Pesquisador do Ipea questiona creches

Fabiana Cimieri, RIO - O Estado de S.Paulo

Segundo Ricardo Paes de Barros, modelo atende mais às mães

Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), disse que o governo pode ter feito "a escolha errada" ao incluir recursos para construir creches no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica. Para ele, o Fundeb "faz um serviço um pouco atrapalhado", pois não permite que as prefeituras optem por outro modelo de educação infantil de 0 a 3 anos, como programas interdisciplinares de visitação que incluem orientações sobre saúde, educação e assistência social. "O acesso universal à creche é uma utopia, mesmo nos países com melhores indicadores esse índice não ultrapassa 50%. Temos de pensar num sistema de triagem e monitoramento universal", disse, na Conferência Global sobre Desenvolvimento da Educação Infantil, realizada pela prefeitura do Rio e o Banco Mundial. Barros citou o programa Primeira Infância Melhor (PIM), do Rio Grande do Sul, que atinge 50% das crianças de 0 a 6 anos de famílias que ganham até meio salário mínimo e é inspirado no modelo cubano.Iniciado em 2003, custa de 6,6% a 10% do necessário para manter uma creche e consiste em visitas semanais domiciliares para orientação sobre saúde e desenvolvimento cognitivo e emocional. Segundo o secretário estadual de Saúde do RS, Osmar Terra, o PIM custa, por criança, R$ 600/ano; a creche, no mínimo, R$ 8 mil.Não há pesquisas recentes que mostrem o impacto da creche de 0 a 3 anos no desenvolvimento infantil. Estudos baseados em questionários aplicados na década de 1990 mostram que há um impacto positivo da pré-escola (4-6 anos) no sucesso escolar futuro. "Não encontramos impacto de 0 a 3 anos", disse Barros. Com base em pesquisa com mil crianças em cem creches do Rio, feita a pedido da prefeitura e coordenada por Barros, ele diz que "a creche tem grande impacto na redução do stress das mães". Para ele, deve-se levar em consideração qual é o melhor modelo para a educação infantil e a implementação de uma política de gênero para atender às mães que precisam retornar ao mercado de trabalho. "O Primeira Infância Melhor parece excepcionalmente bom, mas atende menos ao direito das mulheres", analisa.