Pesquisa no espaço pode levar a remédio melhor contra salmonela

Carlos Orsi - O Estado de S.Paulo

Em menor gravidade e em ambiente similar ao do corpo humano, bactéria ficou mais virulenta

Bactérias levadas ao espaço pelo ônibus espacial Atlantis em 2006 tornaram-se bem mais letais que outras cultivadas nas mesmas condições de temperatura e umidade, mas sem sair da Terra, mostra um experimento descrito no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). Aplicada em ratos, a variedade espacial matou 90% dos animais em 25 dias, ante 60% dos que não resistiram à versão terrestre.  Leia mais sobre o experimento Segundo uma das autoras, Cheryl A. Nickerson, da Universidade Estadual do Arizona, a causa mais provável desse aumento no potencial destrutivo da Salmonella typhimurium (que causa intoxicação alimentar em humanos), é o efeito da microgravidade no meio onde as bactérias são cultivadas. Sem peso, não há sedimentação, e o arrasto (força) exercido pelo líquido ao passar sobre os micróbios também é reduzido. Na comparação entre as bactérias enviadas ao espaço e as que permaneceram na Terra, os pesquisadores descobriram diferenças na expressão de 167 genes, principalmente os relacionados a uma proteína, Hfq, ligada à reação ao estresse e à promoção da virulência de vários microorganismos, não só da salmonela. Isso poderá ajudar no desenvolvimento de vacinas e antibióticos. A redução nas forças exercidas pelo fluido, sentida pelas bactérias no espaço, assemelha-se a algumas condições que surgem durante o ciclo de vida normal dos microorganismos, inclusive em hospedeiros. Áreas de baixo arrasto de líquido no corpo humano incluem o estômago e o útero. "Usamos os vôos espaciais como plataforma de pesquisa para o controle de doenças." AMEAÇA? Cheryl não descarta a possibilidade de haver um efeito da radiação espacial na amostra, mas diz que experimentos em simuladores de baixa gravidade na Terra também geraram bactérias mais resistentes. "Há bastante evidência de que é a ação do fluido sobre as células em microgravidade que gera esses efeitos." A bactéria "sente" as mudanças no ambiente e ajusta sua bioquímica. Então bactérias inócuas carregadas no corpo de astronautas podem voltar transformadas em organismos letais? Não exatamente, diz a cientista. "Nossos resultados indicam apenas que o crescimento em cultura líquida no espaço pode aumentar a virulência", explica, lembrando que o corpo humano tem condições diferenciadas das do espaço. "Quando outros fatores entram em jogo, como as forças que atuam sobre o corpo, o sistema imunológico, os antibióticos e a terapia, a resposta pode mudar." Avaliar o efeito do espaço em microorganismos incubados numa pessoa exigiria experimento específico. "Astronautas têm ido e vindo, com risco mínimo de doenças para eles mesmos e nenhum para outras pessoas."