Pé na estrada

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

Conheça as histórias de mulheres que assumiram o comando dos mais variados meios de transporte

Contrariando a lenda de que não são boas motoristas, as mulheres têm hoje mais benefícios que os homens na hora de fechar contrato de um seguro de automóvel. Isso porque, pelas estatísticas, mostram-se mais cuidadosas e obedientes às leis do trânsito. Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em 2008, elas representaram cerca de 29% do total de condutores habilitados, mas apenas 12% do total de motoristas envolvidos em acidentes de trânsito no País.

 

Marcia Regina Laffratta Cardoso, por exemplo, poderia ser daquelas pessoas insuportáveis de tão exibidas. Pois não é qualquer um que carrega a patente de piloto de avião e de helicóptero - ainda mais tratando-se de uma moça de 26 anos. Porém, é uma garota tímida, de voz mansa e total controle das palavras. Entrou para a Academia da Força Aérea (AFA) em 2002, e formou-se quatro anos depois. Seu primeiro voo foi tenso. "Estava ansiosa. Afinal, estudei muito para chegar lá. É muita pressão", conta. Lá em cima, diz que não dá para pensar em nada. Tem de ficar atenta. "É muita concentração."

 

Quando chegou à AFA, já havia outras mulheres. Mas, numa turma de 30 homens, eram apenas 3. Escolheu servir no Esquadrão Pelicano, cuja principal incumbência é executar as missões especializadas de Busca e Salvamento. Tem de se manter em permanente estado de alerta para decolagem em poucos minutos, atendendo a situações de emergência na terra ou no mar. E também tem as chamadas operações especiais, em que os helicópteros são armados com metralhadoras e lançadores de foguetes. Para se ter uma ideia, o lema do esquadrão é: "para que outros possam viver!"

 

Marcia casou-se no fim do ano passado com um também piloto, mas de outro esquadrão. "É difícil nos encontrarmos. Passamos muito tempo nas missões. Mas de vez em quando conseguimos", brinca.

 

 

MAIOR TREM DO MUNDO

A maranhense Marcely Rose Sousa Lima, de 26 anos, perdeu as contas de quantas vezes viajou de trem durante a infância. Tinha tanta curiosidade de saber a função de cada um daqueles botões que piscam no painel que acabou se matriculando num curso técnico de mecânica. Seu sonho era fazer parte do quadro de funcionários da Companhia Vale do Rio Doce. O que não imaginava é que um dia viria a ser a maquinista do maior trem de carga do mundo!

 

Marcely "arrasta" um trem que transporta cerca de 35 mil toneladas de minério de ferro. São 4 locomotivas, 330 vagões carregados e nada menos do que 3,3 quilômetros de extensão. "Quero fazer isso por muito tempo", diz, empolgada. O detalhe é que, quando entrou na Vale, não tinha carteira de motorista. Hoje, acha muito mais difícil dirigir um carro do que o trem. "Carro tem volante, cinco marchas e ainda tem de fazer curva. O trem só tem duas marchas, nada mais!"

 

O começo da carreira foi difícil. Tinha 18 anos e era a única mulher em um grupo de 120 empregados. Não conseguia instrutor, pois eles só queriam ensinar homens - talvez porque, antes dela, algumas mulheres haviam desistido por não se adaptar. "O processo é longo, árduo, tem de estudar muito, passar por situações que exigem muito do físico. Enfrentei até um descarrilhamento", lembra.

 

A moça não escapou das cantadas. Tanto que se casou com um maquinista de viagem (ela é de carga), que jura ter conhecido fora da empresa. Com ele, tem um filho de 5 anos.

 

 

NO COLETIVO

Aos 14 anos, Andréa Maria Fazolin, hoje com 38, já era costureira. Aos 20, foi trabalhar como escriturária em uma agência bancária. Cinco anos depois, ficou desempregada e começou a enviar currículo para as poucas empresas que admitem mulheres como motorista de ônibus. Foram dois anos de persistência até conseguir uma vaga. Passou por um treinamento e logo começou a comandar um micro ônibus da linha Diadema-Piraporinha.

 

"No começo, os passageiros ficavam assustados", lembra ela, que é casada há 14 anos e mãe de uma garota de 9. Certa vez, uma mulher disse ao marido que não subiria no ônibus porque o motorista era uma mulher. "Eu dava risada. Ela teve de subir e, no fim da viagem, me disse que estava surpresa."

 

Há três anos, Andréa mudou para a Metra, uma concessionária do estado de São Paulo, onde se consagrou como a primeira mulher no quadro de funcionários que assumem esta função (hoje são 16). Começou em micro ônibus e, um ano depois, foi promovida e passou a dirigir ônibus. Agora está no comando de um veículo novinho, que tem 14 toneladas, 15 metros de comprimento, 3 eixos, 270 cavalos, 5 cilindros e capacidade para 96 passageiros.

 

O tamanho não a assusta. "Quanto maior, melhor, pois tenho mais visão."

 

 

DEBAIXO DA TERRA

Quem já andou de metrô deve ter ouvido uma voz suave, para não dizer sensual, anunciando qual seria a próxima estação. Como ela está ali, só e isolada na cabine, nem sabe o que os passageiros comentam. "Certa vez, um senhor me esperou descer só para me dar os parabéns", conta, orgulhosa, a operadora de trens da Companhia do Metropolitano de São Paulo (o Metrô), Vilma Marchesini. "As pessoas ficam admiradas, mas eu acho que é uma profissão normal."

 

Ela trabalha na empresa há 12 anos e, há cerca de 3, participou de um concurso interno para operador de trem. Passou por um longo treinamento, diversos cursos de mecânica e elétrica, e sempre tem aulas de reciclagem. "Não imaginava que viraria operadora", conta. Do total de 880 operadores, 112 são mulheres (a equipe feminina começou a ser formada há 24 anos).

 

Vilma conta que, quando está em um ambiente novo, as pessoas se admiram com sua profissão. Fazem perguntas sobre o equipamento, querem saber como é a manutenção diária e tudo mais. Ela assusta-se quando pensa que é responsável por 1.600 pessoas que lotam o trem de 130 metros. Pois sabe que cada uma tem um compromisso, um horário para chegar ao seu destino e, geralmente, estão atrasadas - ou, no mínimo, com pressa. "Penso na quantidade de pessoas que tem ali e multiplico por 16 (o número de trens em circulação). Tem de ter muita atenção. É muita responsabilidade."

 

Ah, e quando ouvir uma voz masculina anunciando as estações, nem sempre é um homem que está no comando. Pode ser uma mulher que apertou o botãozinho da opção digital do alerta das estações.

 

PELAS ESTRADAS DA VIDA

Ela está sempre perfumada, de unhas esmaltadas, batom, uma maquiagem bem leve, cabelos arrumados e um belo sorriso no rosto. "Quem me vê pensa que estou indo para um escritório", brinca a motorista carreteira Solange Emmendorfer Beraldes, casada, mãe de três moças e avó de uma garotinha de 7 anos. Quem bate em sua porta pela manhã vai encontrá-la dormindo. Quando acorda, cuida dos afazeres domésticos e à tarde dorme mais um pouquinho para seguir ao trabalho no fim do dia. "Descanso é fundamental na minha profissão", ressalva. Lá, pega sua carreta e segue viagem para onde a empresa mandar. E volta sempre no fim do expediente - as viagens são curtas mesmo - para continuar sua rotina de mãe, esposa e trabalhadora.

 

Solange estava procurando emprego e viu o anúncio de uma empresa que prometia boa oportunidade para mulheres que tivessem carteira de motorista categoria D, o seu caso. Foi contratada e começou a dirigir caminhão de pequeno porte, mas sempre prestou atenção nos motoristas manobrando aquelas carretas gigantes. "De tanto olhar acabei me interessando e pensei: por que não?", conta. Quando se deu conta já estava em treinamento para dirigir carreta. Quando desci da carreta pela primeira vez estava suada, mas tão suada, que parecia que tinha feito xixi", ri. Dois meses depois já estava pegando a estrada. Viajar sozinha é sua terapia. Vai cantando e, vez ou outra, vira atração por onde passa. Certa vez, havia uma obra na estrada e quando um dos peões viu que era uma mulher, deu um grito."Já teve até motorista de outro caminhão que parou só para tirar uma foto", recorda-se. Ela mesma se impressiona quando vê alguma mulher comandando uma carreta. "Estamos quebrando barreiras."