Pelos pobres, muita ousadia e trabalho

José Maria Mayrink - O Estado de S.Paulo

A baiana Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes foi uma moça decidida desde os 13 anos de idade, quando transformou a casa da família num centro de atendimento aos pobres.Maria Rita tinha quatro irmãos quando perdeu a mãe, Dulce Maria, após o nascimento da caçula, que também morreu. Seu pai, o cirurgião dentista Augusto Lopes Pontes, não se surpreendeu quando a filha comunicou que ia entrar no convento. Maria Rita, que já pertencia à Ordem Terceira de São Francisco, formou-se na Escola Normal da Bahia em 1932 e no ano seguinte entrou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Fez o noviciado em Sergipe e, ao proferir os votos religiosos, recebeu o nome de Irmã Dulce, uma homenagem à mãe. De volta a Salvador, foi trabalhar no recém-criado Hospital Espanhol, como porteira, sacristã e enfermeira.Irmã Dulce dava aulas no Colégio Santa Bernadete, em 1935, quando começou a dar assistência aos operários na Península de Itapagipe. Criou um posto médico nos Alagados e, no ano seguinte, fundou a União Operária São Francisco, que depois se chamaria Círculo Operário da Bahia. Para manter a obra, ajudou a construir três cinemas, os cines Roma, Plataforma e São Caetano. Em 1939, inaugurou o Colégio Santo Antônio para educação dos operários e seus filhos - 300 crianças durante o dia e 300 adultos à noite.Nessa época, invadiu cinco casas na Ilha do Ratos para abrigar doentes que recolhia nas ruas. Foi expulsa e passou dez anos rodando com eles pela cidade até conseguir alojá-los no galinheiro do Convento Santo Antônio. Quando a madre superiora deu pela falta das galinhas, Irmã Dulce confessou ingenuamente que elas já estavam na barriga dos seus pobres. Eram 70, os primeiros assistidos do Hospital Santo Antônio, que ali estava nascendo.Por 30 anos, dormia quatro horas por noite sentada numa cadeira. Comia quase nada, só arroz e legumes num pratinho de sobremesa. Era uma mulher magra e já muito debilitada em 1980, quando foi beijar a mão de João Paulo II, na primeira viagem ao Brasil. Ao voltar a Salvador, em 1991, o papa fez questão de visitá-la no Convento de Santo Antônio. Cinco meses depois, Irmã Dulce morreu.