Pesquisa é para garantir autonomia, diz cientista

- O Estado de S.Paulo

Mesmo com a opção de obter células-tronco embrionárias "prontas" do exterior, cientistas brasileiros consideram essencial que o País tenha capacidade de produzir suas próprias linhagens. "Se um dia isso virar terapia, temos que ter autonomia", defende Lygia Pereira. "Já pensou se não soubéssemos cultivar medula óssea? Estamos aprendendo a fazer o básico. Não vai render prêmio Nobel nem vai sair na capa da Nature, mas é algo que precisa ser feito."Para o pesquisador José Eduardo Krieger, do Instituto do Coração (Incor), mais importante do que as células é a competência científica que precisará ser criada para chegar até elas. "Não queremos só uma linhagem ?verde e amarela?, queremos especialistas que saibam trabalhar com essas células", disse. "Se só seguirmos a receita do que já foi publicado lá fora, não vamos chegar a lugar nenhum."A primeira linhagem de células-tronco de embriões humanos foi isolada pelo americano James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison, em 1998. Desde então, as células-tronco se transformaram em um dos campos mais promissores, disputados e polêmicos da biomedicina. Muitas outras linhagens foram estabelecidas e uma quantidade enorme de literatura científica já foi publicada sobre o tema.Ainda assim, fazer a pesquisa com as próprias mãos permanece um desafio. Como na culinária, é preciso mais do que um livro de receitas para formar um chef, compara Krieger.A publicação recente de dois artigos sobre a capacidade de produzir células pluripotentes (equivalentes às embrionárias) sem o uso embriões não diminuiu o entusiasmo dos cientistas pela pesquisa. A nova técnica, segundo eles, só foi desenvolvida graças ao conhecimento acumulado de anos de pesquisa com células embrionárias, e continuará a depender dela para seguir adiante.O método busca mimetizar a plasticidade das células embrionárias em células adultas da pele, por meio de manipulações genéticas. "Você só pode ensinar uma célula a se comportar como a de um embrião se souber como as células do embrião de fato funcionam", aponta Lygia. "Caso contrário, é como tentar copiar um Picasso sem o original."