Perigo oculto

Bia Fugulin - O Estado de S.Paulo

Alimentos mal conservados, toalha suja e até esponja velha na pia podem ser nocivos para a saúde

Bem debaixo dos nossos olhos, trava-se uma guerra invisível, que só é levada em conta quando alguém adoece em casa , vítima de pequenos e microscópicos seres, conhecidos como germes. Esses animais rudimentares habitam todos os cômodos da casa e, assim como os humanos, adoram a cozinha, embora estejam presentes também em outros lugares da casa.

A limpeza adequada e a correta preparação e conservação dos alimentos já bastam para mantê-los afastados, evitando-se contaminações. Segundo o biomédico Roberto Martins Figueiredo, popularmente conhecido como "o doutor Bactéria", devido ao quadro homônimo que apresentava no programa Fantástico, da Rede Globo, a contaminação por falta de higiene já começa pelas mãos.

"Mais de 80% das infecções comuns são contraídas e transmitidas pelas mãos, e podem ser evitadas lavando-as com água e sabão", recomenda. Já a não adoção de tal costume, principalmente após o uso do banheiro, é responsável pela transmissão dos microrganismos provenientes das fezes, que causam diarreia.

COZINHA: ESPAÇO PREDILETO

O mais importante foco de microrganismos numa casa é a cozinha, por ser o local que recebe diariamente verduras e legumes, carnes, entre outros alimentos, que chegam repletos de germes. A forma de contágio mais comum nesse ambiente é a contaminação cruzada: quando um alimento contaminado leva bactéria para outro local ou alimento, até chegar ao consumo humano.

As doenças mais corriqueiras decorrentes desse tipo de contaminação são salmonelose, estafilococose e verminoses diversas. Para precaver-se, o biomédico recomenda limpeza diária de pisos e azulejos com uma solução de água e detergente, seguida de outra solução de água e água sanitária, além da substituição semanal de esponjas de pia.

A preparação dos alimentos é fundamental para evitar patologias decorrentes de microrganismos, principalmente quando serão consumidos crus. É o caso das verduras: devem ser lavadas em água corrente e, depois, têm de ficar de molho numa solução de água com água sanitária.

Já o armazenamento de alimentos merece cuidado específico, como diz Figueiredo: "após saírem do aquecimento, podem permanecer até duas horas fora da geladeira." Quando forem quentes para a geladeira, têm de estar descobertos: deve-se tampá-los somente após duas horas.

No banheiro, a história começa com o banho, que deve ser diário. Uma boa ducha com sabonete elimina restos de pele descamada, diminui a população bacteriana da superfície do corpo, retira a gordura, serosidades e impurezas, que são veículos para disseminar a infecção da pele.

As toalhas e a descarga são os pontos que merecem atenção especial. Segundo o biomédico, não se deve dar descarga com a tampa do vaso sanitário aberta, pois os germes vão para o ar e ficam no ambiente por até duas horas, contaminando as escovas de dentes (se estiverem expostas) e o que estiver na pia ou bancada.

O biomédico recomenda a pulverização das escovas de dentes a cada escovação, com gluconato de clorhexidina, para eliminar microrganismos provenientes do ambiente, dos alimentos e da própria boca.

CUIDADOS EXTRAS

Asma, rinite e alergias diversas são estimuladas pela presença de ácaros e fungos. Por isso, quem sofre com essas patologias deve trocar lençóis, cobertores e edredons com maior frequência: lençóis a cada três dias e cobertores uma vez por semana, para que não dê tempo de esses microrganismos se acumularem e desencadearem uma crise alérgica.

Com relação a animais de estimação, o biomédico é taxativo: "a posse responsável sempre deve fazer parte dos cuidados com os animais." Isto quer dizer, levá-los rotineiramente ao veterinário, mantê-los em espaço adequado para o seu tamanho - limpo e desinfetado -, não deixar que fiquem lambendo o rosto dos donos e sempre lavar as mãos após brincar com eles. Sem os cuidados adequados, podem ser transmissores de doenças como toxoplasmose, salmonelose e alergias.

 

EXAGERO PODE INDICAR DOENÇA

E quando a preocupação com a limpeza torna-se excessiva? Atitudes como lavar as mãos a todo momento, sentir-se obrigado a limpar aquilo que já está limpo, repetir o trabalho que a faxineira fez, por acreditar que ela não o executou satisfatoriamente, são alguns dos sinais comuns ao Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), uma doença mental crônica que se manifesta pela presença de obsessões e compulsões.

De acordo com a psiquiatra Ana Hounie, vice-coordenadora do PROTOC (grupo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, que pesquisa e oferece tratamento para quem sofre do transtorno), a manifestação do TOC provoca angústia, consome tempo, interfere de maneira significativa no trabalho e na vida social. "Essas obsessões provêm da própria mente. Não são apenas excesso de preocupação sobre problemas reais, e as compulsões que realizam são excessivas e pouco razoáveis", comenta a psiquiatra. A maioria das pessoas acometidas por esse transtorno reconhece isso em um determinado momento.

A lista de manias relacionadas à contaminação e limpeza é imensa. Não é raro pacientes relatarem que pediram para as pessoas tirarem os sapatos antes de entrar em casa ou, em casos mais graves, até a roupa.

Embora seja uma doença crônica, o psiquiatra ou psicólogo pode ajudar a melhorar bastante a qualidade de vida desse paciente, seja por meio do controle do transtorno ou até mesmo da sua cura.

Para mais informações sobre o PROTOC, tel.: 3069-6972.