Paulistano não se preocupa com destino do lixo

- O Estado de S.Paulo

Com o fim das usinas de compostagem, resíduo orgânico vai para aterros

A vista é linda! Do terceiro pico mais alto do Estado de São Paulo - 155 metros -, é possível avistar a Serra do Mar e muito verde. Há o Morro do Cruzeiro de um lado, a cidade de Bertioga, no litoral paulista, do outro. E o Aterro Sanitário São João, na zona leste da capital, bem abaixo dos pés: a montanha de lixo é a mais alta do mundo e qualquer boa impressão acaba na paisagem. Trata-se de um dos maiores problemas do município: os resíduos produzidos por sua população.São Paulo lança diariamente 15 mil toneladas de lixo nos aterros, 70% do total vindo das casas. Metade é orgânico, que durante a decomposição emite metano, um dos mais poderosos gases de efeito estufa. "O encaminhamento do lixo orgânico deveria ser a preocupação mais importante na gestão de resíduos", diz o professor Paulo Figueiredo, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Metodista de Piracicaba. Ele é autor do livro A Sociedade do Lixo e defende que a atenção dada à reciclagem de resíduos sólidos é motivada por sua importância social e econômica, não necessariamente ambiental. Isso diminuiria, segundo ele, os cuidados com os de origem orgânica. A solução sugerida? Transformar os restos de alimentos e o lixo orgânico reunido pela varrição e podas de árvores em adubo. "Estamos num país com forte atuação agrícola e, no entanto, utilizam-se defensivos químicos em vez de reaproveitar a grande massa de adubo que pode ser feita com a compostagem", diz Figueiredo. "Há biodigestores que transformam matéria orgânica em adubo em poucas horas."Enquanto vários países adotam a técnica para reduzir o volume enviado aos aterros, a cidade desativou suas duas únicas usinas - São Mateus e Vila Leopoldina -, após mais de 30 anos de funcionamento. O motivo: reclamações da vizinhança por causa do mau cheiro e a alegação de que o adubo era de má qualidade."As usinas da capital começaram a funcionar na década de 70 e, naquela época, o lixo se resumia a material orgânico, papelão e vidro", afirma o administrador da Usina de Compostagem da Vila Leopoldina, Valter José de Lima. Foi nos anos 80 e 90 que surgiram embalagens de alumínio e plásticos com destino único: o lixo. Lima argumenta que não houve investimentos necessários para garantir a boa qualidade do adubo frente às mudanças de consumo dos paulistanos. PLANEJAMENTO"Faltou planejamento", diz o diretor da divisão de aterros sanitários do Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb), Danilo Eleutério Filho. Para ele, não há mais lugar em São Paulo para a retomada de atividades como a compostagem. "Não tem espaço e a população não permite, sem saber que é ela própria quem perde com isso."Se para uns o lixo orgânico deve ser tratado com prioridade na gestão de resíduos, para outros ele não é maior a preocupação. "Adubo bom necessita de lixo bom", diz Leonardo Tavares, gerente de Aterros da concessionária Ecourbis, administradora do Aterro São João. "É difícil ter um composto de qualidade com o lixo orgânico misturado a outros materiais. A gente acha de tudo ali, até dinheiro." Segundo Tavares, quando o adubo produzido não é de boa qualidade, ele acaba indo para o aterro para ser descartado com o lixo domiciliar. No contrato da Prefeitura com as concessionárias consta a criação de usinas de compostagem. O investimento seria de R$ 35 milhões. Com a renegociação do acordo, assinada em novembro, o que era para ser inaugurado em 2010 ficou para 2020. O gerente da Ecourbis não vê problemas nisso. "A matéria orgânica se decompõe e reduz seu tamanho, então, este tipo de resíduo não causa problemas com espaço nos depósitos." O lixo orgânico decomposto em aterros pode, ainda, ser transformado em energia, com a queima do metano. "A prioridade da Prefeitura é a construção de um novo aterro", diz Tavares. A capital não tem mais onde depositar seu lixo e depende de áreas particulares em cidades vizinhas.Enquanto se discute o que é prioritário, o destino do lixo continua sendo algo cômodo para os paulistanos. Coloca-se na frente de casa e, sem mais nem menos, ele desaparece. Parece mais fácil olhar ao redor e ver a Serra do Mar que mirar os próprios pés e enxergar a montanha de lixo que se produziu.