais poder do que a gente de fato usa?. Elas não sabem que têm aquele poder de decidir, denunciar, cobrar, exigir. Mas já temos esse poder.