Paulistana com samba na veia

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Fabiana Cozza é uma das grandes expoentes do gênero nacional por excelência, que nunca sai de moda

Na cozinha da sambista Fabiana Cozza, apontada como um dos nomes mais fortes da nova safra de cantoras, a conversa de quase quatro horas é regada a café fresquinho. Antes de servir, ela tira do armário um pacote de bolacha de chocolate, explicando que aquela marca popular foi uma de suas boas descobertas gastronômicas. Depois, pega da geladeira uma especialidade sua, a berinjela ao formo, que sempre salva os amigos músicos durante as constantes visitas.

"Quem cresceu na educação do samba sabe que onde tem música, tem comida", diz Fabiana, enquanto arruma a mesa. "Por isso, a cozinha sempre é o lugar onde recebo, ao mesmo tempo em que preparo algum prato. Por mais que viaje para cantar fora de São Paulo, sempre vou ter alguma coisa para oferecer."

Essa paulistana de 33 anos é filha de uma italiana (daí vem o Cozza), professora primária, com o lendário puxador de samba da escola Camisa Verde e Branco, Oswaldo dos Santos. O paizão carrega o título de tetracampeão paulista de samba-enredo.

Foi nesse clima afro-italiano que Fabiana cresceu, na casa da avó, onde moram até hoje seus pais, na Vila Madalena. Era uma garotinha e já se deliciava com o baticum que animava o churrasco de fim de semana no fundo do quintal, sempre repleto de sambistas. Seu interesse precoce era bem diferente do da sua irmã, que não se deixava levar pelo gingado do pandeiro e da cuíca e, hoje, aos 31 anos, trabalha como enfermeira, especializada em oncologia. "Costumo brincar, dizendo que canto para que as pessoas não fiquem doentes e tenham de ser atendidas por ela", provoca.

Quando criança, Fabiana pulava de alegria nas vezes em que sua mãe a deixava ir aos batuques com seu pai e amigos. E quem tem samba no pé também não poderia ficar de fora do carnaval. Desde os 4 anos de idade, não perdia as matinês do Clube Palmeiras e os ensaios da Camisa Verde e Branco, ficando sempre bem perto da bateria. Até hoje vai ao sambódromo, no Anhembi, assistir aos desfiles, quando sua agenda permite.

O samba entrou pelas veias de Fabiana e nem mesmo a graduação em Jornalismo, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), a fez mudar de caminho. Chegou a trabalhar no portal Terra, escrevendo sobre esportes. Fez uns "frilas" (corruptela de "freelancer") aqui e acolá, escrevendo sobre música. Mas uma hora não teve jeito e, para desespero dos pais, decidiu viver de música.

"Fiz um bem para o jornalismo ao mudar de profissão", brinca a cantora. O desejo de virar a mesa amadureceu quando passou no teste da Universidade Livre de Música, atual Escola de Música do Estado de São Paulo Tom Jobim. Lá, teve como professora de canto nada menos do que Jane Duboc. Após um ano de estudos, apresentou-se como uma das coralistas do grupo montado por Jane, o Novella, no Festival de Inverno de Campos do Jordão.

Como prova de que o mundo dá voltas, retorna às 12h30 de hoje para o mesmo festival de Campos do Jordão, após 13 anos da sua estreia. Fabiana foi convidada para cantar Edith Piaf, em comemoração ao ano da França no Brasil, acompanhada pela orquestra Jazz Sinfônica, na praça do Capivari, em concerto gratuito.

FILHA DE PEIXE

Por mais que percebesse o dom da filha, o pai conhecia muito bem as dificuldades e "malvadezas" do mundo artístico, assim como a realidade do samba. Para provar que conseguiria se sustentar, Fabiana foi pedir emprego aos Trovadores Urbanos (grupo paulistano que oferece serenatas em domicílio). Durante três anos, fez muitas serenatas por São Paulo.

O impulso para deslanchar na carreira veio das muitas canjas que deu na noite, especialmente no bar Ó do Borogodó, em Pinheiros. No início, cantava às segundas, um dia difícil de emplacar apresentação e chamar público. "Comecei de forma discreta, pois queria me testar", lembra. Testou-se tanto que a segunda-feira ficou apinhada de gente para vê-la cantar, passando a ser conhecida como "o dia da Fabiana Cozza".

Até que um bambambã a descobriu. Foi o compositor e violonista Eduardo Gudin, que a convidou para participar da gravação do disco Notícias dum Brasil - Pra Tirar o Chapéu (1998). Com Gudin, apresentou-se em shows de músicos consagrados, como Ivan Lins, Chico César, Paulinho da Viola, Hermeto Paschoal, Leila Pinheiro e Elton Medeiros.

Assim, de mansinho, Fabiana foi dando as caras e encantando as pessoas com seu vozeirão afinado e com um repertório da fina flor do samba tradicional. Em 2004, lançou finalmente seu primeiro disco, O Samba é Meu Dom, sempre como intérprete.

O nome do CD refere-se à música mais emblemática, associada à cantora. A letra, composta por Wilson das Neves e Paulo César Pinheiro, sambistas da velha guarda, retrata a própria trajetória de Fabiana e era uma das mais pedidas em seus shows no bar Ó do Borogodó, onde dá canjas até hoje. Em sua cozinha, após algumas xícaras de café, ela cantarola um trecho: "O samba é meu dom / Aprendi a bater samba ao compasso do meu coração / De quadra, de enredo, de roda, na palma da mão / De breque, de partido alto e o samba-canção."

Como é de praxe, há uma longa jornada para quem quer viver apenas de música. Apesar de o seu primeiro trabalho já ter lhe rendido elogios e projeção, Fabiana precisou reforçar sua renda dando aulas de canto. Como sempre, com a cara e a coragem, foi pedir emprego no Centro Livre de Aprendizagem Musical. Ao mesmo tempo, encarou aulas particulares de teatro para lapidar seu magnetismo no palco e "conhecer meu eu artístico".

Depois disso, Fabiana atuou em musicais como A Luta Secreta de Maria da Encarnação, última peça escrita por Gianfrancesco Guarnieri, em 2001. É essa versatilidade que lhe confere uma força descomunal nos shows, pois consegue unir o seu gingado natural às técnicas de canto e de teatro. Tudo sem afetação nenhuma, o que, aliás, não combina em nada com seu perfil de batalhadora e com suas raízes humildes - uma das avós trabalhou em lavoura mineira, veio para São Paulo e passou fome até encontrar trabalho como passadeira e lavadeira.

PÉ NO CHÃO

Para lidar com seus "monstros" e sua ansiedade, Fabiana não abre mão da terapia, em sessões que seguem já há seis anos. "É importante para ter consciência do meu trabalho e para não pirar no mundo da fama", avisa. "Construí minha carreira tijolo por tijolo. Por isso, passo o tempo todo baixando minha bola."

Com os pés firmes no chão, vem esboçando um belo currículo. Tem se apresentado ao lado de nomes como João Bosco, Zimbo Trio, Banda Mantiqueira, Nei Lopes, Dona Ivone Lara - de quem se tornou amiga. Essa lista vai aumentando a cada temporada.

Um ano depois de lançar seu segundo CD, Quando o Céu Clarear, parte finalmente para sua turnê oficial, com shows marcados a partir do dia 29. Aproveita também para colocar no mercado o seu DVD, com apresentações em Belo Horizonte, Salvador, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Brasília.

Mora em um apartamento simples em Perdizes, não tem carro e boa parte do que ganha é reservada para investir na música. "Quero ampliar meu trabalho, dando melhores condições para meus músicos e minha equipe. Também quero ter o melhor cenário", afirma.

Fabiana conta com muitas parcerias, como o apoio das estilistas e designers alagoanas Ana Maia e Rosa Maria Piatti, do Viver de Arte, que elaboram um figurino exótico, ao seu gosto. "Pretinho básico não tem nada a ver comigo", avisa a cantora, que é adepta do candomblé.

Feliz da vida com o seu rumo profissional, não cansa de agradecer aos orixás e à sua mãe de santo Zezé, ialorixá de Recife, suas conquistas: amigos, viagens, reconhecimento e seu "namorido", o músico André Santos, contrabaixista de Francis Hime.