Pele humana vira célula igual a de embrião

Herton Escobar - O Estado de S.Paulo

Método revolucionário pode acabar com polêmica sobre o uso de embriões para pesquisa médica

Cientistas podem ter encontrado a solução para o problema ético das pesquisas com embriões humanos. Dois trabalhos independentes publicados ontem relatam a produção de células pluripotentes (equivalentes a células-tronco embrionárias) sem a necessidade de embriões ou óvulos. Até agora, isso só havia sido feito com células de camundongos. Saiba mais sobre a descoberta As células-tronco embrionárias são células indiferenciadas e pluripotentes, capazes de formar qualquer tecido do organismo. Tradicionalmente, são obtidas de embriões congelados, produzidos em clínicas de fertilização in vitro. O problema é que o embrião é destruído no processo, o que levanta uma série de objeções éticas ao processo. A solução encontrada pelos pesquisadores foi transformar diretamente células adultas em células embrionárias. Em um dos estudos, liderado pelo japonês Shinya Yamanaka, da Universidade de Kyoto, foram usadas células da pele (fibroblastos) do rosto de uma mulher de 36 anos. No outro, coordenado pelo americano James Thomson, da Universidade de Wisconsin-Madison, foram usados fibroblastos de fetos e do prepúcio de recém-nascidos. Em ambos os casos, os cientistas utilizaram genes de células embrionárias para "reprogramar" as células adultas, fazendo com que elas passassem a se comportar como células indiferenciadas. REPROGRAMAÇÃO A técnica pode ser pensada, literalmente, como uma reprogramação genética. Os genes selecionados funcionam como um software que formata a célula de volta ao seu estado indiferenciado original. A partir daí, como ocorre nos embriões, a célula pode ser induzida a se transformar em qualquer tipo de tecido, como pele, músculo, ossos e nervos. "Isso muda tudo (do ponto de vista ético), porque as células não precisam mais ser retiradas de embriões", disse Thomson, em uma entrevista coletiva por telefone. "Por outro lado, não muda nada (do ponto de vista científico), porque nos leva de volta à ciência básica das células-tronco." A expectativa dos cientistas é, um dia, usar essas células em terapia para repor tecidos danificados por doenças ou lesões. Teoricamente, seria possível colher células da pele de um paciente, induzir a pluripotência in vitro, diferenciá-las em tecidos específicos e transplantá-las de volta para o paciente. Como as células viriam da própria pessoa, não haveria risco de rejeição. Outra maneira de chegar a isso seria pela "clonagem terapêutica", na qual a célula adulta é inserida em um óvulo para formar um embrião clonado, do qual podem ser extraídas células-tronco. A técnica já foi usada com sucesso em camundongos e, muito recentemente, em macacos resos, mas nunca em seres humanos - apesar de muitas tentativas. Além das dificuldades técnicas, há dificuldade para obter óvulos suficientes para pesquisa. Para Thomson, a reprogramação genética pode ser uma alternativa mais simples e barata - e livre de polêmicas - ao uso de embriões. "Acho que o caminho do futuro será esse", disse. "Não fizemos isso para evitar polêmica; fizemos porque achamos que é uma opção mais prática, que poderá nos levar aos resultados que queremos mais rapidamente." Ainda assim, nenhum dos pesquisadores acha que as pesquisas com embriões deva ser abandonada. Nem mesmo as tentativas de clonagem terapêutica. Mesmo porque o desenvolvimento da nova técnica só foi possível graças a muitos anos de pesquisas com células embrionárias, que permitiram aos cientistas aprender sobre o desenvolvimento celular e identificar genes responsáveis pela pluripotência. "Com o tempo, acho que será possível substituir as células-tronco embrionárias, mas ainda não estamos nesse ponto", disse Thomson. O ideal, segundo ele, é que as duas técnicas caminhem lado a lado. "Se os cientistas sentirem que podem ter mais sucesso com uma do que a outra, haverá uma migração natural", disse. Thomson e Yamanaka são pioneiros da área. O americano foi o primeiro a isolar células-tronco de embriões humanos, em 1998. O japonês foi o primeiro a transformar células adultas em células embrionárias: primeiro em camundongos, em 2006, e agora, em seres humanos. Outro pioneiro, Ian Wilmut, responsável pela clonagem da ovelha Dolly, anunciou na semana passada que iria abandonar suas pesquisas com clonagem terapêutica para se dedicar à reprogramação genética. BARREIRAS A técnica ainda está longe de ser usada - ou até testada - clinicamente. As células produzidas pelos cientistas (chamadas de "células-tronco pluripotentes induzidas", ou iPS, em inglês) são muito semelhantes, mas não idênticas, às células-tronco embrionárias de fato. Testes confirmam que elas são pluripotentes (têm potencial para formar qualquer tecido), mas pouco se sabe ainda sobre seu comportamento. "Mais estudos serão essenciais para determinar se as células iPS humanas poderão substituir as células-tronco embrionárias em aplicações médicas", dizem os cientistas japoneses. Um risco da reprogramação é que o vetor utilizado para introduzir os genes na célula é um vírus. Apesar de não ser um vírus nocivo, os cientistas não têm como controlar onde os genes são inseridos no genoma- é um processo totalmente aleatório. Imagine, mais uma vez, um software: se a mensagem for gravada no lugar errado, pode interferir em algum outro programa vital da célula, causando mutações nocivas. "Ambos os trabalhos são avanços importantíssimos, mas ainda vamos precisar das células-tronco embrionárias por muitos anos", avalia o pesquisador brasileiro Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que defende as pesquisas com embriões. Já a colega Claudia Batista, também da UFRJ, que é contra as pesquisas com embriões, acha que as células iPS podem substituir completamente as embrionárias. "É uma técnica muito simples, o que é ainda melhor", disse. O trabalho japonês foi publicado na revista Cell e o americano, na revista Science.